Jornais unidos contra o coronavírus

A pandemia do novo coronavírus está promovendo imagens que vão durar por muito tempo em nossa memória. Uma delas veio da nossa vizinha Argentina. No dia 19 de março os principais jornais do país tiveram a mesma capa, mostrando a união contra o poderoso inimigo invisível.

A decisão de unificar as capas dos jornais impressos de circulação nacional faz parte da campanha #SomosResponsables, que visa conscientizar a população acerca das medidas de prevenção e combate à pandemia.

Na capa dos jornais, a mensagem: “Paremos o vírus juntos. Vamos viralizar a responsabilidade”. Entre as medidas estimuladas pela campanha está o isolamento social. A iniciativa foi promovida pela Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas (Adepa).

No dia 23 de março foi a vez da imprensa brasileira aderir à campanha de unificação das capas, com o lema “Juntos vamos derrotar o vírus: Unidos pela informação e pela responsabilidade”. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) publicou nota que explica a iniciativa: “Em uma ação inédita no país, dezenas de jornais brasileiros unificam suas capas hoje na segunda fase da campanha da Associação Nacional de Jornais (ANJ) de apoio ao combate ao coronavírus e à desinformação, que agrava as consequências da doença Covid-19. (…)

“Em situações dramáticas como a que vivemos, informação precisa e contextualizada é um bem ainda mais essencial”, enfatiza o jornalista Marcelo Rech, presidente da ANJ. “A ação demonstra a unidade dos jornais brasileiros em torno de uma causa comum: servir a população com jornalismo de qualidade para, com a responsabilidade que o momento exige, enfrentarmos e vencermos a pandemia”, completa.

Fonte: Uol Notícias e Jornal Correio do Povo

A hora e a vez dos perdedores

Qual cidadão comum, trabalhador,  honesto, pagador de impostos,  que nunca se sentiu fazendo papel de bobo em algum momento da vida? Pra quem nasceu em países marcados pela corrupção e desigualdade social como o Brasil então,  essa sensação é bem frequente. O novo filme de Ricardo DarínA Odisséia dos Tontos” (La Odisea de los Giles) faz uma homenagem a essas pessoas que são, sem dúvida, maioria no mundo.  

A produção é uma adaptação do livro de Eduardo Sacheri (La Noche da la Usina) que venceu o prêmio Alfaguara em 2016.  Dirigido por Sebastián Borensztein, o filme é um terno e divertido retrato dos perdedores que se vingam das injustiças cometidas por um bando de desalmados. A película tem um sabor especial para Darín, já que é a primeira vez que ele contracena com o filho Chino nas telonas.

O enredo do filme se passa no ano de 2001, época em que a Argentina passou pela maior crise econômica de sua história. O governo local havia implementado o corralito, medida que impedia que as pessoas que tivessem dinheiro em bancos pudessem sacar suas economias. Algo semelhante ao que ocorreu no Brasil, anos antes, no governo Collor.

Imaginem só o desespero que deve ter tomado conta da população que de um dia pro outro foi privada de utilizar recursos que eram próprios por direito.  O corralito, como é fácil de presumir, chegou a causar até mesmo mortes.   Um dos casos mais emblemáticos no país foi o do jornalista esportivo Horacio García Blanco, morto, aos 65 anos, seis meses após o ex-presidente Fernando de la Rúa impor as restrições.

García Blanco, que sofria de diabete e pressão alta, entrou na Justiça para tentar liberar suas poupanças e usar o dinheiro para viajar à Espanha. Com cidadania argentina e espanhola, pretendia fazer um transplante de rim em Madri, onde a operação era mais difundida.

“Havia uma exceção no corralito que permitia que idosos e doentes sacassem suas economias”, conta a advogada e amiga do jornalista, Mónica Alicia Damuri. A Justiça, porém, liberou apenas 10% do dinheiro que García Blanco tinha, volume insuficiente para bancar a viagem. Mónica recorreu, mas ele morreu de insuficiência renal antes de uma nova decisão. “O corralito era inconstitucional. Violava o direito à propriedade”, destaca, indignada, a advogada.

Conhecido nacionalmente por comentar, na rádio, lutas de boxe e partidas de futebol, o jornalista morou o último ano de sua vida na casa de Mónica. Era o marido da advogada que buscava García Blanco diariamente das sessões de hemodiálise. “Quem conheceu Horacio de perto viu como o corralito foi prejudicial”, diz a advogada.

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O congelamento dos saques nos bancos (corralito) levou milhares de argentinos a protestarem.

Para homenagear a todos os que sofreram com essa medida devastadora e também para não deixar que ela caia no esquecimento Ricardo e Chino Darín, além de atuarem, também produziram La Odiseia de Los Giles. Na Argentina chamam de gil àquelas pessoas trabalhadoras, boas, iludidas e um tanto ingênuas. Ricardo e seu filho não têm dúvidas: “Nós também somos um pouco giles. A maioria dos cidadãos do mundo é assim, porque sempre confiamos”, explicam os dois atores argentinos quase em dueto.

O filme nos faz relembrar a história de milhares desses cidadãos “trouxas” que  se viram enganados e esmagados pelo corralito.  Ricardo e Chino lideram um elenco poderoso em que se destaca a presença de Luis Brandoni. O longa se tornou o último grande sucesso de bilheteria da Argentina, que o escolheu para representá-la no Oscar. Esta fábula sustentada na realidade, que narra a vingança de um grupo de pessoas diante da fraude que sofreram, estreou no Brasil no dia 31 de outubro.

Em um encontro com o Jornal El País durante o Festival de Cinema de San Sebastian, onde A Odisseia dos Tontos foi apresentado na Seleção Oficial, Ricardo e Chino Darín estavam felizes, muito além da celebração de seu primeiro duelo interpretativo na tela. Também como produtores, estão diante de um projeto sonhado por muitos anos, no qual compartilham o trabalho com alguns dos melhores atores argentinos, orgulhosos de dar voz e vida a tantos cidadãos que foram afetados pelo corralito, um dos episódios mais traumáticos vividos pela Argentina em anos recentes.

“Somos tão domesticados, tão acostumados a obedecer e seguir a corrente de uma sociedade de consumo que às vezes esquecemos quais são os nossos direitos. Nunca se deve baixar a guarda na defesa dos direitos. Os abutres sempre estão à espreita para se aproveitar de pessoas crédulas, ingênuas e decentes. Essas pessoas que trabalham e que movimentam o mundo”, diz Ricardo.

“Não sei se desfrutei tanto quanto agora quando o vejo”, confessa Chino Darín sobre o trabalho com o pai. “Fiquei um pouco abalado pelo papel de produtor e pelo que significava trabalhar com meu pai. Comecei com um nível de tensão e responsabilidade de que me livrei depois”.

O que é verdade é que para mim foi um grande privilégio”, acrescenta, ante o olhar brilhante de Ricardo, que intervém: “Em uma cena compartilhada, se dois não querem, um não pode. É assim simples. O ator depende muito do que o outro nos deixa, do que nos entrega, da generosidade. É assim que a energia circula. Quando fomos capazes de nos liberar dessa enorme responsabilidade que tínhamos como produtores e focar no trabalho como atores, a sensação que tenho é que nos ajudamos muito.”

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Pai e filho contracenaram juntos pela primeira vez na “Odisseia dos Tontos”.

 “A Odisseia dos Tontos” te faz mergulhar na lama para depois te resgatar. Não evita a dor, mas te faz lembrar dela. Há no filme a intenção de dessacralizar, lutar pela memória, de voltar a recordar uma situação tão trágica como a crise econômica. “Estava na hora de os mocinhos vencerem alguma vez”, proclama Chino. “O melhor é como os espectadores pegaram essa história para si.

Acho que o fator preponderante em tudo isso é que tem a ver com uma certa reparação emocional para todos aqueles que sofreram aquele desastre ou os que o viveram de maneira colateral. Tem algo de bálsamo”, diz Ricardo Darín. “Foi uma época que, apesar da amargura e do sentimento de injustiça permanente, fez disparar a imaginação de milhares de cidadãos diante da impotência”, acrescenta Chino.

Pai e filho falam, se interrompem, dialogam, olham um para o outro. “É preciso falar da dor, trazê-la para fora. Na Espanha, vocês sabem disso bem com o tema da memória histórica. Fazer uma catarse coletiva. Só assim é possível enfrentar o futuro. Nós argentinos sabemos bem. Fazemos a grande ginástica para passar por crises, sobreviver a elas e voltar a renascer.”

Se você ainda não viu, não deixe de prestigiar a esses corajosos “giles” nos cinemas, afinal a vingança é um prato que se como frio não é mesmo? 😎

Fontes: El País Brasil e Portal Terra

 

Medicina na Argentina, uma excelente opção para estudantes brasileiros

O curso de Medicina sempre foi um dos mais disputados no Brasil. Para conseguir entrar em uma universidade pública, o estudante precisa alcançar uma nota extremamente alta no ENEM e para custear um curso em uma  faculdade privada, é necessário ter um poder aquisitivo bem elevado.  Por razões como essa, para conseguir realizar o sonho de seguir a carreira de medicina, muitos estudantes brasileiros estão optando por estudar na vizinha Argentina.

Sem vestibular nas universidades públicas

Diferentemente das universidades brasileiras, as universidades públicas argentinas não têm limites de vagas para vários cursos, incluindo os de Medicina, de acordo com a assessoria de imprensa das instituições acadêmicas. Essa facilidade de ingresso tem sido um chamariz para estudantes brasileiros. O sistema universitário argentino exige dos brasileiros apenas o diploma do ensino médio, reconhecido nos ministérios da Educação do Brasil e da Argentina, e um documento de identidade (o DNI, emitido pelas autoridades migratórias). O desempenho do aluno no ensino médio não é avaliado. No caso do DNI, o processo foi simplificado nos últimos anos, mas o agendamento para o início da emissão do documento pode demorar alguns meses.

Outro fator de peso, segundo acadêmicos ouvidos pela BBC Brasil, é a crise econômica brasileira.  “Nos perguntamos aqui por que tantos alunos brasileiros vieram nos últimos dois ou três anos e entendemos que o período coincide com a crise no Brasil”, disse um assessor acadêmico, pedindo para não ser identificado. “Sem dúvida, o que vem ocorrendo nos últimos tempos chama a atenção”, disse outro. A reitoria da Faculdade de Medicina da  Universidade Nacional de La Plata (UNLP) diz que, nesse caso específico, o aumento é explicado pelo fim recente da exigência da prova de admissão nas universidades públicas, colocando em prática uma lei nacional de 2015. “As provas (de admissão) deixaram de ser exigência para todas as universidades desde o retorno da democracia, nos anos 1980. Mas, por serem autônomas, algumas universidades públicas  ainda aplicavam provas”, explica o reitor da Universidade Nacional de Rosário (UNR), Hector Floriani, à BBC Brasil. Ali, dos cerca de 4 mil alunos de Medicina, 1,5 mil são brasileiros. A UNR, assim como a Universidade de Buenos Aires (UBA), já não exigia há anos o exame de admissão, nem mesmo para o curso de Medicina.

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Fatores como facilidade de ingresso e preço mais acessível tem levado muitos brasileiros a optar por estudar medicina na Argentina –  Foto Arquivo Pessoal.

Universidade Adventista Del Plata

Uma das instituições que ainda exige o exame de admissão é a Universidade Adventista del Plata (UAP),  localizada na cidade Libertador San Martín na província Entre Rios, a 06 horas de Buenos Aires. É nessa universidade privada que a mineira Shara Anterina Barbosa está cursando medicina desde 2016. Um dos motivos que levaram a jovem a optar por estudar na Argentina foi justamente a maior facilidade de acesso. “Aqui existe uma espécie de vestibular em algumas faculdades privadas, chamado de exame  de ingresso.  A pessoa se inscreve e faz. Existe um material específico para estudar para fazer a prova que  não é tão concorrida como no Brasil, quando são muitas pessoas só para uma vaga. Aqui temos 03 ou 04 pessoas para uma vaga — explica Shara. 

Além da questão da facilidade de acesso, a questão econômica também pesou na decisão de Shara. “No Brasil as particulares são muito caras e as federais são muito difíceis de ingressar. Então comecei a pensar em possibilidades e vi a opção da Argentina.  Optei por estudar em uma instituição cristã, da mesma denominação que eu frequento desde criança, a Adventista. Esse enfoque missionário da Universidade me interessa bastante porque mantêm o aluno conectado globalmente. Posso fazer estágio em várias partes do mundo porque eles têm convênios com instituições em muitos países  e a possibilidade de aprovação no Revalida é muito grande, maior que 90%. Pensei em tudo isso e me pareceu uma boa ideia estudar aqui — afirma a brasileira. 

Adaptação

Sharinha, como é chamada por familiares e amigos, conta que não teve muitas dificuldades para se adaptar, especialmente porque há um grande números de compatriotas  na UAP. “Tenho muitos colegas brasileiros. No meu curso, somos metade”. “As pessoas por aqui são muito amáveis, acredito que por se tratar de uma cidade pequena facilita esse acolhimento dos moradores. Todas as cidades que conheci tem menos de 50 mil habitantes e são muito bonitas: floridas e bem limpas.

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A beleza das cidades do interior da Argentina chamou a atenção da estudante brasileira – Foto Arquivo Pessoal.

No começo o idioma foi um desafio “Em princípio tive dificuldades com o idioma, porque falavam muito rápido, mas com o tempo e com a quantidade de leitura que temos, isso vai ficando mais fácil, não demorei mais de um mês para me adaptar. Como eu já tinha uma amiga  brasileira estudando aqui foi mais tranquilo”, conta. Em relação à comida Sharinha também não teve muita dificuldade em se adaptar: “Gosto muito dos alfajores, son buenísmos, 😋 — brinca. Eu não gostava tanto, quando cheguei,  mas depois comecei a experimentar variados e realmente são muito gostosos. Eles comem muito doce de leite, pizza e macarrão. Se você gosta de macarrão vai passar bem, porque em todos os lugares você encontra”… 

Brasil

A futura médica conta que apesar de estudar fora, pretende exercer carreira no Brasil. “Eu quero ser médica no Brasil, é uma ideia que tenho, mas posso ir a outro lugar também, na verdade não tenho isso bem definido ainda. Quero ir ao Brasil, fazer o Revalida, quero ter essa segurança, mas gostaria de ir a outros lugares antes, aproveitando que aqui posso ter essa oportunidade. Adoraria voltar um dia, porque amo meu país” — afirma. 

Para quem deseja estudar fora, Shara deixa um recado: “Eu diria a um estudante brasileiro que vale muito a pena vir. Às vezes uma pessoa pensa que é muito longe, é  um outro idioma, mas o bonito que tem aqui, pelo menos na minha experiência, é que você conhece várias culturas. Eu tenho amigos, que são de todos lugares do mundo: Estados Unidos, Chile, Colômbia, Europa, tem pessoas de vários lugares.  Convivendo com elas, você começa a abrir a mente, a ver a realidade de uma outra pessoa e percebe que na realidade, o mundo é pequeno.  Essa experiência faz você expandir sua visão e começar a sonhar mais grande e acreditar que pode ir a qualquer lugar do mundo”… 🇦🇷 🇧🇷

Fonte: Portal G1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nunca Más

No último domingo dia 24, Boca e River deixaram a rivalidade de lado, assim como os demais clubes da Argentina, para se unir em uma causa única: relembrar e protestar contra a ditadura que assolou o país há algumas décadas atrás. No dia 24 de Março de 1976, o general Jorge Rafael Videla derrubou a presidente Isabelita Perón em um golpe de estado e iniciou o brutal regime que fez um número muito alto de vítimas, entre mortos e desaparecidos. Desde 2003, o dia foi instituído pelo parlamento argentino como Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça.

As manifestações dos clubes de futebol ocorreram por todo o país e também pela internet: a hastag #NuncaMás se tornou uma das mais comentadas do dia.

Boca

Embora o tempo de vigência da Ditadura na Argentina (1976 – 1983) não tenha sido muito longo, comparado a de outros países como a do Brasil, por exemplo, que durou 21 anos, os efeitos para o país foram desastrosos, devido às inúmeras atrocidades cometidas pelos governantes autoritários. O mundo vivia o período conhecido como Guerra Fria, devido a essa conjuntura, inúmeros governos da extrema direita assumiram o comando de seus países,  prometendo combater o fantasma do comunismo.

Os promovedores da Ditadura na Argentina, em semelhança ao Brasil, a denominavam como “Revolução Argentina”. Logo após a tomada de poder, entrou em vigor no país o Estatuto da “Revolução” que legalizou as atividades dos militares. O intuito dos golpistas era de permanecerem no poder por tempo indeterminado, enquanto fosse necessário para sanar todos os problemas argentinos. A nova “constituição” proibia a atividade dos partidos políticos e cancelava quase todos os direitos civis, sociais e políticos por conta de um quase constante Estado de Sítio. Era a derrocada da cidadania.

O período da Ditadura Militar na Argentina foi cruel e sangrento, a estimativa é de que aproximadamente 30 mil argentinos foram seqüestrados pelos militares. Os opositores, que conseguiam se salvar, fugiam do país, o que representa aproximadamente 2,5 milhões de argentinos. Os militares alegam que mataram “apenas” oito mil civis, sendo que métodos tenebrosos de torturas e assassinatos foram utilizados pelos representantes do poder. O governo autoritário deixou marcas na Argentina mesmo após a ditadura,  com o restabelecimento da democracia, poucos presidentes conseguiram concluir seus mandatos por causa da grande instabilidade econômica e social.

Parabéns aos clubes e ao povo argentino, Ditadura Nunca Mais!

San Lorenzo

Fontes: Sites InfoEscola, Uol Esporte e Goal.com

Marielle Presente na Argentina

O assassinato da vereadora e ativista Marielle Franco completou um ano no último dia 14 de março. O crime, que ceifou precocemente a vida de Marielle,  e de seu motorista Anderson chocou o Brasil e o mundo inteiro. Marielle era uma mulher que havia conquistado seu espaço na política fugindo a todos os padrões: era negra, favelada, bissexual e não tinha nenhum parente no cenário político. As lutas que ela tratava incomodaram aos que sempre estiveram no poder, por isso, quiseram calar a sua voz. O que eles não esperavam, porém, que ao invés de silenciar, deram ainda mais força a essa guerreira:  Hoje seu nome é ecoado por todos os que sonham por um Brasil mais justo e mais humano.

marielle

O clamor por justiça e o reconhecimento da luta de Marielle ultrapassaram fronteiras  e se fizeram fortes na nossa vizinha Argentina.  Na semana em que se completou  um ano da morte da vereadora carioca, grupos de direitos humanos argentinos e brasileiros realizaram uma série de homenagens em Buenos Aires.

No dia 14, data de seu assassinato, a cidade amanheceu com placas de rua com o nome de Marielle Franco em vários locais públicos. “Escolhemos os mais significativos para brasileiros, como a frente da embaixada e alguns ícones da capital, como a avenida 9 de Julio e o Congresso”, conta Renata Benítez, do coletivo Passarinho.

Além das placas, foi lido um manifesto no Obelisco. “Desde a morte dela, estamos conversando com os grupos de direitos humanos locais sobre as bandeiras que ela representa, porque nossa intenção é que sua luta continue, por meio do ativismo”, diz Benítez.

Ao  Jornal Clarín , ativistas de direitos humanos atuantes na Argentina explicaram que as placas simbólicas foram espalhadas pelas principais ruas e avenidas da cidade em uma “intervenção artística de expressão política” fazendo parte dos vários atos para lembrar o legado da vereadora.

Além dos locais já citados, uma das estações do metrô de Buenos Aires foi batizada “temporariamente” com o nome da ativista assassinada. Uma vereadora da cidade de Buenos Aires já entrou com um pedido para que a estação Rio de Janeiro do metrô passe a chamar-se, definitivamente, “estação Rio de Janeiro – Marielle Franco”. O projeto irá a votação pelo parlamento local ainda neste semestre.

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Estação de metrô na capital argentina – Buenos Aires – Reprodução Internet

No sábado dia 16 foi inaugurado em San José, no município de Lomas de Zamora, na Província de Buenos Aires, um anfiteatro com o nome “Mujeres Latinoamericanas Marielle Franco“, o local fica numa praça pública.

Algumas das principais e mais populares entidades de direitos humanos do país se uniram à causa, além de sindicatos, jornalistas e personalidades destacadas pela luta por direitos, entre elas Anistia Internacional, Madres de Plaza de Mayo e Abuelas de Mayo, entidades conhecidas internacionalmente pela luta contra a impunidade dos atos da ditadura argentina (1976-1983).

Marielle segue e seguirá presente!

Fontes: Jornal El Clarín, Blog do Esmael e Folha de Pernambuco.

Gol da Argentina

Enquanto por aqui no Brasil vivemos um momento muito turbulento na política e muitos direitos sociais estão sendo questionados, na capital da nossa vizinha Argentina, os jovens conseguiram um importante auxílio para o desenvolvimento deles como cidadãos. A Prefeitura de Buenos Aires lançou um cartão que fornece benefícios e crédito no valor de 250 pesos mensais para os jovens terem acesso a  teatros, museus, cinemas, compra de livros ou fazer um curso voltado para a área cultural.

O lançamento aconteceu nesta terça dia 09 na sede do governo portenho. Estiveram presentes o chefe de gabinete Felipe Miguel, o  ministro de Cultura da cidade, Enrique Avogadro e  a ministra da Educação Soledad Acuña. O “Passe Cultural contempla 70 livrarias, 10 cinemas 25 teatros e diferentes centros culturais.   Funciona como  um cartão de débito e poderá ser usado somente nos locais credenciados.  Para se inscrever no programa o aluno deve apresentar um certificado comprovando que está frequentando a escola regularmente. 

“A iniciativa faz parte da visão transformadora que temos na cidade basicamente, para o desenvolvimento. É  uma ferramenta de inovação em matéria de políticas culturais, como acontece na Espanha, Uruguai e outros países. Construimos o programa escutando os jovens, trabalhamos muito em equipe, fazendo diferentes tipos de pesquisas de campo, para conhece-los e entende-los melhor. Nos deparamos com uma geração que já é protagonista em matéria cultural”, explicou Avogadro, entusiasmado com a iniciativa.

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Imagem – Reprodução Internet

“Queremos dar uma resposta a esse anseio por cultura dos jovens.  O programa vai estar à disposição de todos os estudantes do Ensino Médio de escolas públicas e nacionais da cidade. Todos os meses terão uma quantia que estará disponível para incentivar  o consumo cultural. Atende a um desejo de independência e autonomia deles. Todos já tivemos 16 anos e desejávamos ter essa liberdade também”, acrescentou.

“Nós queremos que os adolescentes disfrutem de  toda diversidade cultural que  Buenos Aires oferta”  – ressaltou o chefe de gabinete da cidade Felipe Miguel. 

Muito bacana a iniciativa né? Investir em cultura é também investir em educação 😉

Fonte: Site Jornal El Clarín

Buenos Aires, um país à parte

Nossa vizinha Argentina é famosa mundialmente por ser a terra do tango, de Maradona, do peronismo, dos alfajores, entre muitíssimas outras referências. O povo argentino também é conhecido por certas peculiaridades, entre elas a de serem um tanto arrogantes e soberbos. O que muita gente não sabe, porém, é que muitos desses estereótipos são mais condizentes com a população de Buenos Aires e não com a Argentina como um todo. Costuma-se dizer que existem duas Argentinas: a da região de Buenos Aires e a do interior. O jornalista Daniel Pardo, correspondente da BBC Mundo escreveu um artigo falando sobre as principais diferenças entre os portenhos (habitantes de Buenos Aires) e os demais argentinos. É bem interessante, confira a tradução abaixo:

Em que se diferenciam os portenhos de Buenos Aires do resto dos argentinos, e como isso influi nos famosos estereótipos do país?

Mais além da General Paz, a autopista que contorna a cidade de Buenos Aires, existe outro país, embora siga sendo o mesmo.  

Nem em toda Argentina, se dança tango. Nem todos os argentinos vão ao analista ou gesticulam como os italianos. A arquitetura neoclássica não impera em todo o país, não é em toda esquina que existem cafés e livrarias, nem há protestos  todos os dias.

E nem todos os argentinos se enquadram no famoso estereótipo que se tem deles na América Latina, segundo o qual são arrogantes, egocêntricos e enganadores: se alguém é assim —   você poder crer — são os portenhos, os habitantes da capital.

E tem outra coisa: Existem várias Buenos Aires: uma coisa é a cidade de 03 milhões de habitantes, outra é o subúrbio conhecido como  “el conurbano”  e outra a enorme província bonaerense, onde podem passar  400 quilômetros sem que alguém veja uma única alma.

Os matizes podem continuar porque portenhos  introvertidos, honestos, humildes ou generosos existem muitos, posso dizer que são a maioria.

Mas mesmo tendo em conta que todos os estereótipos são exagerados e perversos, é difícil negar que os portenhos e a gente do interior não parecem do mesmo país.

Dois países

Apesar de ser federal,  a Argentina  é uma das nações mais centralizadas da América Latina. Em Buenos Aires estão mais da metade dos times de futebol da primeira divisão, as disputas políticas locais são vistas como assuntos nacionais e o governador ou governadora da província é considerado o segundo político mais poderoso do país, depois do presidente.

A maioria dos trâmites precisa ser feito na capital e para sair do país precisa-se passar por lá. A mídia nacional reporta o clima, os roubos e os crimes de Buenos Aires, mas quase nunca os do resto do país. 

Partindo do exterior a tendência de assumir o portenho como argentino é ainda maior: o tango, a pizza com azeitonas e cebola, o cumprimento com beijos entre os homens, o teatro da rua Corrientes ou as largas avenidas são vistos como argentinos, quando na realidade são portenhos.

A diferença entre a capital e o  interior é uma marca de origem: a independência da Argentina, em 1810, na realidade foi a criação de um Estado chamado “Provincias Unidas del Río de la Plata”, no qual entravam Buenos Aires, a pampa e parte do Uruguai.

Até 1860, quando se emitiu um decreto presidencial em busca de uniformidade, a palavra “Argentina” e seu gentilício só se usavam para  se referir a Buenos Aires. As regiões próximas do Rio da Prata e Buenos Aires sempre foram um país em si mesmas, talvez mais parecidos com o Uruguai que com os extremos norte e sul do país. 

O interior, por sua vez, é vários países: um meio vazio na Patagônia, outro meio boliviano nas montanhas do norte, outro meio paraguaio na região próxima da fronteira e outro meio “cordobês”  em que alguns chamam brincando de República Independente de Córdoba.

Cada região tem sua própria dicotomia entre capital e interior, assim como seus sotaques, sua cultura, e seus injustos estereótipos: os  cordobeses tem fama de engraçados e grosseiros; os mendocinos de organizados, os patagônicos de empreendedores; os chaqueños de violentos e por vai…

Com o desenvolvimento do país em direção a Buenos Aires,  o “Interior”  machucado pelas diferenças, pode se unir ao redor de seu  — justificado — esporte favorito: zombar dos portenhos.

Não é que haja sentimentos separatistas como na Espanha, mas para muitos argentinos, o que passa em Buenos Aires é tão distante como o que passa no Brasil, digamos.

A postura frente a Buenos Aires é uma forma de protestar contra o poder que se concentra ali. E contra a indiferença dos portenhos em relação aos demais argentinos.

O que os une

Mais de 90% dos argentinos vivem em zonas urbanas, cidades médias ou grandes, longe da paisagem rural. Mas como parte dessa série de percepções exageradas, a capital se vê como desenvolvida, cosmopolita, desenvolvida,  poderosa, enquanto que o interior é visto como o rural, o selvagem, o latino americano.

Essa aparente divisão do país mostra,  para o antropólogo social Alejandro Grimson, “uma história de desigualdade e incompreensão  que se atualiza em momentos dramáticos. Mostra um país que vive olhando para o Primeiro Mundo e entende pouco das complexidades da própria terra e menos ainda dos interesses de seus diversos habitantes”.

Grimson, no seu livro  Mitomanías Argentinas, explica: “Existem argentinos que habitam uma ou outra Argentina, mas a maioria vive muito mais no meio, misturada, com alguma ilusão primeromundista e outras latinoamericanistas.

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O peronismo e o futebol são outros dois fenômenos que se expandiram por todo o país e geraram uma ideia de unidade  – Imagem – AFP 

A dicotomia entre Buenos Aires e o interior é histórica e estrutural, mas há fenômenos portenhos como o futebol e o peronismo que se reproduziram em todo o país. O interior deu a Buenos Aires o costume de tomar mate, mas Buenos Aires deu ao interior o fernet, uma bebida italiana que se tornou a marca distintiva de Córdoba.

“O regime militar (1976-1983), a guerra das Malvinas (1982), a hiperinflação de 89 e a crise de 2001 foram crises que vividas de maneira simultânea em todo o país por atores heterogêneos deram a ideia de que vivemos uma mesma história”, explica Grimson à BBC Mundo.

Desde 1976, a pobreza, a corrupção política e a delinquência se converteram  em problemas comuns para a maioria dos argentinos, que aliás, responderam a isso com a mesma moeda e de maneira quase homogênea:  com protestos sociais. 

Esta união também teve  efeitos na cultura: fenômenos como a cumbia das favelas e o culto à boliviana virgem de Copacabana se propagaram por todo o país até gerar relatos comuns.

Embora a autopista General Paz esteja em boas condições a divisão que ela propõe está cada vez mais difusa.

Fonte: BBC Mundo

Um anjo chamado Justina

Há pessoas que nascem para iluminar e deixar um legado para o mundo. A garotinha argentina Justina Lo Cane com certeza é um desses seres especiais. Mesmo tendo partido muito cedo, aos 12 anos, a jovem marcará a vida de seu país pra sempre, graças ao seu exemplo de luta e solidariedade. Com um ano e meio ela foi diagnosticada com miocardiopatia dilatada, uma doença grave que pode levar ao óbito. Depois do diagnóstico, medicamentos conseguiram estabilizar o coração de Justina, e ela foi crescendo e levando uma vida normal. Mas, no ano passado, o estado do coração se agravou e ela precisaria passar por uma cirurgia.

Desde então Justina começou a angustiante espera para encontrar um coração compatível, mas infelizmente veio a falecer no dia 22 de novembro de 2017. Ainda viva, quando soube que estava na lista de espera dos transplantes na Argentina, ela fez um pedido: “Papai, ajudemos a todos que nós pudermos”. Seus pais e ela resolveram então criar a campanha “Multiplicate por Siete” que viralizou  na internet com a hastag “LaCampañadeJustina”. A intenção por trás do nome era transmitir a ideia de que se uma pessoa é doadora está multiplicando sua vida por sete.

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História de Justina comoveu Argentina e alterou legislação sobre doação de órgãos no país – Imagem – Reprodução Internet

A campanha foi crescendo nas redes sociais e conseguiu aumentar o número de doadores pelo país. Os pais de Justina resolveram então transformar a dor pela perda da filha em luta e propuseram sugestões para que a Lei de Doação de órgãos fosse alterada. A principal mudança é esta: Todo cidadão argentino passa a ser doador, a menos que manifeste o desejo de não doar.  As sugestões viraram projeto de lei, e a chamada “Lei Justina” foi aprovada por unanimidade no Congresso argentino, seguindo agora para a aprovação do presidente Maurício Macri.

Emocionante a história não é? Bem que podia servir de inspiração para a lei brasileira. Atualmente no Brasil existem mais de 33 mil pessoas na espera por um transplante. Segundo a legislação brasileira  é preciso que o doador deixe registrado a vontade de doar e a família autorize depois para que o procedimento seja realizado. Dessa forma, muitas vidas deixam de ser multiplicadas, muitas vezes, pela burocracia…. 😦

 

Fonte: Portal G1 e Jornal La Nación – Argentina

 

Inveja Hermana

“Inveja Branca” é uma expressão popular que significa inveja do  “bem”. Acontece quando desejamos algo alheio sem que isso, no entanto, prejudique  a ninguém. Ou seja, não queremos que o outro deixe de ser ou ter alguma coisa, apenas desejamos  ter aquilo também. Nesses últimos dias experimentei essa sensação da “inveja branca”, ou melhor dizendo, foi uma “inveja hermana”. Já me explico Rs.

Nessa semana houve vários protestos na Argentina por causa da votação da Reforma da Previdência por lá. Entre os principais pontos da reforma proposta pelo governo de Mauricio Macri estão a alteração na fórmula de ajuste que passaria a ser determinada por um composto de 70% da taxa de inflação e 30% da variação no salário médio dos trabalhadores estáveis.

Outro ponto determina que mulheres com 60 anos de idade e homens com 65 anos e, em ambos os casos, um mínimo de 30 anos de contribuições, podem optar por prolongar a vida ativa até 70 anos.

Mas, uma vez que o trabalhador complete 70 anos e atenda aos requisitos necessários para acessar o Benefício Único Universal (PBU), o empregador pode intimá-lo a iniciar os procedimentos relevantes. A partir desse momento, o empregador deve manter a relação de trabalho até que o trabalhador obtenha o benefício e por um período máximo de um ano.

Críticos afirmam que a reforma reduzirá os pagamentos de pensões, bem como a ajuda para algumas famílias pobres. Quase 50% dos aposentados na Argentina recebem o benefício mínimo, cerca de 400 dólares ao mês. Os demais recebem entre 50% e 60% do que ganhavam quando eram ativos.

Os defensores da reforma argentina afirmam que a intenção das mudanças é garantir, durante os próximos anos, uma fórmula que defenda  os aposentados contra a inflação. Esse discurso, porém, não está colando muito por lá.   E ao contrário do que acontece aqui no Brasil, a população de nossa vizinha não está aceitando passivamente a aprovação dessa reforma, que pode prejudicar especialmente os mais pobres.

Nesta segunda-feira (18), enquanto os deputados tentavam aprovar o projeto, foram registrados panelaços e protestos que terminaram em confronto, em Buenos Aires.

À tarde, a polícia disparou balas de borracha, gás lacrimogêneo e jatos de água e foi alvo de pedradas. Segundo o jornal “Clarín”, o confronto, que teve início por volta das 13h30, durou mais de duas horas. A Guarda Nacional foi acionada. Foi decretada também uma greve geral nos transportes, como forma de demostrar a insatisfação popular.

Manifestante
Manifestantes protestam em Buenos Aires contra aprovação da Reforma da Previdência na Argentina  (Foto: Victor R. Caivano/AP Photo)

Apesar da violência nunca ser algo positivo, foi impossível não sentir uma ponta de inveja da mobilização dos nossos vizinhos, e uma certa vergonha também por nós brasileiros sermos tão pacatos. Alguns dos cartazes dos protestos na capital portenha continham os seguintes dizeres: “Aqui não é o Brasil” – numa referência à facilidade com que o governo daqui tem em aprovar reformas nocivas para a grande maioria da população brasileira, como a Trabalhista e a agora a da Previdência que ficou  pra ser votada no próximo mês de fevereiro. É realmente lamentável que lutemos tão pouco contra a perda de direitos e nos limitemos apenas (quando muito) a protestar nas redes sociais. Isso é tudo que governos sem escrúpulos, como o de Temer querem.

Mesmo com os esforços da população, a Reforma Previdenciária na Argentina acabou sendo aprovada no Congresso, nesta terça-feira (19) por  128 votos a favor, 116 contra e duas abstenções, após 17 horas de sessão. Mas diferentemente do que acontece por aqui temos a certeza  de que lá a população não vai aceitar perder direitos de forma calada, e essa decisão poderá ser revista, pelo menos em alguns pontos, daqui pra frente, de maneira que não prejudique tanto os mais carentes. Já pelos lados de cá, não dá pra ter muita esperança de um 2018 melhor, já que pelo visto, aceitaremos todas as imposições, e ainda transformaremos tudo num grande carnaval, ou num grande circo se você preferir…

Fontes:  G1 e Estadão.

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