Protestos à moda latina

Nunca se debateu tanto sobre política no Brasil. No sábado dia 29 de setembro, faltando muito pouco tempo para o primeiro turno das eleições, milhares de pessoas saíram pelas ruas do país protestando contra o candidato de extrema direita Jair Bolsonaro. Foi o famoso protesto do #ELENÃO.  No dia seguinte, outro grande número de pessoas saiu em marcha pelas ruas, dessa vez para demostrar apoio ao presidenciável. Desde as grandes manifestações de 2013, o brasileiro está se acostumando a cada vez mais  se manifestar com o intuito de demostrar seu descontentamento com o cenário político. Foi assim também em 2016 quando milhares de pessoas saíram às ruas pedindo o afastamento da presidente Dilma Rousseff, enquanto por outro lado, milhares pediam sua permanência. Desde a época dos caras pintadas, que exigiram a saída do presidente Collor em 1992, nunca mais havia existido tanta mobilização pelo país.

Pelo clima de incertezas que tomou conta do Brasil, imagino que daqui pra frente as manifestações vão ser uma constante cada vez maior. Mas nosso país não é um caso isolado na América Latina, pelo contrário, já faz tempo que nossos vizinhos demostram seu descontentamento em relação a diversos temas das mais variadas maneiras. O jornalista Ariel Palácios fez uma lista, em sua coluna na Revista ÉPOCA, de 11 curiosidades sobre as manifestações produzidas pelos latinos, confira abaixo:

1 – Frigideira-Power, o panelaço, invento chileno que os argentinos tornaram mundialmente famoso

Os primeiros ” cacerolazos” (“panelaços” em espanhol, derivado de “cacerola”, que significa “panela”) surgiram no Chile para protestar contra o presidente socialista Salvador Allende em 1971. No entanto, em 1982, 1983, 1986 e 1989 os panelaços chilenos foram direcionados contra o ditador de extrema direita, o general Augusto Pinochet, demonstrando que os panelaços não possuem exclusividade ideológica, e que podem ser uma modalidade de protesto por parte de críticos da esquerda, direita ou centro.

Pinochet-assessino
Protesto no Chile contra a ditadura de Augusto Pinochet

Em 1996, a modalidade dos panelaços atravessou a Cordilheira dos Andes, sendo adotada pelos argentinos. Naquele ano, em Buenos Aires e nas principais cidades da Argentina vastos setores das população recorreram a panelaços  para protestar contra a política neoliberal do presidente peronista Carlos Menem. Em 2001 e 2002, essa modalidade de protesto teve seu apogeu de forma quase diária contra o presidente Fernando De La Rúa, da União Cívica Radical, e os peronistas Adolfo Rodríguez Sáa e Eduardo Duhalde. Na época, na imprensa internacional, a imagem de ruas e avenidas entupidas de pessoas batendo panelas associou o “panelaço” à Argentina.

Em 2008, 2009, 2010 e 2013, houve panelaços contra o governo da presidente peronista Cristina Kirchner. O último panelaço significativo, em 2013, reuniu 700 mil pessoas em Buenos Aires. A cidade (o distrito federal) tinha 2,7 milhões de habitantes naquele ano. Isto é, 25% da cidade bateu panelas. Na capital argentina, se um panelaço não atinge a faixa de 20% da população, não é levado em conta como relevante.

Um panelaço é uma modalidade de protesto que consiste em bater utensílios de cozinha metálicos para gerar um barulho que pretende ser interpretado como o som da “irritação popular”. No entanto, o mundo do panelaço no Cone Sul é flexível: não é condição sine qua non o uso das panelas e frigideiras. Nos últimos panelaços portenhos, foi utilizada de forma intensa a garrafa de plástico, que produz um som seco também adequado para expressar irritação. Os “panelaceiros” heterodoxos portenhos argumentam que a vantagem das garrafas é que não estraga as panelas de casa, além de serem mais leves. Na contra-mão, os “panelaceiros” ortodoxos sustentam que nada substitui a sonoridade metálica das frigideiras.

argentina panelaço
Na Argentina um panelaço com menos de 20% de participação popular é considerado irrelevante

Historiadores franceses argumentam que os primeiros “casserolades” (panelaços) surgiram em Paris em 1830 para protestar contra o rei Louis-Phillipe.

2 – Piquetes, a modalidade favorita dos argentinos

Em 1996, milhares de desempregados no empobrecido interior da Argentina começaram a protestar bloqueando estradas com escombros e pneus em chamas. Chamados inicialmente de “fogoneros”, estes manifestantes foram imediatamente rebatizados como “piqueteiros”, por causa dos piquetes que realizavam nas estradas das províncias de Salta e Jujuy – no norte da Argentina – e em Neuquén, no sul. Os piqueteiros pediam comida e trabalho. Eles eram ex-integrantes da classe média das pequenas cidades do interior que dependiam das grandes estatais como a petrolífera YPF ou as Ferrovias Argentinas. Mas as privatizações da primeira metade dos anos 90 deixaram grande parte dessas pessoas sem trabalho. Com a fome assolando essas arruinadas cidades, começaram a surgir protestos espontâneos de desempregados, que, como modus operandi para pressionar o governo, decidiram bloquear estradas.

Durante o governo De la Rúa o fenômeno cresceu e chegou às grandes cidades. Nos anos seguintes, a modalidade do piquete deixou de ser exclusiva dos desempregados e foi absorvida por sindicalistas, integrantes da classe média e ruralistas (e até por fanáticos religiosos).

modus operandi mudou com o passar dos anos. No início, quando eram poucos, os piqueteiros bloqueavam estradas com pneus em chamas. Atualmente os bloqueios são feitos com “barreiras humanas” de diversas magnitudes.

Para o caso de piquetes feitos por “piqueteiros-habitués”, pertencentes a grupos sociais, os bloqueios podem contar com um acompanhamento musical de bumbos (instrumento clássico das mobilizações do peronismo e que nos últimos anos também foram usados por outros grupos políticos). O verso preferido (em caso de necessidade de cânticos de estímulo), prolongando as vogais “i” e o “e”, gritam em coro “Piiiii-queeee-teros, carajo!”

Os argentinos reservam os panelaços para grandes ocasiões. Mas, para protestar no cotidiano preferem os “piquetes”, isto é, o bloqueio de estradas ou ruas.

3 – Apagões e buzinaços, modalidades limitadas

Uma modalidade que volta e meia retorna na América Latina são os “apagões”, isto é, o ato de apagar as luzes para demonstrar que uma significativa porção da população está indignada com alguma coisa. Esta talvez seja uma das mais ilustrativas formas de protesto, já que durante um apagão é possível ver quais bairros de uma cidade apagaram suas luzes. Em 1996, os argentinos realizaram vários apagões em protesto contra a corrupção e o crescente desemprego no governo Menem. No entanto, esta modalidade possui uma limitação temporária, já que só tem efeito se realizada durante a noite.

Os buzinaços são outra modalidade para expressar a fúria contra um governo ou uma situação. Mas, requerem que as pessoas estejam sentadas em seus veículos. É eficaz, mas difícil de coordenar e os decibéis acabam sendo incômodos para os próprios manifestantes. Bater panelas está ao alcance de todos. Tocar uma buzina exclui os setores mais pobres, que não possuem automóveis.

4 – “Panelas populares”

As “ollas populares” (panelas populares) não têm a ver com os “panelaços”, mas sim com a distribuição – em uma data específica – de pratos de comida para pessoas pobres como forma de manifestação solidária, para indicar que um determinado governo federal, estadual ou municipal nada faz para combater a fome da população. Devido à possibilidade de comer nestas manifestações, o fluxo de pessoas é sempre significativo. Além disso, esta modalidade cria um vínculo entre o manifestante que alimenta e o alimentado. Este fenômeno cresceu na Argentina a partir do final dos anos 80, quando a hiperinflação assolava o país.

5 – Escraches, a manifestação personalizada

Nos anos 90 os argentinos desenvolveram a modalidade do “escrache” (escracho), que consiste em um protesto personalizado, realizada na frente das residências das pessoas-alvo. A modalidade foi usada com frequência por grupos de defesa dos direitos humanos que protestavam na frente da casa de ex-integrantes da ditadura militar (1976-83) que haviam conseguido escapar da Justiça graças às anistias. O objetivo era que a identidade da pessoa que havia cometido torturas, sequestros e assassinatos fosse conhecida por seus vizinhos. Nos “escrachos” entoam-se cânticos alusivos às mães dos supracitados, alguns epítetos, e eventualmente, o arremesso de objetos contundentes, tinta ou lama contra as janelas e paredes da residência. Os chilenos aplicam uma modalidade similar, denominada “funas”, que pretendem obter uma sanção social quando a punição jurídica foi esquivada.

6 – Sentados, contra Maduro

Desde 2014, os críticos do regime de Nicolás Maduro realizaram os mais variados tipos de protesto. Um deles é uma modalidade clássica mundial, as “marchas”. Isto é, caminhar por um trajeto pré-determinado até um ponto de concentração para realizar uma reclamação ou reivindicação. Completar o trajeto – ou não – dependerá do surgimento da polícia no meio do caminho, com intenções de descontinuar a marcha.

Outra modalidade é a dos “Plantones”, que consiste em sentar em algum lugar durante horas, em grupo, em sinal de protesto. Esta modalidade conta com a vantagem de não irritar a polícia, já que os manifestantes podem ser facilmente removidos, caso as forças de segurança assim desejarem. A modalidade – que tem um tom pacífico – também facilita a participação de crianças e idosos. Mas tampouco gera o mesmo impacto midiático de uma marcha.

7 — Guarimbas, símbolo da resistência venezuelana

Enquanto os “plantones” são pacíficos e podem ser rapidamente removidos (ou auto-removidos), uma modalidade que indica uma determinação maior de resistir são as “guarimbas”, denominação das barricadas realizadas em ruas ou avenidas. São o símbolo da resistência anti-Maduro. As “guarimbas” superam os “piquetes” argentinos, já que o formato venezuelano assemelha-se mais às barricadas realizadas na França durante a revolução de 1848, já que são altas e levam tempo para serem destruídas. O intuito é impedir a passagem de veículos das forças de segurança e de policiais (e não somente o de dificultar seu trânsito).

protesto 2 venezuela
Na Venezuela as manifestações contrárias a Maduro são reprimidas com violência

8 — Os tranques da Nicarágua

Enquanto os venezuelanos preferem realizar bloqueios de poucas horas nas ruas e avenidas, isto é, nos centros urbanos, os nicaraguenses optam pelos “tranques” (bloqueios) de vários dias de duração em estradas. A densidade dessas barricadas é de tal magnitude que, entre abril e julho, no apogeu dos protestos populares contra o presidente Daniel Ortega, as forças de segurança tiveram que usar escavadeiras para arrasar os “trancazos”.

Os “tranques” na Nicarágua possuem grande repercussão em toda a América Central, já que o fechamento das vias de transporte terrestre nicaraguense colapsa toda a região.

9 – Protesto gráfico

Os venezuelanos também contam com o “Pancartazo”, algo equivalente ao “faixaço”, já que “pancarta” é faixa ou cartaz com dizeres. O dia de um “pancartazo” é a jornada de colocar cartazes e faixas de protesto em todas as paredes possíveis. Uma espécie de overdose gráfica para expor uma situação ou indignação aos transeuntes (os pancartazos começaram também a serem usados gradualmente em cidades do interior da Argentina). Os venezuelanos também contam com a modalidade das “Vigílias nortunas”, manifestações feitas em silêncio à noite, concentrando-se em pontos específicos.

10 — Repressão, mas “informal”

A miríade de modalidades de protesto na América Latina também conta, na contra-mão, com vários formatos de repressão. Além da saraivada de cassetetes, balas de borracha e tiros de balas de chumbo disparados pelas forças de segurança formais, alguns governos que reprimem recorrem também às forças “informais” (quase sempre mais violentas, fortemente armadas). Esta repressão, na Venezuela, é exercida pelos “colectivos” chavistas, denominação dos paramilitares divididos em centenas de grupos dos mais diversos tamanhos (de dezenas a centenas de integrantes). Na Nicarágua, são as “turbas” sandinistas, militantes armados do partido governista, a Frente Sandinista de Liberação Nacional (FSLN).

11 — Em tempos de pindaíba, molotovs reconfigurados

Em 2017, durante as intensas manifestações populares contra o regime de Nicolás Maduro, os civis venezuelanos encontraram uma forma de tonificar suas marchas de protesto (e simultaneamente tentar conter a repressão policial) com os “Puputovs”, mistura de “Pupû” (forma infantil de se referir aos excrementos humanos) com “Molotov”, do coquetel Molotov, a famosa bomba incendiária caseira que se tornou popular em manifestações e guerras civis em todo o planeta, criada em 1940 pelos finlandeses para resistir à invasão da URSS. O nome, ironicamente, era uma referência ao ministro das relações exteriores soviético, Viacheslav Mólotov.

A “puputov” consiste em uma sacola de plástico cheia de excrementos que se arremessa sobre os policiais de Maduro para se defender da repressão. Outra alternativa é usar potes de maionese de 400 gramas que são arremessados contra os veículos da Polícia, como as “baleias” (veículos blindados que lançam jatos d’água e os “rinocerontes” (blindado que lança gás lacrimogênio).

A fedorenta “puputov” fazia os policiais vomitarem pelo cheiro que ficava em seus uniformes. A ironia é que a ideia dos puputov surgiu na Venezuela, onde a escassez de papel-higiênico assola os venezuelanos desde 2013. A vantagem econômica dos “puputovs”: o insumo é gratuito. Outro ponto, para rechaçar críticas sobre “imperialismo” e “influência estrangeira”: o insumo é 100% Made in Venezuela.

Por aqui no Brasil  o protesto que deixa todos em pânico, tanto governo quanto população é o dos caminhoneiros.  A maneira que eles agem pode até ser contestável, mas é sem dúvida umas das poucas classes que realmente podem ver atendidas as suas reivindicações de forma rápida em nosso país.

Seja qual for o  motivo, o mais importante é ter liberdade para soltar a voz,  apagar a luz, ou bater a panela, se você preferir…

Fonte: Site Revista Época (Globo.com)

Imagens: Reprodução Internet

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