Mudança necessária

De uns anos pra cá, no mundo inteiro, as pessoas têm se questionado sobre a necessidade de serem revistos os critérios para se homenagear uma personalidade histórica. Alguém que promovia atos violentos contra determinadas etnias, ou participou de um governo ditatorial seria digno de receber homenagens como estátuas ou nome de ruas e avenidas? 🤔

Pensando nisso, representantes da fundação Memorial da América Latina, em São Paulo, procuraram a Câmara Municipal da cidade para pedir a mudança do nome da via, onde fica localizado o Memorial. A nova lei tem origem no PL 249/21, de autoria dos vereadores João Jorge e Xexéu Tripoli, ambos do PSDB. O projeto foi apresentado na Câmara em abril e entrou em vigor na quinta-feira, dia 07 de outubro. A lei altera o nome da Avenida Auro Soares de Moura Andrade para Mário de Andrade, na Barra Funda, zona oeste da cidade de São Paulo. A antiga denominação homenageava um ex-senador que apoiou o golpe militar de 1964, enquanto a nova faz referência ao conhecido escritor brasileiro.

Com a mudança, a avenida passa a ser considerada uma continuação da Rua Mário de Andrade, localizada entre a Avenida Pacaembu e a Avenida General Olímpio da Silveira, que tem este nome desde 1949. A lei (de número 17.671/21) foi promulgada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) e publicada no Diário Oficial do município.

No documento em que pediam a mudança, os representantes da fundação destacavam que o endereço original do espaço é Rua Mário de Andrade, 664, pois a via era antes considerada um “prolongamento natural da Rua Mário de Andrade”. Além disso, ressaltam que Auro Soares de Moura Andrade foi o senador que presidiu a sessão extraordinária do Congresso Nacional que declarou vaga a Presidência da República em 1964.

Com o golpe militar, o senador chegou a concorrer como vice-presidente na eleição indireta que elegeu o Marechal Castello Branco. “Renomear a Avenida, voltando ao seu nome original, torna-se ainda mais premente quando pensamos que, em fevereiro de 2022, comemora-se o centenário da Semana de Arte Moderna, da qual Mário de Andrade foi um dos protagonistas”, destacaram os representantes do memorial no pedido.

O documento é assinado por Almino Monteiro Álvares Affonso, presidente do Conselho Curador da Fundação Memorial da América Latina, pelo atual presidente da fundação, Jorge Damião de Almeida, e por três ex-presidentes da organização: Fabio Magalhães, José Henrique Reis Lobo e João Batista de Andrade. A mudança no endereço para o nome do senador ocorreu em 1996, com a publicação de um decreto do então prefeito Paulo Maluf.

Na justificativa dos autores do PL, também foi destacado que a Lei 14.454/2007 permite a mudança de nome de vias e logradouros públicos “quando se tratar de denominação referente à autoridade que tenha cometido crime de lesa-humanidade ou graves violações de direitos humanos”. “Dessa forma, imperativa a alteração da denominação, que representa uma injusta homenagem a uma autoridade que, a despeito de seu compromisso com a Nação, desrespeitou os preceitos democráticos fundamentais do Brasil”, diz a argumentação.

Mário de Andrade foi um importante escritor brasileiro e promotor das artes no país. Foto: Reprodução – Google Imagens

Não há previsão de alteração no nome da Praça Senador Auro Soares de Moura Andrade, no Morumbi, zona sul paulistana, que também homenageia o ex-senador. A denominação foi determinada em 1988, durante a prefeitura de Jânio Quadros.

Além dos trabalhos como escritor, Mário de Andrade também é conhecido pelo período em que liderou a fundação e foi presidente do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, que deu origem à Secretaria Municipal de Cultura. Na época, fez um inventário do patrimônio histórico brasileiro, que se tornou referência nacional, e também liderou a criação dos parques infantis, considerados “embriões” da educação infantil na cidade.

O autor de Macunaíma e Paulicéia Desvairada morou nas proximidades da via que leva seu nome por mais de 20 anos. A residência foi posteriormente transformada na sede da Casa Mário de Andrade, espaço cultural ligado ao Governo do Estado de São Paulo.

Nas duas votações na Câmara, o PL teve voto contrário exclusivamente da vereadora Sonaira Fernandes (Republicanos). De acordo com o decreto, “as despesas com a execução desta Lei correrão por conta das dotações orçamentárias próprias”.

E você também é a favor desse tipo de mudança?

*Com informações de Portal Uol

Triste fim de nossa história

O incêndio que devastou o Museu Nacional no início do mês foi um golpe duro, não só para o Brasil, mas para todo o continente e para a humanidade em geral.  O edifício histórico que era vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, contava com o maior acervo de História Natural e Antropologia da América Latina,  sendo um dos cinco maiores do mundo. Eram mais de 20 milhões de itens catalogados. O acervo do museu foi formado ao longo de mais de dois séculos por meio de permutas, aquisições e doações. Possuía coleções de geologia, paleontologia, botânica, zoologia, antropologia biológica, arqueologia e etnologia – uma riqueza de relevância incalculável.

Entre seus principais tesouros estavam a primeira coleção de múmias egípcias da América Latina e o Bendegó, o maior meterioto já encontrado no Brasil – encontrado no sertão da Bahia no século 18 que pesa mais de 05 toneladas. O fóssil de Luzia, que revolucionou as teorias da chegada dos primeiros homens à América, possuindo assim um valor inestimável, assim como o esqueleto do primeiro dinossauro de grande porte montado no Brasil, também era parte da coleção local. A história dos povos indígenas também faz parte do acervo do museu com, por exemplo, uma coleção de trajes usados em cerimônias dos índios brasileiros há mais de cem anos.

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Museu Nacional é o mais antigo do país e abrigava uma coleção de valor incalculável – Reprodução Internet

O Museu Nacional foi residência da família real portuguesa, sendo o local de nascimento de D. Pedro II.  O  documento que selou a Independência do Brasil foi assinado ali  pela princesa Leopoldina em 1822.

Com tanto valor histórico e cultural, chega a ser assustador e inacreditável o fato do Museu estar tão abandonado, a ponto do incêndio que praticamente arruinou com todo o acervo, ser considerado uma tragédia anunciada. Prova do descaso total das autoridades é o fato do último presidente a ter visitado o local ter sido Juscelino Kubistschek a mais de 50 anos atrás.

E pensar que o investimento que poderia ter mantido nossa história viva nem era tão alto assim: Por pouco mais de meio milhão de reais por ano o incêndio poderia ter sido evitado.

O sentimento que tomou conta de todos, principalmente dos apaixonados pela arte e  cultura, foi o de desânimo total:  Que futuro podemos esperar de um país que não valoriza sua História?

As notícias que se seguiram após a tragédia faziam cada vez a sensação de desânimo aumentar: Soubemos que o governo gasta somente com um deputado mais do que com a segurança do maior museu do país. Outro fato triste que tivemos conhecimento é que no ano passado o Museu do Louvre em Paris recebeu mais visitantes brasileiros do que o nosso Museu Nacional. São fatos que revelam o quão longe estamos de valorizar nossa cultura e como o Brasil despreza suas próprias riquezas. Não adianta culpar só a população pelo baixo número de visitantes: faltou investimento por parte do governo, não só em infraestrutura, mas também em divulgação. Assistir as reportagens mostrando como os museus são valorizados nos países desenvolvidos, fez ressurgir aquele velho complexo de vira-latas e até uma mesmo uma certa vergonha de ser brasileiro.

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Depois de ver as imagens de tantas preciosidades se reduzirem a pó, fica a sensação de vazio e impotência. Não resta muita coisa a fazer a não ser lamentar por não ter havido uma mobilização para salvar o Museu antes que fosse tarde demais.

Se para o Nacional, não há muito o que fazer, pelo menos um grande legado ele pode deixar para o Brasil e para toda a América Latina: a conscientização sobre a importância da preservação dos edifícios históricos.  Remediar, em casos como este, realmente não dá: Ou se conserva o que tem ou se perde tudo que a natureza levou milhares de anos para preservar, em poucos minutos.

A tragédia do dia 02 de setembro de 2018 não pode ser esquecida. Deve ser lembrada a cada ano com tristeza e principalmente com ação. O que nos resta agora é tentar renascer nossas esperanças em meio às cinzas.

Fonte: Portal G1

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