Buenos Aires, um país à parte

Nossa vizinha Argentina é famosa mundialmente por ser a terra do tango, de Maradona, do peronismo, dos alfajores, entre muitíssimas outras referências. O povo argentino também é conhecido por certas peculiaridades, entre elas a de serem um tanto arrogantes e soberbos. O que muita gente não sabe, porém, é que muitos desses estereótipos são mais condizentes com a população de Buenos Aires e não com a Argentina como um todo. Costuma-se dizer que existem duas Argentinas: a da região de Buenos Aires e a do interior. O jornalista Daniel Pardo, correspondente da BBC Mundo escreveu um artigo falando sobre as principais diferenças entre os portenhos (habitantes de Buenos Aires) e os demais argentinos. É bem interessante, confira a tradução abaixo:

Em que se diferenciam os portenhos de Buenos Aires do resto dos argentinos, e como isso influi nos famosos estereótipos do país?

Mais além da General Paz, a autopista que contorna a cidade de Buenos Aires, existe outro país, embora siga sendo o mesmo.  

Nem em toda Argentina, se dança tango. Nem todos os argentinos vão ao analista ou gesticulam como os italianos. A arquitetura neoclássica não impera em todo o país, não é em toda esquina que existem cafés e livrarias, nem há protestos  todos os dias.

E nem todos os argentinos se enquadram no famoso estereótipo que se tem deles na América Latina, segundo o qual são arrogantes, egocêntricos e enganadores: se alguém é assim —   você poder crer — são os portenhos, os habitantes da capital.

E tem outra coisa: Existem várias Buenos Aires: uma coisa é a cidade de 03 milhões de habitantes, outra é o subúrbio conhecido como  “el conurbano”  e outra a enorme província bonaerense, onde podem passar  400 quilômetros sem que alguém veja uma única alma.

Os matizes podem continuar porque portenhos  introvertidos, honestos, humildes ou generosos existem muitos, posso dizer que são a maioria.

Mas mesmo tendo em conta que todos os estereótipos são exagerados e perversos, é difícil negar que os portenhos e a gente do interior não parecem do mesmo país.

Dois países

Apesar de ser federal,  a Argentina  é uma das nações mais centralizadas da América Latina. Em Buenos Aires estão mais da metade dos times de futebol da primeira divisão, as disputas políticas locais são vistas como assuntos nacionais e o governador ou governadora da província é considerado o segundo político mais poderoso do país, depois do presidente.

A maioria dos trâmites precisa ser feito na capital e para sair do país precisa-se passar por lá. A mídia nacional reporta o clima, os roubos e os crimes de Buenos Aires, mas quase nunca os do resto do país. 

Partindo do exterior a tendência de assumir o portenho como argentino é ainda maior: o tango, a pizza com azeitonas e cebola, o cumprimento com beijos entre os homens, o teatro da rua Corrientes ou as largas avenidas são vistos como argentinos, quando na realidade são portenhos.

A diferença entre a capital e o  interior é uma marca de origem: a independência da Argentina, em 1810, na realidade foi a criação de um Estado chamado “Provincias Unidas del Río de la Plata”, no qual entravam Buenos Aires, a pampa e parte do Uruguai.

Até 1860, quando se emitiu um decreto presidencial em busca de uniformidade, a palavra “Argentina” e seu gentilício só se usavam para  se referir a Buenos Aires. As regiões próximas do Rio da Prata e Buenos Aires sempre foram um país em si mesmas, talvez mais parecidos com o Uruguai que com os extremos norte e sul do país. 

O interior, por sua vez, é vários países: um meio vazio na Patagônia, outro meio boliviano nas montanhas do norte, outro meio paraguaio na região próxima da fronteira e outro meio “cordobês”  em que alguns chamam brincando de República Independente de Córdoba.

Cada região tem sua própria dicotomia entre capital e interior, assim como seus sotaques, sua cultura, e seus injustos estereótipos: os  cordobeses tem fama de engraçados e grosseiros; os mendocinos de organizados, os patagônicos de empreendedores; os chaqueños de violentos e por vai…

Com o desenvolvimento do país em direção a Buenos Aires,  o “Interior”  machucado pelas diferenças, pode se unir ao redor de seu  — justificado — esporte favorito: zombar dos portenhos.

Não é que haja sentimentos separatistas como na Espanha, mas para muitos argentinos, o que passa em Buenos Aires é tão distante como o que passa no Brasil, digamos.

A postura frente a Buenos Aires é uma forma de protestar contra o poder que se concentra ali. E contra a indiferença dos portenhos em relação aos demais argentinos.

O que os une

Mais de 90% dos argentinos vivem em zonas urbanas, cidades médias ou grandes, longe da paisagem rural. Mas como parte dessa série de percepções exageradas, a capital se vê como desenvolvida, cosmopolita, desenvolvida,  poderosa, enquanto que o interior é visto como o rural, o selvagem, o latino americano.

Essa aparente divisão do país mostra,  para o antropólogo social Alejandro Grimson, “uma história de desigualdade e incompreensão  que se atualiza em momentos dramáticos. Mostra um país que vive olhando para o Primeiro Mundo e entende pouco das complexidades da própria terra e menos ainda dos interesses de seus diversos habitantes”.

Grimson, no seu livro  Mitomanías Argentinas, explica: “Existem argentinos que habitam uma ou outra Argentina, mas a maioria vive muito mais no meio, misturada, com alguma ilusão primeromundista e outras latinoamericanistas.

peronismo
O peronismo e o futebol são outros dois fenômenos que se expandiram por todo o país e geraram uma ideia de unidade  – Imagem – AFP 

A dicotomia entre Buenos Aires e o interior é histórica e estrutural, mas há fenômenos portenhos como o futebol e o peronismo que se reproduziram em todo o país. O interior deu a Buenos Aires o costume de tomar mate, mas Buenos Aires deu ao interior o fernet, uma bebida italiana que se tornou a marca distintiva de Córdoba.

“O regime militar (1976-1983), a guerra das Malvinas (1982), a hiperinflação de 89 e a crise de 2001 foram crises que vividas de maneira simultânea em todo o país por atores heterogêneos deram a ideia de que vivemos uma mesma história”, explica Grimson à BBC Mundo.

Desde 1976, a pobreza, a corrupção política e a delinquência se converteram  em problemas comuns para a maioria dos argentinos, que aliás, responderam a isso com a mesma moeda e de maneira quase homogênea:  com protestos sociais. 

Esta união também teve  efeitos na cultura: fenômenos como a cumbia das favelas e o culto à boliviana virgem de Copacabana se propagaram por todo o país até gerar relatos comuns.

Embora a autopista General Paz esteja em boas condições a divisão que ela propõe está cada vez mais difusa.

Fonte: BBC Mundo

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