Resgatando as origens

Beleza, charme, gingado, talento e carisma são atributos que nunca faltaram pra musa Jennifer Lopez. A diva latina não se destaca apenas por ser um ícone da música, do cinema e da moda, mas por ter superado todos os tipos de obstáculos como defensora das próprias raízes e dos direitos das mulheres.

Em 2015, a ONU nomeou Jennifer Lopez como a primeira mulher porta-voz e defensora das meninas e das mulheres, com a meta de lutar contra a violência sexual e ajudar as grávidas e mães jovens com necessidades econômicas, entre outras atribuições.

Nascida em 24 de julho de 1969, em uma família de origem porto-riquenha no bairro do Bronx, em Nova York, Jennifer sempre sonhou em ser artista, tanto que começou a fazer aulas de dança e canto aos cinco anos. Ferrenha defensora das raízes latinas, J-Lo sempre expôs suas origens nos projetos sociais nos quais está envolvida, tendo também se posicionado contra a política de imigração do presidente dos EUA, Donald Trump.

Em 2016 Jennifer se aventurou cantando em português, com ninguém menos que o rei Roberto Carlos.

Os maiores hits de sua carreira como “On the floor”, “If you had my love” “Love don´t cost a thing”, entre outros, são em inglês, mas J-Lo frequentemente retoma suas origens latinas cantando em espanhol. Em 2007 ela lançou “Como ama una mujer” um álbum inteiro em castelhano.

Essa canção faz parte do álbum “Como ama una mujer” lançado em 2007.

“O espanhol é uma língua mais descritiva e soa melhor, é uma língua romântica”, disse em entrevista ao jornal colombiano El Tiempo. Embora seja filha de porto-riquenhos, a estrela aprendeu espanhol há pouco tempo; E a atriz e cantora continua a receber aulas particulares do idioma. A própria artista comentou que é importante para ela aprender a língua para se conectar com seus milhões de fãs, e por isso considera que os filhos, Max e Emme, também devem saber falar fluentemente o espanhol.

O single “El anillo”, lançado em 2018, tem a batida do funk carioca.

Fontes: Portais – Terra e Uol.

Nos embalos da zumba

Neste ano de 2020, tivemos que mudar radicalmente nossos hábitos devido à pandemia do coronavírus. Ficar dentro de casa, em tempo integral, não é uma tarefa fácil e pode causar danos à saúde física e mental. Especialistas recomendam tentar manter uma rotina durante o isolamento, pra que não haja tantos efeitos colaterais. Uma das recomendações é tentar se exercitar dentro das nossas residências, e nesse quesito a zumba pode ser uma importante aliada.

A zumba é um exercício dançante criado na Colômbia há alguns anos, que rapidamente conquistou o público a partir de 2001, tornando-se uma das atividades favoritas do público europeu.

No modelo padrão, uma aula de zumba dura de 45 minutos a 1 hora. Um professor ultra-dinâmico lhe oferece sequências curtas de dança, acompanhadas de músicas inspiradas nas danças latinas como salsa, merengue, samba, mambo e por aí vai. O rebolado é a base da dança latina, e, portanto, da zumba. Os outros movimentos principais são saltos e giros. Para encerrar, as aulas sempre terminam com alguns minutos de alongamento.

Benefícios da zumba

  • Queima de 500 a 1000 calorias em uma aula, dependendo da intensidade do treino.
  • Por ser uma prática bem alegre, divertida, beneficia a autoestima dos seus praticantes e ainda interação com os outros alunos, tornando-se uma aula bem social.
  • Beneficia a coordenação motora, deixando os reflexos mais rápidos e melhora o equilíbrio. Isso tudo devido aos movimentos da zumba que mistura movimentos rápidos e lentos, variando a velocidade.
  • Melhora também o sistema cardiovascular, devido aos movimentos de respiração que ocorrem durante os exercícios e ajudam a saúde do coração.
  • A zumba trabalha muito os músculos inferiores (músculo da coxa, glúteo e músculo posterior da coxa e panturrilha). O que faz com que haja o fortalecimento dos mesmos, deixando sua perna e bumbum durinhos. Os músculos do CORE (abdômen, cintura e quadril) também são muito usados.
  • A atividade é ótima para a memória, pois os passos ensinados pelo professor devem ser lembrados para as próximas vezes.
  • A modalidade faz com que você se sinta em uma festa. A coreografia é fácil de aprender, uma vantagem para que o aluno não se sinta intimidado por não saber dançar.

São muitos benefícios não é verdade? Se você se interessou pela zumba recomendo que siga o canal no Youtube do professor cubano Lessier Herrera. Ele sempre posta novos vídeos com ótimas coreografias e o melhor: a maioria das músicas selecionadas está em espanhol. 😀

Fonte: Site Guia da semana

A maquiagem de dados nos anos Kirchner que abalou a credibilidade da Argentina no mundo

Um “pesadelo” para a credibilidade do país. É assim que autoridades do setor de estatísticas da Argentina se lembram do período em que os governos de Néstor e Cristina Kirchner maquiaram números para cumprir sua obstinação em manter a inflação anual em até 10% ao ano.

“Não adianta querer ocultar ou manipular nada, incluindo números. Todo mundo acaba sabendo a verdade. E foi o que aconteceu. Foi um péssimo período para o país”, recorda um ex-diretor do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec, equivalente ao IBGE).

Durante nove anos, entre 2007 e 2016, os argentinos conviveram com a falta de credibilidade nos dados oficiais de inflação e de pobreza no país.

O apagão dos índices básicos das áreas econômica e social tinha começado em janeiro de 2007, quando técnicos do Indec renunciaram denunciando “intervenção política” na formulação dos números.

“Nós mandávamos relatórios semanais para a Presidência com o índice de inflação, antes do fechamento mensal do dado. Em janeiro de 2007, a inflação caminhava para ser mais alta que nos meses anteriores. Foi aí que começaram a nos pressionar com telefonemas insistentes para mudarmos o número oficial”, recorda um ex-diretor, que falou sob a condição do anonimato. Ele diz que desde então “desistiu” de trabalhar em organismos públicos.

Poucos dias antes da divulgação do dado oficial, governantes ligaram para os diretores do instituto e avisaram o índice de janeiro de 2007 que queriam que fosse informado aos argentinos. “Primeiro, disseram que a inflação deveria ser 0,9%. E depois acabaram divulgando 1,1%. Não era muito diferente da que tínhamos calculado, de 1,5%. Mas ali já começava uma ginástica para que a inflação não terminasse o ano em 10%”, lembra.

O economista Orlando Ferreres, da consultoria OJF&Associados, de Buenos Aires, disse que a preocupação do governo com os 10% era justificada porque a Argentina tinha que pagar credores da dívida do país que tinham investido em títulos públicos atrelados aos índices econômicos.

“Os credores queriam que fosse respeitada a inflação real, não uma maquiada para baixo”, disse Ferreres. Segundo economistas, com os títulos públicos atrelados ao crescimento econômico e à inflação, os credores ganhariam mais com os dados reais e não com os maquiados.

‘Sem bússola’

Naquele ano de 2007, a inflação terminou em 8,7%, segundo o Indec. A mais baixa em quatro anos, de acordo com o instituto. Mas começaram a surgir os levantamentos alternativos.

Ex-técnicos do instituto divulgaram em janeiro de 2008 que os preços teriam subido, em 2007, entre 22,3% e 26,2% – cerca do triplo do que foi divulgado oficialmente.

Começava ali uma novela desgastante para a credibilidade nos índices argentinos, que incluiu disputas internas e internacionais.

Multas e ameaças de prisões, além de um leque de índices paralelos feitos por consultorias econômicas, universidades e pelos ex-técnicos do Indec, que protestavam na porta do organismo.

Cristina e o falecido marido Nestór Kirchner que também foi presidente do país.

A percepção, disse na época um executivo de uma empresa brasileira em seu escritório no centro de Buenos Aires, é que o país “não tem bússola”. “Levei um susto quando me ligaram aos gritos para dizer que teríamos problemas se aumentássemos nossos preços, que estão ligados ao mercado internacional”, disse, na época, sob a condição do anonimato.

‘Maquiagem grosseira’

Numa entrevista à rádio Continental, de Buenos Aires, o ex-ministro da Economia do governo do ex-presidente Néstor Kirchner, Roberto Lavagna, que liderou a pasta entre 2002 e 2005, disse que a maquiagem de dados da inflação era evidente. E comparou a falsificação dos índices aos tempos da ditadura militar no país.

Kirchner, que morreu em 2010, governou a Argentina entre 2003 e 2007 e passou a faixa presidencial para a esposa, a ex-presidente Cristina, que é vice do atual presidente, Alberto Fernández.

“O que o senhor achou da inflação oficial de 1,1% de janeiro (de 2007)?”, perguntou a radialista Magdalena Ruiz Guiñazu. Lavagna respondeu: “É uma maquiagem grosseira do índice. Quando as estatísticas de custo de vida perdem credibilidade, as de pobreza, de indigência e de distribuição de renda também perdem valor. O país fica novamente sem estatísticas que são básicas. Isso ocorreu durante o governo militar. É como se um médico estivesse falsificando os problemas de seu paciente. A maquiagem de dados é grave, afeta as instituições e a inflação em si”, disse, em fevereiro de 2007, logo depois da divulgação da inflação oficial de janeiro.

O ex-ministro disse ainda que a Argentina iria demorar para recuperar a credibilidade nos dados do país. O que de fato acabou ocorrendo.

Em maio de 2013, quando ainda faltavam cerca de três anos para que as estatísticas do Indec recuperassem credibilidade, o jornal El Cronista, de Buenos Aires, publicou um artigo intitulado “Inflación: las patas de la mentira” (“Inflação: as pernas da mentira”).

No texto, afirmava-se que a “intervenção” do Indec foi um “ponto de inflexão na guerra dos preços” na Argentina. Em dez anos, informou-se, a inflação oficial foi de 95,5% e a dos levantamentos do setor privado, de 170%.

Pobreza atinge cerca de 40% da população argentina

Durante muito tempo, ficou complicado definir o índice de aumento dos salários dos trabalhadores, com sindicatos de diferentes categorias defendendo o reajuste seguindo dados paralelos, e não o oficial.

Algumas vezes, era tirada uma média entre um e outro para se chegar a um patamar que agradasse empregadores e empregados. Como a questão envolvia ramificações internacionais, o Fundo Monetário Internacional (FMI) defendeu que o país devolvesse a credibilidade às suas estatísticas, informou a imprensa local na ocasião.

A falsificação dos dados, denunciada em 2007, continuou até 2016, quando o Indec refez sua metodologia seguindo normas internacionais.

A maquiagem denunciada gerou processos na Justiça argentina que a pedido, por exemplo, da Associação pelos Direitos Civis (ADC), determinou que o Indec explicasse como confeccionava seus indicadores oficiais. A situação provocou dúvidas sobre o total de pobreza no país – que também era alvo de dados paralelos.

A disputa levou o então secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, acusado de liderar, como informou a imprensa local, a ação contra o Indec, a determinar que as consultorias econômicas que divulgavam índices paralelos pagassem multas milionárias.

“Eu estava de férias em Punta del Este, no Uruguai, quando Moreno me ligou para reprovar a inflação que tínhamos divulgado. Expliquei que não estava na Argentina e ele me disse para telefonar aos meus assessores em Buenos Aires. Era complicado”, disse o economista Ferreres, que esteve entre os multados. A multa, contam agora consultores, também virou caso na Justiça e acabou arquivada.

O índice das consultorias econômicas tinha passado a ser chamado de “índice Congresso” porque parlamentares opositores podiam divulgá-lo sem os mesmos riscos que correriam os economistas, lembram.

Tempos depois, a pedido de opositores, Moreno foi acusado pela Justiça de “fraudar” dados básicos da economia, segundo informou a imprensa local. A Justiça entendeu que ele não tinha cometido delito e que o governo teria direito a implementar sua própria metodologia.

“A decisão confirma que o governo de Cristina Kirchner saiu com 6% de pobres. Chegaram a dizer que tínhamos deixado 30% de pobres, mas não foi verdade e acabam de nos dar razão”, afirmou Moreno, após a decisão judicial.

Naquele ano do fim do mandato kirchnerista, 2015, o índice de pobreza foi de cerca de 28%, segundo outro levantamento paralelo, o do Observatório da Dívida Social Argentina da Universidade Católica (UCA).

Definido há quase quatro anos como “confiável”, pela situação e pela oposição, o Indec informou, antes da pandemia do novo coronavírus, que a inflação de 2019 foi de 53,8%, a pobreza 35,5% e que o PIB encolheu 2,2%. Nos quatro primeiros meses deste ano, a inflação oficial foi de 9,4%. Os dados de pobreza estão em fase de coleta.

Em março de 2020, a imprensa local informou que credores que investiram nos títulos públicos argentinos voltaram a apelar à Justiça contra aquela maquiagem dos dados oficiais. A alegação foi a suposta perda de dinheiro com a “manipulação dos dados do crescimento”, o que teria afetado o valor dos papéis ligados ao PIB argentino.

Muito tempo depois, o período da maquiagem de dados ainda cobra seu preço.

Fonte: BBC Brasil

Gabo: A criação de Gabriel García Márquez

Se você ainda não leu nenhuma obra de Gabriel García Márquez, já vai colocando algum livro desse mestre na sua lista de livros a serem lidos antes de morrer. Gabo, como era chamado pelos mais íntimos, é um daqueles autores indispensáveis. Ele tinha a incrível habilidade de contar histórias, já conhecidas pelo público, de uma maneira totalmente espetacular. No documentário sobre sua vida, disponibilizado pela Netflix, entendemos melhor como o colombiano conseguiu elevar a literatura em língua espanhola a um outro patamar, através de seu realismo mágico.

No filme conhecemos a história de Gabo, desde a sua infância, na pequena cidade de Aracataca, na costa do Caribe colombiano. Aliás, o Caribe vai fazer parte de sua personalidade e também de sua obra durante toda vida, assim também como a criação por parte dos avós vai marcar profundamente sua existência.

O dom de escrever é algo natural para Márquez desde muito jovem, tanto que ele ganha a vida como jornalista, antes de si firmar como um grande escritor. O jornalismo é uma paixão que dura até a velhice de Gabo. O documentário mostra também como suas obras refletem a dor de uma Colômbia marcada por uma enorme violência, desde sua juventude e nos últimos tempos, especialmente relacionada aos conflitos do narcotráfico.

Gabo: a criação de Gabriel García Márquez traz depoimentos de familiares, amigos, colegas e admiradores do célebre autor de “Cem anos de solidão”. Um desses fãs é ninguém menos que o ex-presidente americano Bill Clinton, que se mostra um grande conhecedor da obra do colombiano.

Além dos depoimentos, o filme traz também entrevistas com o próprio autor, onde podemos ver características que sempre o marcaram: a doçura e a afetividade.

Se você também é fã de Gabo, não deixe de assistir ao filme, que é também uma linda homenagem… ❤

Países latino-americanos usam dinheiro apreendido do narcotráfico e da corrupção para combater covid-19

Com o mundo todo lutando para conter a disseminação do coronavírus, muitos países enfrentam com dificuldade o desafio de comprar o equipamento sanitário e hospitalar necessário para conter a pandemia.

Dois países latino-americanos, no entanto, adotaram uma maneira original de obter parte dos recursos extras. Argentina e Colômbia usam ativos apreendidos do narcotráfico e oriundos de outras atividades criminosas para fortalecer seus sistemas de saúde diante do avanço do vírus.

De carros a imóveis que pertenciam a criminosos suspeitos, esses bens são usados ​​para transportar ou abrigar pacientes com coronavírus ou isolar pessoas em risco devido à pandemia.

Isso é possível graças a uma figura jurídica chamada “extinção de domínio”, que se aplica a ativos supostamente adquiridos ilegalmente.

Basicamente, permite que os pertences ilícitos de pessoas acusadas de crimes como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, tráfico humano, terrorismo ou corrupção sejam colocados à disposição do Estado.

Como funciona

As pessoas investigadas por esses crimes geralmente enfrentam processos criminais, e suas propriedades, em países que não possuem um regime de extinção de domínio, só podem ser confiscadas se a pessoa for condenada (algo que pode levar anos). Com o mecanismo de extinção de domínio, o procedimento é muito mais rápido.

A justiça pode apreender fortunas de origem suspeita mesmo antes de processar criminalmente o acusado.

Nesses países, quando um juiz criminal decreta medidas cautelares sobre bens suspeitos de origem criminosa, esses bens imediatamente vão para a jurisdição civil, onde é decidido o possível confisco. Ou seja, mesmo antes de um suspeito ser processado e condenado pela Justiça, tudo o que se presume ter sido adquirido por meio de atividades ilegais passa para as mãos da Justiça civil.

Com a aplicação da extinção de domínio sobre esses bens, o suspeito perde seus direitos de propriedade sobre eles. Aí esses ativos passam para as mãos do Estado e são administrados por entidades criadas especialmente para esse fim.

Na Colômbia, onde a extinção de domínio foi aprovada por lei em 2014, esse órgão é a Sociedad de Activos Especiales (SAE). Na Argentina, que aprovou o regime no início de 2019 por meio de um decreto do então presidente Mauricio Macri é a Agência de Administração de Ativos do Estado (AABE).

Contra a covid-19

Esses dois países não são os únicos na região que adotam sistemas desse tipo. Peru, México, El Salvador, Honduras, Guatemala e Bolívia também têm figuras legais semelhantes em sua legislação, assim como vários outros países do mundo.

No entanto, Argentina e Colômbia são os dois primeiros que atribuíram a esse recurso um uso específico na luta contra o coronavírus.

No Brasil, o pacote das dez medidas contra a corrupção previa, originalmente, a criação da chamada ação de extinção de domínio, para permitir “dar perdimento a bens sem origem lícita, independentemente da responsabilização do autor dos fatos ilícitos, que pode não ser punido por não ser descoberto, por falecer ou em decorrência de prescrição”.

A Câmara chegou a tirar este ponto durante a votação, mas ele foi resgatado pelos senadores. O projeto, no entanto, ainda não foi votado novamente pela Câmara.

Na Argentina e na Colômbia, até agora, os bens apreendidos relativos a atividades ilegais foram usados ​​ou leiloados para financiar organizações que combatem o crime organizado ou para ajudar pessoas com menos recursos.

Com a pandemia, no entanto, esses bens passaram a ser usados como parte da estratégia para conter o avanço do vírus. O primeiro exemplo disso ocorreu no norte da Argentina, em 21 de março, três semanas após o país registrar seu primeiro caso de coronavírus e um dia após a decretação da quarentena obrigatória nacional.

A AABE cedeu ao governo da província de Salta, um popular destino turístico, dois hotéis para acomodar viajantes estrangeiros procedentes de áreas de risco.

Os hotéis foram duas das dezenas de propriedades que pertenciam ao clã Loza, organização de narcotráfico internacional que foi destruída em 2018 e cujos ativos foram os primeiros recuperados pelo regime de extinção do domínio argentino.

Edifícios, carros e dinheiro

Alguns dias depois, a AABE aceitou um pedido de Pilar, um município do norte da província de Buenos Aires, para dispor de um “megaempreendimento” supostamente financiado por um cartel de drogas colombiano.

Trata-se de um imenso projeto imobiliário chamado Pilar Bicentenário, que segundo a Justiça Argentina, fazia parte de uma operação de lavagem de dinheiro do cartel liderado por José Bayron Piedrahita Ceballos, atualmente detido nos Estados Unidos.

Por meio de uma resolução, a AABE aprovou a transformação do prédio em construção em um “centro de diagnóstico covid-19”.

O megaprojeto Pilar Bicentenário, que será usado como um centro de diagnóstico para a covid-19.

A Justiça da Argentina também liberou carros e dinheiro para ajudar no combate à pandemia. Em 4 de abril, um juiz da cidade de Mar del Plata, o mais famoso balneário de Buenos Aires, aceitou o pedido do prefeito local e ordenou que 26 veículos apreendidos de uma suposta quadrilha de traficantes de drogas fossem usados ​​para prestar serviços no âmbito da resposta ao coronavírus.

Os carros serão usados ​​para transportar pacientes e outras tarefas de segurança durante a quarentena obrigatória.

Dinheiro da corrupção

Fortunas apreendidas em dois dos casos de corrupção de maior destaque nos últimos anos também tiveram esse fim.

O tribunal que julgou o ex-secretário de Obras Públicas do governo Kirchner, José López, condenado por enriquecimento ilícito depois de ter sido filmado escondendo sacos com milhões de dólares em um convento, determinou que US$ 2 milhões (R$ 10,6 milhões) desse dinheiro sejam doados ao hospital pediátrico Garrahan, em Buenos Aires.

Esse verba, além de outros US$ 12 mil (R$ 63 mil), serão destinados à compra de respiradores, máscaras e óculos de proteção.

Enquanto isso, o tribunal que julga o empresário Lázaro Báez, acusado de lavar dinheiro para o governo Kirchner, entregou ao Exército “como um depósito judicial” bens que incluem 17 contêineres vazios, 300 equipamentos de proteção e 21 macas.

Colômbia

A Sociedade Colombiana de Ativos Especiais (SAE) também permitiu que alguns bens apreendidos fossem utilizados provisoriamente para ajudar a combater o coronavírus.

“Para apoiar o governo e entidades territoriais no tratamento dessa contingência, a SAE ajustou os procedimentos internos”, explicou Virginia Torres, presidente da SAE, ao jornal El Tiempo. “Isso garante que os ativos gerenciados possam ser usados ​​e adequados como instalações para tratamento, isolamento e atendimento, sem atender a outros requisitos comuns”.

Propriedades apreendidas pela SAE que podem ser usadas como abrigos para mulheres que correm risco de sofrer violência doméstica.

Entre as propriedades que a entidade ofereceu estão o Hotel Benjamin, na cidade de Santa Marta, no norte do país, que pertencia ao israelense Assi Mosh, expulso da Colômbia em 2017 por supostos vínculos com redes de prostituição. E um ex-prostíbulo conhecido como “El Castillo”, no centro de Bogotá, oferecido ao Instituto Nacional Penitenciário e Prisional (Inpec) para abrigar prisioneiros infectados com a covid-19, para que estes não infectem o resto da população carcerária.

A SAE também disponibilizou às autoridades regionais 65 prédios a serem utilizados durante a pandemia como abrigos para mulheres que correm o risco de sofrer violência doméstica durante o isolamento obrigatório .

Fonte: BBC Brasil

Como vivem os brasileiros na Antártida, o único continente sem coronavírus

Um grupo de 16 militares da Marinha do Brasil — 15 homens e uma mulher — permanecem em um “isolamento dentro do isolamento” na Antártida, o único continente do mundo onde não há casos confirmados do novo coronavírus.

Eles moram e trabalham na nova Estação Antártica Comandante Ferraz desde sua reinauguração, em janeiro deste ano, após um incêndio que destruiu parcialmente a estrutura anterior e causou a morte de dois militares em 2012.

E, agora, por causa da pandemia de covid-19, também já não podem mais se encontrar com integrantes de outras bases, como a Estação Polonesa Henryk Arctowski, a mais próxima da brasileira, distante cerca de dez quilômetros. Visitas turísticas também foram vetadas.

A BBC News Brasil conversou por videochamada com dois integrantes do grupo: o capitão de fragata Luciano de Assis Luiz, chefe da estação, e a capitã-tenente Letizia Aurilio Matos, médica.

“Nosso contato com o mundo exterior é apenas por telefone ou videochamada. Mas, diferentemente de vocês, fomos preparados para esse isolamento”, resume Luciano.

Manter a rotina

A jornada dos 16 militares começou em 4 novembro do ano passado, quando desembarcaram na Península Keller, na ilha Rei George, onde fica a estação brasileira, para a missão de passar 13 meses no continente gelado — ou seja, antes de o coronavírus se alastrar pelo mundo.

São 16 militares da Marinha do Brasil que vivem atualmente no continente gelado.

Inicialmente, ocuparam o Módulo Antártico Emergencial (MAE) até a inauguração oficial da estação, em 15 de janeiro deste ano.

Desde então, nenhum deles deixou a Antártida — até a primeira quinzena de dezembro, vão permanecer isolados do restante do mundo.

A troca das equipes é feita durante o verão, uma vez que as temperaturas mais amenas facilitam a logística. É também nessa época que a estação brasileira recebe pesquisadores, responsáveis por coordenar estudos de ponta.

“O mais importante aqui é manter uma rotina. Um padrão de trabalho. Horário para acordar. Horário para trabalhar. Horário para fazer atividades físicas. Horário para se integrar”, diz Luciano.

Ele conta que, a partir de março, com o fim do verão, os pesquisadores vão embora e os militares se dedicam, principalmente, a atividades relacionadas à manutenção da estação.

“Temos que manter os geradores funcionando. Toda a parte de limpeza, geração de energia, tratamento de água. Também precisamos que verificar os módulos externos e os refúgios”, explica.

Essas incursões externas são sempre precedidas de uma análise de riscos, acrescenta o comandante.

Academia de ginástica é uma das amenidades da nova estação.

“Faço a análise de riscos no dia anterior. Avalio aspectos como temperatura, pressão e velocidade do vento. Por exemplo, quando a pressão está caindo, é sinal de que vai vir uma tempestade. Também checo as previsões nos sites meteorológicos”, enumera.

“Já aconteceu três ou quatro vezes de pedir para a equipe retornar à estação. Dependendo do local, isso pode demorar de quatro a seis horas”, acrescenta.

O único caso de emergência aconteceu com uma alpinista brasileira durante o verão, lembra Letizia.

“Ela caiu de uma altura de três metros. Fizemos toda a a estabilização aqui no setor de saúde da estação. Entramos em contato com o hospital da Marinha no Rio de Janeiro, para consultar as condições clínicas da paciente, e fizemos a evacuação aeromédica. Machu Picchu (a base peruana) nos ajudou”, diz.

Desde então, acrescenta Letizia, “houve outros episódios, mas de menor complexidade. Os meninos pegam muito peso e, algumas vezes, têm dores articulares”, acrescenta.

Letizia Aurilio Matos é a médica da estação.

O desafio maior, no entanto, ocorre agora durante o inverno, quando os mares em volta da estação congelam, as temperaturas caem para menos de 20 graus negativos e a escuridão impera — não há praticamente luz do sol.

Só há duas estações polares: verão e inverno (cada um dura seis meses). Isso porque os polos recebem menos energia e calor do Sol, devido à inclinação e órbita da Terra.

Também durante o inverno, alimentos perecíveis e outros itens de necessidade são atirados pelos Hércules C-130 da Força Aérea Brasileira (FAB), uma vez que não é possível mais pousar na estação, devido às baixas temperaturas.

“São pacotes fechados que caem de paraquedas. Recebemos frutas, legumes, verduras, laticínios e ovos”, diz Luciano.

A alimentação é completada por produtos congelados, estocados na estação.

Crescimento pessoal e profissional

Os militares destacam o crescimento “pessoal e profissional” que vêm tendo em meio à experiência de viver na Antártida.

“Uma das coisas mais importantes aqui para mim é o crescimento pessoal. Aprendi a ouvir mais e a lidar melhor com as pessoas. Tenho que saber lidar entre ser militar e ser família. Não dá para ser militar 100% e não dá para ser família 100%. É preciso equilibrar”, diz Luciano.

Letizia completa: “O engrandecimento profissional é maravilhoso. Não tenho nem palavras. Somos mais do que uma família. Temos afinidades e diferenças. Mas essas diferenças nos fortalecem e nos unem cada vez mais”.

Laboratórios servem aos pesquisadores durante verão.

Saudades

Além das saudades da família e dos amigos, os militares também dizem sentir falta tanto de alimentos quanto de cores — e até mesmo do barulho típico das zonas urbanas.

“Parece besteira, mas sinto falta de verduras, frutas”, diz Luciano.

“Sinto falta de cores no ambiente. Aqui é muita terra e neve. Também não tem barulho”, acrescenta Letizia.

Para Luciano, não existe “super-homem” na Antártida.

“Sou mergulhador. Estava acostumado com o frio. Aqui o buraco é muito mais embaixo. Ou você sai equipado com luvas e protetor solar, ou vai acabar o dia com problema. Aqui não existe super-homem. É preciso estar consciente dos seus limites”, diz.

Já Letizia diz que quando chegou e contemplou “toda a dimensão” do continente gelado, ficou “surpresa”.

“Nada do que a gente vê pela TV se compara a estar aqui. O frio, as montanhas, a neve”, diz.

“A fauna e a flora são muito ricas. Parece que não, pois tudo é preto e branco. Mas não se trata de um ambiente estéril. O que tem mais aqui é vida”, conclui Luciano.

Nova estação custou quase 100 milhões de dólares

Nova Estação

A um custo de US$ 99,6 milhões (cerca de R$ 490 milhões em valores atuais), a nova estação é maior e mais moderna do que a anterior.

Dividida em três grandes blocos, possui 4,5 mil metros quadrados de área construída, 17 laboratórios e capacidade para até 64 pessoas. Também conta com biblioteca, uma academia e sala de vídeo/auditório.

Segundo o governo, o objetivo é realizar pesquisas em áreas como oceanografia, biologia, glaciologia e meteorologia.

A Estação Antártica Comandante Ferraz foi instalada pela primeira vez ali em fevereiro de 1984.

Fonte: BBC Brasil

Qual a fórmula da Costa Rica para ter o menor número de mortes pelo coronavírus na América Latina?

Depois de enfrentar uma noite com febre, fortes dores de cabeça e nos ombros, Henry* não hesitou em ir ao centro de saúde na manhã seguinte em San José, Costa Rica.

Foi em 9 de março, três dias após o primeiro caso do novo coronavírus Sars-CoV-2 ter sido detectado no país, que até maio registrava pouco mais de 700 infecções e apenas 6 mortes.

No centro de saúde pública, ele e sua mãe, que também apresentava sintomas, foram submetidos a alguns testes básicos e enviados de volta para casa.

“Eles me disseram que eu tinha uma infecção na garganta”, ele conta à BBC News Mundo, o serviço espanhol da BBC, por telefone.

O venezuelano de 50 anos, residente na Costa Rica, suspeitava ter pego a covid-19 em seu escritório, pois outro funcionário teve resultado positivo alguns dias antes, depois de voltar de uma viagem à Europa.

Em 17 de março, Henry voltou ao centro de saúde para novos exames. Quatro dias depois, recebeu um e-mail: ele e sua mãe deram positivo para covid-19.

Apesar de ter outras doenças, e de sua mãe pertencer a um grupo de risco por ter 70 anos, seu tratamento teve que ser realizado em casa. Sua esposa e filha também foram infectadas.

Henry garante que eles nunca se sentiram abandonados com sua doença, pelo contrário.

“De 21 de março e até finalizar o tratamento os médicos vieram aqui pelo menos um dia sim e um dia não para acompanhar de perto a progressão da doença”, explica Henry.

Eles foram visitados por profissionais de saúde das Equipes Básicas de Assistência Integral à Saúde (Ebais), e o médico ficou em contato com a família por meio de mensagens do WhatsApp.

As Ebais têm sido a primeira linha de resposta à pandemia na Costa Rica e é um dos fatores que permitiram ao país ter a menor taxa de mortalidade por covid-19 na América Latina, dizem especialistas.

Profissionais da saúde vão até as casas dos pacientes para acompanhar tratamento.

“Nossa melhor vacina contra a covid-19 é ter uma população disciplinada e educada e um sistema de saúde bastante consolidado”, disse à BBC Mundo o Dr. Luis Villalobos, especialista em saúde pública da Costa Rica.

“Não investimos no Exército (o país não tem Exército), mas gastamos muito em saúde, previdência e educação, e isso tem sido muito importante”, acrescenta o também ex-reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Costa Rica.

Um sistema de saúde sólido

Villalobos explica que o sistema de saúde do país já foi muito fragmentado, mas as reformas nos anos 90 e 2000 criaram um esquema sólido que lhe permitiu responder a essa pandemia.

As Ebais têm mais de mil centros de saúde espalhadas pelo país, com médicos, enfermeiros, assistentes técnicos e farmacêuticos. A ênfase foi na fase de detecção, crucial para conter infecções.

Como no caso de Henry, quando uma possível infecção é identificada, o monitoramento ativo dos sintomas é mantido até a confirmação. Ele só é hospitalizado se há um agravamento.

O órgão que cuida da saúde e do bem-estar dos costa-riquenhos, a Caixa Costa-Riquenha de Seguro Social, possui uma dúzia de hospitais nas sete províncias do país, disse o Ministério da Saúde do país à BBC News Mundo.

Os momentos mais complicados nos últimos meses ocorreram entre 19 de março e 3 de abril, quando foram confirmadas 325 novas infecções. O pior dia foi 24 de março, com 60 casos.

A Costa Rica é um dos países com a menor taxa de letalidade por coronavírus na América Latina e no mundo. A taxa de letalidade, que indica o número de mortos entre pacientes infectados, é de 0,86%, segundo cálculos da BBC News Mundo com dados da Johns Hopkins University, localizada nos EUA. No Brasil, a média nacional é de 6,8%, segundo o Ministério da Saúde.

Tudo isso se deve em grande parte ao fato de a Costa Rica ser um dos poucos países das Américas (junto com EUA, Canadá, Cuba e Uruguai) que investe mais de 6% do Produto Interno Bruto em saúde.

Ter sistemas de saúde “menos fragmentados, abrangentes, organizados, que manejam bem as informações das pessoas sob seus cuidados”, como na Costa Rica, é o que outros países devem procurar, aconselha Villalobos.

De que outra forma o país foi protegido?

Quando a contagem de casos na Costa Rica atingiu sua primeira dezena, o governo tomou decisões semelhantes a outros países.

Aglomerações, escolas, turismo e atividades sociais foram suspensas e a fronteira foi fechada.

Além disso, foram lançadas campanhas para promover o trabalho em casa, lavagem das mãos e distanciamento social.

Especialistas e autoridades destacam que os costarriquenhos seguiram as instruções notavelmente, diferentemente de outros países.

Um relatório do Google baseado na localização de telefones celulares mostrou que as visitas a lojas e espaços públicos foram reduzidas em 84% e a praias ou centros de recreação, 82%.

“Muitos reagiram. Eles entenderam o momento histórico que estamos vivendo, é um momento muito delicado”, disse o ministro da Saúde, Daniel Salas, na semana passada.

A prática de distanciamento social vem sendo cumprida pela população.

Villalobos concorda com isso, e acrescenta que a transmissão de informações por telefones celulares e o acesso universal à água potável fazem parte da fórmula de sucesso do país no combate ao coronavírus.

“O fato de praticamente 100% da população ter água em casa nos permite tornar a comunicação de lavagem das mãos muito eficaz entre a população”, ressalta.

Pisando em ovos

A Costa Rica tem uma população de 5 milhões, dois terços vivendo na região metropolitana de San José, a capital do país.

Isso permitiu que as autoridades concentrassem recursos nas fontes mais importantes de infecção.

A Costa Rica, no entanto, não está isenta de riscos.

A proporção de testes, de 250 por 100 mil habitantes, está na média da de outros países latino-americanos; políticos da oposição disseram que é pouco.

Além disso, o movimento constante dos nicaraguenses — 8% da população da Costa Rica — levantou questões sobre como controlar o fluxo de pessoas do país vizinho, que não tomou medidas preventivas e registra a mais alta taxa de letalidade por coronavírus da América Latina.

O ministro Salas é cauteloso em relação ao futuro próximo, pois alerta os costa-riquenhos de que o retorno à normalidade não pode ser acelerado, nem ocorrerá no médio prazo.

“A maioria da população, devido ao pouco tempo de presença do vírus em nosso país, não foi exposta, não foi infectada pelo vírus. Podemos ter um aumento de casos, cadeias de transmissão, em pouco tempo”, diz ele.

O país está andando sobre “cascas de ovos muito frágeis”, alerta.

Fonte: BBC Brasil

Pequena cidade na Argentina é totalmente isolada após churrasco “fatal”

Em 19 de março, o presidente argentino, Alberto Fernández, anunciou em sua residência oficial em Buenos Aires que no final do dia a Argentina se tornaria um dos primeiros países da região a entrar em quarentena obrigatória.

No entanto, a centenas de quilômetros de distância, em uma pequena cidade da Patagônia, um grupo de vizinhos decidiu que o decreto presidencial não iria atrapalhar seus planos de desfrutar de um churrasco de domingo.

Não era apenas um churrasco: era também uma festa de aniversário; então, depois de comer, o grupo de familiares e amigos seguiu comemorando.

Comeram churrasco e compartilharam cerveja e vinho da mesma garrafa”, disse o prefeito da Loncopué, no oeste da Argentina, onde o evento foi realizado.

A violação das regras acabou provando-se mortal. Alguns dias depois, o aniversariante, um homem de 64 anos, morreu. As autoridades de saúde confirmaram seu diagnóstico positivo por covid-19.

Outro homem de 68 anos, que nem participou das celebrações, morreu após ter sido infectado por um dos filhos do aniversariante.

E pelo menos 29 moradores de Loncopué testaram positivo para o vírus, um deles uma mulher de 61 anos que teve que ser hospitalizada em um hospital próximo.

O tamanho do surto levou as autoridades regionais a declarar o isolamento total desta cidade de cerca de 6.000 habitantes, bloqueando as vias de acesso. Todas as lojas também foram fechadas.

O promotor que ordenou o isolamento disse que tomou a decisão “para a proteção da saúde pública de todos os cidadãos da cidade, locais próximos e da província em geral”.

O presidente Alberto Fernández foi um dos primeiros líderes nacionais a decretar o isolamento social na América Latina.

Lição

Por sua parte, o prefeito de Loncopué, Walter Fonseca, alertou que “às vezes, quando a quarentena não é realizada adequadamente, essas coisas acontecem”.

“Tem que ser uma lição para pessoas de outros locais entenderem que isso (isolamento social) não é uma piada”, disse ele ao canal de notícias A24.

“Quarentena significa quarentena: você tem que ficar em casa, não pode receber visitas nem nada do tipo.”

“Lamentamos profundamente o que aconteceu conosco, a perda de nossos vizinhos”, disse ele.

Paciente zero

Os pesquisadores ainda não foram capazes de determinar quem foi o “paciente zero” que levou o coronavírus para Loncopué.

Provavelmente, acreditam eles, um vizinho contraiu o vírus durante uma visita a uma cidade vizinha, onde outras infecções foram registradas.

Eles estão convencidos de que o fatídico churrasco teria sido uma das principais fontes de propagação. Vários dos participantes estão entre os casos que deram positivo para a covid-19.

Mas os primeiros que morreram como resultado desse contágio nem participaram da celebração.

O filho da vítima, Claudio, disse que seu pai provavelmente contraiu o vírus de um vizinho, um jovem gasista, que o ajudou a limpar seu aquecedor.

O jovem era um dos filhos do aniversariante, o homem de 64 anos que acabaria morrendo um dia depois do pai de Claudio.

A partir desses dados, as autoridades concluíram que o provável foco inicial de contágio havia sido o churrasco em 22 de março.

Eles imediatamente rastrearam e isolaram os outros participantes daquele evento, vários dos quais foram diagnosticados positivo para a covid-19 (embora muitos sem sintomas).

Falta de consciência

Apesar do drama que está gerando, o coronavírus não conseguiu dividir esta cidade, principalmente dedicada à pecuária, mineração e comércio.

Um símbolo disso foram as palavras de Cláudio, que apesar de ter perdido o pai, garantiu que não guarda rancor contra as pessoas que participaram do churrasco.

“O que aconteceu foi resultado da falta de consciência, mas não havia intenção maliciosa”, disse ele ao canal de notícias da TN.

Ele também enfatizou que seu pai, que estava em uma cadeira de rodas, tinha um relacionamento “muito agradável” com seu vizinho gasista e que ele e sua família eram muito gratos ao jovem por todas as vezes que ele o ajudara.

As duas famílias até falaram ao telefone e lhe ofereceram suas condolências pelas perdas.

Autoridades fecharam os acessos a Loncopué para tentar conter a disseminação do vírus.

Muito longe

O Ministério Público informou que abriu uma investigação para determinar as responsabilidades criminais dos moradores que participaram do churrasco.

No entanto, a imprensa local garante que eles não foram os únicos que violaram a quarentena obrigatória em Loncopué.

Nas últimas semanas também houve outros eventos, como churrascos e casamentos, dizem eles.

Daniel, outro filho do aniversariante que morreu, admitiu no jornal “La Nación” que uma certa “mentalidade de cidade pequena” estava jogando contra eles.

“Foi algo que havia acontecido muito longe dali”, disse ele. “Pensamos que (o vírus) nunca chegaria aqui.”

“Agora o temos entre nós, na cidade”, lamentou…

Fonte: BBC Brasil

Buenos Aires adota operação de choque para evitar propagação do coronavírus em favelas

Uma tropa de cerca de 300 pessoas, vestidas com macacões, máscaras e óculos de acrílicos, entra nas ruas de terra para conter o novo coronavírus nas casas simples do bairro José Luis Cabezas, na província de Buenos Aires. O lugar é cercado por policiais. Os soldados, com apoio de sanitaristas e voluntários, controlam as entradas e saídas do local. Cada morador abre os braços em cruz e é borrifado para que seja eliminado o vírus das suas roupas. Dentro do bairro, eles têm as mãos higienizadas, por algum integrante da tropa, com um spray de álcool em gel.

Cinquenta casas, muitas de chapa, com cerca de 250 moradores, próximas à linha férrea, foram bloqueadas. Os moradores devem ficar isolados durante, pelo menos, 15 dias. Aqueles com qualquer um dos sintomas da covid-19, que pelos tamanhos de suas casas não possam realizar o isolamento, são levados para um hotel, universidade ou hospital de campanha preparados para recebê-los. Aqueles que testam positivo para a doença causada pelo novo coronavírus são encaminhados para tratamento hospitalar, contaram à BBC News Brasil assessores da Secretaria de Saúde da província de Buenos Aires.

“Os moradores que estão isolados recebem alimentos, atenção psicológica, e contam com apoio para o que precisem”, disseram. A bateria de iniciativas, anunciou o governador da província, Axel Kicillof, inclui assistência social para que sejam evitados registros de violência de gênero durante o confinamento.

Os demais moradores, do bairro de cerca de 1.200 habitantes, são parados nos controles policiais e sanitários cada vez que precisam entrar e sair do local. A localidade de José Luis Cabezas, a cerca de uma hora do centro de Buenos Aires, é a segunda da província de Buenos Aires, que é a maior da Argentina, a ser alvo da operação de choque contra o coronavírus.

Vila blindada

No dia 24 de maio, outra tropa de médicos, infectologistas e voluntários, vestidos de macacões e tocas brancas e óculos de acrílicos, isolou a Villa Azul, na mesma província. O lugar com cerca de 5.000 habitantes também foi cercado por policiais. La Villa (na Argentina, sinônimo de comunidade carente, de favela) foi blindada depois que o mapa de coronavírus mostrou a curva ascendente de casos e que “sete de cada dez pessoas testadas tinham tido resultado positivo para a doença”, de acordo com informação oficial.

Como o bairro José Luis Cabezas, que está próximo de grandes conglomerados habitacionais, como Villa Catella, com 15 mil habitantes, a Villa Azul está a poucos metros de uma Villa muito maior, chamada de Villa Itatí, que também tem pelo menos 15 mil habitantes, segundo os últimos dados oficiais disponíveis. Foi temendo que o vírus alcançasse os lugares com maior densidade demográfica que os governos locais decidiram cercá-los com o que foi batizado de “cordão sanitário”.

Assim que Villa Azul, com casas de alvenaria grudadas umas nas outras e ruelas sem asfalto, com áreas com esgoto a céu aberto, foi bloqueada, alguns moradores disseram à imprensa local que se sentiam eles mesmos bloqueados, já que não podem sair à rua do próprio bairro. Entre os moradores, como ocorre em outras villas de Buenos Aires, muitos são, além de argentinos, imigrantes paraguaios, peruanos, bolivianos e chilenos que chegaram ao país ao longo das últimas décadas.

Doze dias depois do início da operação, uma moradora disse ao canal de televisão Telefe, de Buenos Aires, que estava preocupada. “Muitos de nós aqui temos trabalhos (considerados essenciais e autorizados a serem realizados pessoalmente). E agora estamos com medo de perder o trabalho. São muitos dias isolados”, disse a moradora que se identificou como Valeria. Para o governo, são reclamações isoladas, já que a maioria entendeu a importância da estratégia de evitar mortes pela doença no local. “Eu apoio o isolamento porque se o vírus se expandir aqui, aí sim será pior”, disse a moradora Gloria Teresa Guevara à imprensa local. O Coronavírus já fez vítimas fatais na comunidade: Dois moradores de Villa Azul, que já tinham problemas de saúde, faleceram no hospital, acometidos pela Covid-19.

A estratégia de apartar uma comunidade inteira é a mesma aplicada nos asilos com casos de coronavírus, disseram assessores do vice-ministro da Saúde, o médico e sanitarista Nicolas Kreplak, que esteve na operação inicial de choque contra o vírus no local. “Temos que reduzir a circulação do vírus, não podemos relaxar”, disse Kreplak. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, usou uma metáfora para justificar a medida. “É como apagar um foco de incêndio. Um foco que temos que evitar que se esparrame”, disse.

Depredador

O infectologista Pedro Cahn, que integra o comitê de especialistas que assessoram o presidente Alberto Fernández, reconheceu que existe um “conflito de direitos”, quando um lugar é isolado, mas que existe algo “muito maior” em jogo neste momento. A decisão do isolamento da Villa Azul foi tomada em consonância entre prefeitos, o governador da província de Buenos Aires e Fernández.

“Esse direito (de ir e vir) poderá ser recuperado em 15 ou 20 dias, quando a situação ali estiver controlada. Mas enquanto isso, estaremos fazendo algo muito maior, que é salvar vidas”, disse Cahn à emissora de televisão TN, de Buenos Aires.

Profissionais de saúde visitam residências em comunidades carentes para prevenir e diagnosticar casos de coronavírus na Argentina

Para os infectologistas que assessoram Fernández, o vírus está sendo “depredador” entre os excluídos nas Américas, como afirmou Luis Camera, que também faz parte do comitê especial de combate ao coronavírus. “O vírus foi um depredador dos afro-americanos, em vários lugares dos Estados Unidos, atingiu brutalmente Guayquil, no Equador, e Manaus, no Brasil. Na Argentina, felizmente, a mortalidade é baixa. Mas já sabemos que ele ataca aos mais pobres na América Latina”, disse Camera. Segundo estudiosos argentinos, no caso específico das comunidades carentes do país, os baixos índices de mortes estariam ligados a idade dos seus habitantes, onde muitos são jovens. Para Camera, o isolamento é uma das poucas ferramentas disponíveis contra a virulência do coronavírus.

Mas a iniciativa de blindagem gerou críticas de setores opositores. “É uma medida que estigmatiza”, disse o ex-ministro da Saúde do governo Macri, Adolfo Rubinstein. Setores ligados ao ex-governo de Mauricio Macri, anterior e opositor do atual de Fernández, como o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, têm atuado, porém, em sintonia com as medidas do governo central e da província de Buenos Aires, da mesma linha política do atual presidente argentino.

Um dos líderes do movimento político e social Barrios de Pie, que trabalha no Ministério do Desenvolvimento Social, Daniel Menéndez, disse que a Villa Azul tinha virado “um gueto”. Em meio às críticas, o governador Kicillof disse que nenhum lugar estava livre de ser blindado. “Essa medida não é exclusiva dos bairros populares. Elas também podem incluir condomínios ou edifícios. O principal é colocar um freio no vírus”, disse.

Condições difíceis

A província de Buenos Aires tem cerca de 1,7 mil comunidades carentes reunidas, principalmente, no que é definido como “conurbano bonaerense”, que reúne a periferia urbana da cidade de Buenos Aires e parte do território provincial. Nos mapas epidemiológicos, elas representam menos de 20% do total de casos de coronavírus, mas viraram o foco das medidas dos governos pelas condições difíceis em que muitos vivem, sendo impossível o cumprimento do distanciamento social ou até da higienização necessária por falta de água corrente e potável.

Com cerca de 16 milhões de habitantes, a província, que também reúne condomínios de classes média e alta, além de fábricas e produção agrícola, representa em torno de um terço da população de 44 milhões de habitantes do país.

Fonte: BBC Brasil

A Burocracia

Eduardo Galeano é um dos escritores mais conhecidos e amados em Língua Espanhola. Com um jeito bem peculiar de escrever, o uruguaio conquistou admiradores pelo mundo inteiro. Galeano tinha, como ninguém, a habilidade de fazer críticas à sociedade de uma maneira perspicaz, bastante inteligente e irônica, como nessa crônica, chamada “Burocracia”, publicada em seu “Livro dos Abraços”.

Confira abaixo:

Sixto Martínez fez o serviço militar num quartel de Sevilha.

No meio do pátio desse quartel havia um banquinho. Junto ao banquinho, um soldado montava guarda. Ninguém sabia por que se montava guarda para o banquinho. A guarda era feita porque sim, noite e dia, todas as noites, todos os dias, e de geração em geração os oficiais transmitiam a ordem e os soldados obedeciam. Ninguém nunca questionou, ninguém nunca perguntou. Assim era feito, e sempre tinha sido feito.

E assim continuou sendo feito até que alguém, não sei qual general ou coronel, quis conhecer a ordem original. Foi preciso revirar os arquivos a fundo. E depois de muito cavoucar, soube-se. Fazia trinta e um anos, dois meses e quatro dias, que um oficial tinha mandado montar guarda junto ao banquinho, que fora recém-pintado, para que ninguém sentasse na tinta fresca.

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