Chile lidera ranking de vacinação na América Latina

Na primeira semana da campanha de vacinação em massa contra covid-19 em idosos, o Chile já havia ultrapassado o marco de um milhão de pessoas imunizadas. A meta do governo chileno é vacinar toda a população que faz parte do grupo de risco — incluindo pacientes crônicos e profissionais de saúde — ainda no primeiro trimestre de 2021, de modo a imunizar 15 milhões dos 19 milhões de habitantes do país até julho.

Em meados de 2020, o governo chileno enfrentou fortes questionamentos em relação à gestão da pandemia, à medida que o país registrava grandes taxas de infecção por covid-19. Mas agora está sendo aplaudido por seu plano de vacinação. A campanha é gratuita e voluntária. De acordo com os últimos dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde do país, 2.375.725 pessoas foram imunizadas no Chile contra a covid-19 até o final do mês passado.

Até o dia 19 de fevereiro, o país havia administrado 15,03 doses da vacina para cada 100 habitantes — segundo a plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Número muito superior às 3,07 doses no Brasil, 1,48 na Argentina e 1,22 no México. O desempenho até agora coloca o país como líder latino-americano e 7º no ranking mundial de taxa de vacinação contra a doença, liderado por Israel (82,40).

Mas como o Chile alcançou esse resultado?

De acordo com Luis F. López-Calva, diretor regional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) da América Latina e Caribe, para que uma campanha de vacinação seja bem-sucedida, três fatores importantes devem ser levados em consideração: primeiramente, dispor de recursos financeiros para adquirir as vacinas; segundo, ter uma boa estratégia para distribuir as doses e, finalmente, ter capacidade institucional e estrutura governamental para implementá-la.

“Essas três características foram bem atendidas no caso do Chile”, afirmou López-Calva à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Compra antecipada de vacinas e diversificação

O Chile agiu rapidamente e logo assinou acordos com diferentes desenvolvedores de vacinas contra covid-19. Até agora, o país já garantiu mais de 35 milhões de doses de vacinas, das quais 10 milhões são da empresa americana Pfizer-BioNTech, outras 10 milhões da chinesa Sinovac e o restante da AstraZeneca, da Johnson & Johnson e do consórcio Covax, iniciativa liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para garantir o acesso universal à vacina.

Além disso, está em meio a negociações para comprar doses da vacina russa Sputnik V, que em breve poderá garantir as duas doses necessárias da vacina para toda a população.

O país também foi o primeiro da América do Sul a iniciar a vacinação contra o covid-19.

As autoridades começaram a imunizar os profissionais de saúde da linha de frente em 24 de dezembro com as doses fornecidas pela Pfizer/BioNTech, às quais se somaram as do laboratório chinês Sinovac na campanha de vacinação em massa que começou no dia 03 de fevereiro.

Para isso, é preciso levar em conta que o Chile dispõe de recursos para obter a vacina. Membro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), possui um dos maiores PIB per capita da região, embora também deva ser levado em consideração que apresenta uma taxa de desigualdade superior à média da OCDE. Segundo López-Calva, “a compra das vacinas foi prevista com bastante tempo, houve um bom planejamento”.

“E a ideia era priorizar: primeiro os profissionais de saúde, depois os idosos — para os quais o Chile adquiriu um número significativo de doses da Pfizer — e depois ter vacinas de outras empresas farmacêuticas para o resto da população”.

Nesse sentido, López-Calva acredita que foi importante apostar na diversificação na hora da compra, diferentemente de alguns países de alta renda, por exemplo, que apostam apenas nas vacinas ocidentais.

“A diversificação de desenvolvedores tem sido muito importante porque o mercado está muito distorcido e a oferta muito limitada. Alguns países optaram por um ou outro e só recentemente estão tentando diversificar”, afirmou o diretor regional do PNUD.

Colaboração científico-clínica

Para Alexis Kalergis, acadêmico da Universidad Católica de Chile e diretor do Instituto Millennium de Imunologia e Imunoterapia, a colaboração científico-clínica foi fundamental para alcançar alguns dos acordos.

“Foi estabelecido um acordo de colaboração acadêmica-científica entre a Universidade Católica e a Sinovac, que visa o desenvolvimento recíproco e colaborativo de vacinas contra a SARS-CoV-2, por meio de estudos científicos e clínicos”, explica Kalergis à BBC News Mundo.

“Este acordo deu origem a algo muito importante, que foi a possibilidade de acesso prioritário e preferencial a um fornecimento de doses para uso no Chile, uma vez aprovado pelos respectivos órgãos reguladores”.

“Este direito obtido pela Universidade Católica foi transferido 100% para o Estado do Chile por meio de um convênio entre a Universidade Católica e o Ministério da Saúde. O que permitiu ao nosso país poder garantir um fornecimento antecipado e prioritário de doses para os próximos meses”, acrescenta.

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Capacidade institucional e coordenação

O Chile também possui uma sólida rede de atendimento primária, por meio da qual já são realizadas outras campanhas anuais de vacinação, afirma a jornalista Paula Molina. Segundo ela, tanto essa rede robusta quanto a experiência em campanhas de vacinação têm facilitado a logística. E em relação a isso, o Chile tem uma vantagem.

“Temos uma população pequena e ela está muito concentrada na região metropolitana (Santiago)”, diz Molina. Além da capacidade institucional em termos de centros de saúde, López-Calva também destaca a utilização de recursos materiais e humanos existentes para acelerar o ritmo da vacinação.

Assim, estádios, centros educacionais e esportivos foram transformados em postos de vacinação, e todo profissional de saúde capacitado — como dentistas e parteiras — foi chamado para realizar a vacinação. “É uma estratégia que tem funcionado bem e acho que outros países podem aprender com ela”, avalia o diretor regional do PNUD. Nesse sentido, a colaboração entre os diferentes níveis de governo tem sido fundamental.

“Tem havido uma coordenação do governo central mas com muita intervenção dos governos regionais, dos governos locais, viabilizando espaços ao ar livre, ginásios, estádios, para poder haver mais postos de vacinação.” Segundo López-Calva, em estruturas mais descentralizadas, onde os governos locais têm mais autonomia, como no Brasil ou no México, esse tipo de estratégia e planejamento leva mais tempo.

Contra o ‘turismo das vacinas’.

As autoridades chilenas retificaram o plano inicial de vacinação divulgado pelo Ministério da Saúde e anunciaram na semana passada que não vão vacinar estrangeiros não residentes no país contra a covid-19, com o objetivo de evitar o chamado “turismo das vacinas”.

“Os estrangeiros que estão no país com visto de turista (…), ou aqueles que se encontram de forma irregular, não terão direito de se vacinar no Chile”, declarou o ministro das Relações Exteriores, Andrés Allamand.

Para ter acesso à imunização, é necessário ter nacionalidade chilena, permanência ou residência no país, ou, na ausência disso, uma solicitação de visto em andamento, esclareceu o chanceler.

“O que se tenta evitar é o turismo da vacina, não se trata de não vacinar estrangeiros, mas de não vacinar pessoas com visto de turista”, diz López-Calva a respeito do anúncio chileno.

Pelo novo decreto, todos os migrantes em situação irregular também são excluídos da campanha de vacinação, o que deixa sem vacina os milhares de estrangeiros que entraram no país nas últimas semanas pela fronteira ao norte com a Bolívia — e que estão em quarentena preventiva.

Fonte: BBC News

Árvore mapuche é aposta de vacina contra o novo coronavírus

A boa notícia de hoje na luta contra a pandemia vem dos Andes: Uma empresa chilena de biotecnologia se encontra atualmente na vanguarda mundial da corrida por uma vacina contra a covid-19. Como princípio ativo, os pesquisadores da Desert King utilizam uma substância extraída da casca e da madeira de uma árvore nativa chamada quilaia. Essa substância é usada na imunização que está sendo desenvolvida pela farmacêutica americana Novavax.

Em setembro, a Desert King anunciou que a vacina entrou na fase 3 de testes, tornando-se assim uma das onze pesquisas a alcançarem tal etapa no mundo inteiro. Até 10 mil voluntários com idades entre 18 e 84 anos deverão participar do estudo.

O diretor administrativo da Desert King, Andrés González, acredita que a empresa farmacêutica poderá começar a produzir as doses da vacina já no início de 2021, após a conclusão do estudo de fase 3. Contudo, não é possível prever atualmente quando uma imunização contra o coronavírus estará de fato disponível e como sua distribuição será regulada.

Também conhecida como árvore de casca de sabão, a quilaia (Quillaja saponaria) contém em sua casca cinza e rachada compostos chamados saponinas – tensoativos naturais à base de plantas, ou seja, substâncias semelhantes a sabão que, ao entrarem em contato com a água, desenvolvem uma espuma estável. As saponinas diminuem a tensão superficial dos líquidos e podem ligar substâncias que normalmente se repelem, como água e gordura.

Algumas dessas saponinas têm ainda uma propriedade adicional que entra em jogo no desenvolvimento de uma vacina. “A vacinação é composta por dois elementos: o antígeno e o chamado adjuvante”, explica González. “O antígeno ativa as defesas do próprio corpo, enquanto o adjuvante transporta o antígeno para as células. Além disso, essa substância aumenta a resposta imunológica do corpo.”

A Desert King examinou as diferentes propriedades das cerca de 50 saponinas da quilaia e identificou duas substâncias capazes de atuarem como adjuvantes: QS7 e QS21. “Já estamos produzindo quantidades industriais de saponinas de quilaia para Novavax”, disse González.

Sabedoria indígena

Desde o século 17, o povo indígena mapuche, nativo do Chile, conhece as propriedades curativas da casca e das flores do Küllay, como eles chamam a árvore. A espécie pode atingir 20 metros de altura e ter um tronco de até 1,5 metro de diâmetro.

Entre suas folhas sempre verdes e lisas como o couro, escondem-se pequenas flores branco-amareladas em forma de estrelas. A quilaia floresce de outubro a janeiro e fornece um mel aromático durante esta época. Com suas cinco pontas, as cápsulas das frutas lembram o anis estrelado.

Na medicina mapuche, o extrato da casca é tradicionalmente utilizado como expectorante em casos de doenças respiratórias. Uma infusão ou tintura alcoólica de suas flores também é usada para tratar doenças reumáticas, enquanto o extrato de sua casca pode ajudar contra doenças estomacais.

Graças às suas propriedades saponáceas, a casca foi usada como xampu natural no passado. Hoje, a substância espumante também é usada na indústria alimentícia, por exemplo, na produção de cerveja e outras bebidas.

Uso sustentável da quilaia

A quilaia é uma árvore adaptável e de cultivo fácil, capaz de crescer mesmo em solo árido e nas encostas de montanhas. “Mas a espécie está sofrendo as consequências das mudanças climáticas”, observa o silvicultor René Carmona, da Universidade do Chile, em Santiago. “As secas que o Chile sofreu nos últimos dez anos danificaram sobretudo as árvores nas encostas”.

Os produtores de saponina de quilaia no Chile valorizam muito o manejo sustentável das árvores, limitando-se a podá-las e não derrubá-las. “A poda direcionada das árvores ajuda a garantir que elas tenham menos biomassa e, consequentemente, necessitem de menos água para que possam enfrentar melhor a seca”, explica González.

Agora ainda falta convencer a população sobre a importância de proteger as quilaias, diz Carmona. Nisso, a comercialização do princípio ativo da árvore pode desempenhar um papel importante. “O fato de uma empresa farmacêutica internacional usar essa substância no desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19 nos ajuda a demonstrar o valor dessa árvore. Esperamos que isso leve a uma mudança de mentalidade e que as pessoas não continuem convertendo a quilaia em lenha de maneira negligente”, acrescenta.

Fonte: Site DW.com

Saiba quais localidades votaram pela continuidade da Constituição de Pinochet no Chile

Com fogos de artifício, bandeiras e a esperança em um novo começo, dezenas de milhares de chilenos festejaram nas ruas o resultados do histórico plebiscito realizado no dia 25 de outubro deste ano.

Uma esmagadora maioria de quase 80% dos eleitores votaram no “aprovo”, que permitirá a substituição da Constituição herdada da ditadura comandada por Augusto Pinochet.

Mas em cinco dos 346 distritos do país, o sentimento predominante depois do domingo não deve ter sido de alegria, já que neles — Vitacura, Las Condes e Lo Barnechea, todas na região metropolitana de Santiago; Colchane (Tarapacá) e La Antártica (Magallanes) — a maioria dos eleitores votou para manter o status quo.

Mas o que os cinco distritos onde o “rejeito” venceu têm em comum?

“Dos cinco, dois são muito particulares”, explica Carmen Le Foulon, pesquisadora do Centro de Estudos Políticos, à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

“A Antártica é uma base científica [com a presença do exército] e o número de votos é muito pequeno: votaram 31 pessoas. Já Colchane faz fronteira com a Bolívia e também é pequena (teve 505 votos)”, diz Le Foulon. Os outros três, no entanto, são muito mais significativos, concordam os especialistas consultados pela BBC News Mundo.

Riqueza e educação

Para começar, Las Condes, Vitacura e Lo Barnechea pertencem à região metropolitana de Santiago, a capital chilena.

As três concentram mais de 400.000 habitantes (de um total de 7,1 milhões em toda a região e 18,7 milhões no país) e estão localizadas lado a lado, no nordeste da cidade.

Mas não é só isso.

“Elas são as que concentram a maior riqueza e o maior nível educacional”, diz Rodrigo Pérez Silva, professor assistente da Universidad Mayor e pesquisador em economia urbana.

“Essa votação reflete essa divisão. Não só que 80% do país é a favor de fazer mudanças e há uma parcela de 20% que resiste, mas além disso: esse voto contrário está superconcentrado em uma única parte do país, em três comunas da região metropolitana onde estão o poder político e econômico. Onde estão as elites.”

Uma única exceção a esse padrão homogeneizado é Lo Barnechea, dentro do qual há grandes desigualdades socioeconômicas — com partes muito ricas, tal como La Dehesa, e outras muito pobres, como Cerro 18.

No total, esses três distritos somaram 166.544 votos “rejeito”, compondo 10,2% segundo o cômputo final do Serviço Eleitoral do Chile.

“Há dois universos aqui”

A atual Constituição do Chile foi aprovada em 1980 e para muitos está na base das desigualdades do país, promovendo a privatização dos serviços básicos e atribuindo ao Estado um papel residual.

O triunfo do “aprovo” é interpretado por muitos como a vitória das reivindicações cidadãs que eclodiram nos protestos de outubro de 2019 e que desde então pedem mudanças estruturais e profundas.

A própria convocação de um plebiscito foi anunciada em novembro de 2019, após 28 dias de grandes protestos em um dos países mais desiguais da América Latina.E na capital, Santiago, essa desigualdade se traduz em uma inegável segregação social e geográfica.

“Há dois universos aqui. Tudo funciona de maneira diferente e as pessoas não se misturam. Ninguém quer fazer muitas mudanças”, disse à BBC News Mundo S.L., uma mulher de 40 anos que nasceu, foi educada e vive em Vitacura.

Nesta comuna, o percentual de pessoas em lares sem condições básicas, como rede de esgoto e água, é de 0,5%, contra 8,3% em média na região de Santiago ou 14,1% em todo o país, segundo dados compilados pela Biblioteca do Congresso Nacional do Chile.

Se falarmos da pobreza “multidimensional” — que considera diferentes problemas de acesso a direitos, como na saúde e educação —, os dados são ainda mais contundentes: 3,48% contra a média de 20,7% no Chile.

E ainda que a moradora de Vitacura entrevistada pela BBC News Mundo tenha ela votado em “aprovo”, ela teve dúvidas e percebeu que em seu entorno social e profissional todos votaram contra uma nova Constituição.

“Hesitei porque comecei a ver o que aconteceu em outros processos constituintes da América do Sul. Nenhum país melhorou depois”, explica.

Segundo ela, nestas comunas existe o receio do discurso de refundação, da “perda de privilégios e da incerteza”. Além disso, as mudanças foram vinculadas à violência ocorrida nas manifestações.

“Destruíram a cidade. Talvez fosse necessário, mas agora continuamos com manifestações violentas e panelaços todos os dias.” Ela destaca também a preocupação das pessoas que conhece com mudanças no regime de “propriedade privada e do sistema tributário, que tem a ver com as aposentadorias”.

“Não tem tanto a ver com esquerda e direita, mas com propriedade e riqueza”, conclui.

Manifestações que ocorrem no Chile desde outubro de 2019 motivaram plebiscito sobre nova Constituição. GETTY IMAGES

Com isso, concorda Patricio Fernández, jornalista e autor de Sobre la marcha, livro que escreveu após observar de perto a eclosão social que se iniciou em 2019.

“Isso é politicamente transversal”, disse Fernández à BBC News Mundo.

“A eclosão social tem muitas leituras e ingredientes, mas eu diria que há uma coisa muito evidente — a manifestação ou ilusão de uma cidadania emergente que questiona sua relação justamente com as elites, com os governantes.”

E, segundo Pérez Silva, os resultados do plebiscito são uma “interpelação” justamente à elite que se recusa a perder seus privilégios para que haja uma “redistribuição de riquezas, oportunidades, educação, saúde, pensões etc…”

Um estudo recente realizado pela organização Círculo de Directores e pela empresa de análise de dados Unholster indicou que pessoas consideradas parte da “elite” do país — acadêmicos, empresários, figuras públicas —subestimam as desigualdades econômicas e de oportunidades que as separam das classes mais baixas.

“Membros da elite pensavam que pessoas das comunas pobres ou médias tinham plano de saúde — e não há nada mais longe da realidade do que isso”, apontou Antonio Díaz-Araujo, gerente geral da Unholster.

Esse padrão também foi observado em questões como valores de propriedade ou níveis de educação.

“E os votos só confirmam que a distância (entre a elite e o resto da população) é brutal”, finaliza Díaz-Araujo.

Fonte: BBC News Brasil

Encontrado soneto original de Pablo Neruda em meio aos pertences de uma amiga

Exatamente 47 anos depois sua morte, que aconteceu em 23 de setembro de 1973, um soneto datilografado do poeta Pablo Neruda  foi apresentado no Chile. É a primeira versão de Sangre de Toro, um poema de 1965 em homenagem a um popular vinho húngaro. Ele o escreveu durante uma viagem de lazer que fez em agosto daquele ano à Hungria, junto com o escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias e suas respectivas esposas.

Ambos escreveram versos enquanto viajavam pelo país, comiam e bebiam, sem imaginar que logo receberiam o Nobel: Asturias em 1967 e Neruda em 1971. “Revendo as lembranças de minha mãe, que acabara de falecer, encontrei uma caixa de plástico com fotos antigas, documentos e cartas. De repente, apareceu um papel, fino e em razoáveis condições. Era um poema de Neruda, assinado por ele”, diz a médica chilena Marcia Telteinboim, que fez a descoberta.

O poema diz assim:

“Robusto vino, tu familia

no llevaba diademas ni diamantes:

sangre y sudor pusieron en su frente

una rosa de púrpura fragante.

Se convirtió la rosa en toro urgente:

la sangre se hizo vino navegante

y el vino se hizo sangre diferente.

Bebamos esta rosa, caminante.

Vino de agricultura con abuelos,

de manos maltratadas y queridas,

toro con corazón de terciopelo.

Tu cornada mortal nos da la vida

y nos deja tendidos en el suelo

respirando y cantando por la herida”.

Quatro anos depois da viagem, em 1969, os dois poetas publicaram o livro Comiendo en Hungría. Foi publicado em húngaro, castelhano, francês, alemão e russo. Ao contrário da primeira versão que agora aparece, o poema incluído naquela edição tem uma palavra adicional no primeiro verso: “Robusto vino, tu familia ardiente”, diz o poema definitivo.

Para Grínor Rojo, professor do Centro de Estudos Culturais da Universidade do Chile, estudioso da obra de Neruda, o chileno “foi quem escreveu o poema, sem dúvida”. “É um poema muito nerudiano, pela sua riqueza figurativa. Neruda é um poeta de extraordinária imaginação sensorial e os cinco sentidos estão presentes neste brevíssimo texto. Este é Pablo Neruda na íntegra”, explica Rojo.

O primeiro dos textos que compõem o livro de 1969 dá conta do espírito com que foi composto:

“Comer está na moda!

Com pedra e pau, faca e cimitarra, com fogo e tambor as pessoas avançam para a mesa. Os grandes continentes desnutridos explodem em mil bandeiras, em mil independências. E tudo vai para a mesa: o guerreiro e a guerreira. Sobre a mesa do mundo, com todo mundo à mesa, voarão as pombas.

Busquemos no mundo a mesa feliz.

Busquemos a mesa onde o mundo aprende a comer. Onde aprende a comer, beber, cantar!

A mesa feliz.”

O soneto Sangre de Toro tem outra particularidade notável: trata-se de um soneto (uma composição poética muito especial) escrito por um autor que, justamente, não se caracterizou por escrever com formas estabelecidas. “Acredito que, nesse sentido, a escrita formal de Neruda pode ser comparada à pintura realista de Pablo Picasso. Não é o que o artista faz ou fez principalmente, em nenhum dos dois casos. Mas quando isso acontece, o resultado é um esbanjamento de maestria”, diz Rojo, que indica que outra exceção na obra de Neruda são os Cien Sonetos de Amor, de 1959.

O poema datilografado foi salvo quase milagrosamente. O poeta e sua mulher, Matilde Urrutia, eram muito amigos do advogado Sergio Telteinboim e de sua esposa, a graduada em comércio exterior Perla Grinblatt. Compartilhavam a filiação ao Partido Comunista e, nos anos sessenta, quando os Telteinboim viviam com suas três filhas na cidade de Viña del Mar, compareciam com frequência aos almoços e às famosas festas que Neruda realizava em sua casa em Valparaíso, La Sebastiana.

O poeta acolhia seus convidados com bebida, boa mesa e com versos inéditos, que distribuía em pequenos pedaços de papel que hoje são um tesouro: “Qualquer manuscrito ou texto datilografado dele que tenhamos em nosso poder, como este de Sangre de Toro, é uma joia”, observa o professor Rojo.

Os Telteinboim Grinblatt chegaram a ter uma quinzena desses versos de Neruda, mas a maioria não durou para além do golpe de Estado de 1973, quando as casas das famílias de esquerda foram invadidas pelos militares e os próprios moradores se desfizeram dos papéis e documentos comprometedores, em meio à repressão política. A mais nova das filhas, Marcia, tinha 11 anos e se lembra daqueles dias de “turbilhão e medo” em que boa parte da memória material de sua família foi perdida. Com a morte do pai, em 2006, as descendentes nunca imaginaram que Sangre de Toro tivesse sobrevivido entre as lembranças do apartamento de sua mãe em Santiago.

Sergio Teitelboim e Perla Grinblatt, o casal de amigos de Neruda que guardou seu soneto ‘Sangre de Toro’, fotografados nos anos sessenta – Arquivo Pessoal.

“Provavelmente nem ela sabia que esse documento estava guardado”, diz Marcia, cuja mãe morreu em Santiago no dia 14 de julho, aos 94 anos. Junto com esse papel “fino e em razoáveis condições” onde o poema foi datilografado, naquela noite de inverno a médica também encontrou um convite de 1961 para a inauguração de La Sebastiana. Junto com suas irmãs Patricia e Berta, decidiram doar os dois documentos ao Arquivo Central Andrés Bello da Universidade do Chile, em uma cerimônia virtual que aconteceu no dia 23 de setembro deste ano.

Fonte: Site Jornal El País Brasil

60 anos do terremoto que chegou a interferir no movimento de rotação da Terra

No domingo, 22 de maio de 1960, o Chile sofreu o terremoto mais forte já registrado na história.

Eram 15h11. Por cerca de 10 minutos, o país foi atingido por fortes solavancos ao longo de mil dos seus quase 5 mil quilômetros de costa no Pacífico.

Com magnitude 9,5, o terremoto liberou energia equivalente a 20 mil bombas de Hiroshima e causou um tsunami com ondas de até 25 metros devastando populações costeiras.

Estima-se que mais de 1,6 mil pessoas morreram, 3 mil ficaram feridas e 2 milhões ficaram desabrigadas no sul do país, segundo dados do Serviço de Pesquisa Geológica dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês).

A geografia do Chile mudou. Houve populações que afundaram e outras áreas subiram vários metros; um vulcão entrou em erupção e vários rios mudaram seu curso.

A fúria do terremoto se espalhou por todo o mundo. As ondas sísmicas sacudiram o planeta e o fizeram vibrar por vários dias.

Enquanto a terra tremia, um tsunami se formou no oceano, atingindo também a costa oeste continental dos EUA, o Havaí, as Filipinas e o Japão, totalizando mais de 200 mortes.

Impacto na prevenção de desastres

“Era um monstro planetário”, como descreveu Tom Jordan, então diretor do Centro de Terremotos do Sul da Califórnia, em um artigo da revista científica Nature, no 50º aniversário da tragédia.

O Grande Terremoto do Chile, também conhecido como Terremoto de Valdívia em alusão à cidade mais afetada, ainda é lembrado como uma das maiores catástrofes do país 60 anos depois.

A hecatombe, no entanto, também deixou lições valiosas para a ciência e a prevenção de desastres.

O que aconteceu, como foram sentidos seus efeitos e que dados este terremoto deixou para os cientistas que estudam como a Terra treme?

Um dia trágico

Desde sábado, 21 de maio, a costa chilena, perto de Concepción, já havia registrado fortes terremotos de magnitude superior a 8, mas o grande sismo ocorreu no dia seguinte.

A cerca de 160 quilômetros da costa da cidade de Valdívia, a placa tectônica de Nazca se movia cerca de 30 metros abaixo da placa sul-americana.

Esse fenômeno no qual duas placas contíguas se sobrepõem é conhecido como zona de subducção.

A ruptura que causou a sobreposição, segundo o USGS, se estendeu por mais de mil quilômetros de norte a sul, entre as cidades de Lebu e Puerto Aysén.

O atrito entre as duas placas liberou séculos de energia acumulada, causando os maiores danos na região entre Valdívia e Puerto Montt.

Grande parte da destruição foi causada por ondas de tsunami ao longo da costa.

Cidades como Puerto Saavedra foram completamente destruídas e houve graves danos em outros locais como Corral.

Terremoto liberou energia equivalente a 20 mil bombas de Hiroshima – GETTY

O terremoto transformou a geografia

Em Valdívia, a terra afundou 2,7 metros. Nos arredores da cidade, vários rios mudaram de curso, algumas planícies se tornaram zonas úmidas e milhares de hectares de campos cultivados e de pastagem foram perdidos.

“Mudou a paisagem drasticamente”, diz Daniel Melnick, pesquisador do Instituto de Ciências da Terra da Universidade Austral do Chile e diretor do Núcleo Milenio Cyclo, um centro que estuda o ciclo sísmico em zonas de subducção, à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

“Ainda nos arredores de Valdívia, podemos ver postes telegráficos no meio do rio, cercas, docas e estradas submersas”, acrescenta.

Com o tempo, a formação das áreas úmidas também atraiu plantas e espécies de aves antes inéditas na região.

Em Maullín e Chiloé, o afundamento do solo “também foi brutal”, explica Melnick.

Em outros lugares o chão não afundou, mas subiu. A ilha de Guafo, por exemplo, subiu quatro metros. Já a Ilha Guamblin subiu 5,6 metros.

Em 24 de maio, dois dias após o terremoto, o vulcão Puyehue entrou em erupção, lançando vapor e cinzas a 6 mil metros acima do nível do mar.

Essa erupção, que durou várias semanas, se deveu ao movimento de placas que fizeram com que o continente se espalhasse e abrisse espaço para a liberação do magma.

“Seria como se você estivesse removendo a rolha de um champanhe”, diz Melnick.

Após o terremoto, a área do Chile se expandiu o equivalente a 1,5 mil campos de futebol.

Efeito global

O terremoto causou um tsunami que se espalhou por todo o Pacífico.

O atrito entre as placas sacudiu o oceano a uma profundidade de 3 mil metros.

O mais afetado foi o Chile, onde em algumas áreas a forma da baía acabou aumentando a força do tsunami, mas as ondas também atingiram outros pontos do planeta.

Quinze horas após o terremoto, um tsunami atingiu o Havaí, causando 61 mortes e danos graves em Hilo, com ondas com mais de 10 metros de altura. Nas Filipinas, as ondas mataram 32 pessoas e na Ilha de Páscoa, Samoa e Califórnia houve danos materiais.

Fora do Chile, a 17 mil km de distância, o maior desastre ocorreu no Japão, onde 22 horas após o terremoto ondas de 5,5 metros atingiram a região de Honshu, destruindo 1,6 mil casas e matando 138 pessoas.

Terremoto de Valdívia é o de maior magnitude já registrado, e causou um tsunami com ondas de 25 metros.

O planeta vibrou

O Chile está localizado no chamado Anel de Fogo, uma área ao redor do Pacífico onde ocorrem alguns dos maiores terremotos e erupções vulcânicas.

O terremoto de 1960 foi tão forte que vibrou o planeta inteiro por vários dias. Chegou até a afetar a rotação da Terra, reduzindo os dias em milissegundos.

“Essas mudanças não são visíveis pelas pessoas”, diz Melnick, “mas as equipes de medição percebem isso”.

Lições da catástrofe

Mas os efeitos dolorosos e impressionantes do terremoto também deixaram lições para os cientistas que estudam esses fenômenos.

As vibrações planetárias que ele gerou, por exemplo, nos permitiram entender melhor como as ondas sísmicas viajam pela Terra.

O terremoto produziu as primeiras evidências das oscilações do planeta, que são úteis para entender melhor sua estrutura interna.

Compreender essas vibrações também é útil para gerar alertas de tsunami após um terremoto.

De fato, após o Grande Terremoto no Chile, em 1965, foi criado um Sistema de Alerta de Tsunami, que foi fundamental para a detecção de tsunamis em todo o mundo.

O fato de ter sido concluído que o terremoto se devia a uma zona de subducção era “revelador”, segundo Melnick.

Antes desse terremoto, não se sabia como ocorria um terremoto em uma falha que não era visível.

Descobrir que existem zonas de subducção “foi a descoberta das placas tectônicas, uma das maiores descobertas da geologia”, diz o geólogo.

O Chile está localizado no chamado “Anel de Fogo” onde ocorrem alguns dos maiores terremotos e erupções vulcânicas do mundo. GETTY

Ao estudar essas zonas de subducção em várias partes do mundo, os geólogos podem estimar que um terremoto gigante como o do Chile pode ocorrer aproximadamente a cada 300 anos.

Por sua vez, os sedimentos deixados pelos tsunamis em várias costas agora também servem como um indicador para os geólogos identificarem outros locais que podem ser propensos a terremotos gigantes.

Mas para Melnick, além das lições técnicas, também é muito valioso continuar lembrando as histórias do terremoto.

Segundo ele, os testemunhos daqueles que vivenciaram o desastre serviram para elaborar estratégias de sobrevivência e para que as novas gerações estejam mais bem preparadas.

As histórias contadas pelos idosos que viveram o terremoto de 1960 foram muito úteis para as novas gerações entenderem melhor como um terremoto e um tsunami funcionam, para se prepararem melhor e como agir diante de um fenômeno que é inevitável e imprevisível.

“Lembrar do terremoto salva vidas”, conclui Melnick.

Fonte: BBC News Brasil

Salário de políticos será reduzido pela metade no Chile

O Chile vive há mais de 40 dias a maior onda de protestos desde à redemocratização. Apesar das tristes cenas de violência, a população chilena tem muitas razões pra comemorar, afinal, várias reivindicações estão sendo atendidas. Uma delas foi anunciada no último dia 27: A Câmara dos Deputados  aprovou por unanimidade o projeto de lei que reduz temporariamente em 50% os rendimentos de parlamentares e de outras autoridades, como o presidente, ministros e governadores.

A iniciativa, motivada pelas manifestações, segue para o Senado. O projeto foi apresentado há seis anos pelos deputados Gabriel Boric e Giorgio Jackson. A nova legislação deixa de fora, por enquanto, salários de prefeitos, integrantes do Judiciário e funcionários do Ministério Público.

Câmara dos deputados
Câmara dos deputados chilena localizada na cide litorânea de Valparaíso. 

De acordo com o a imprensa chilena, a medida tem caráter temporário e deixa de fora benefícios extras dos parlamentares, como verba de gabinete e outras benesses. Há cerca de um mês, o presidente Sebastián Piñera deu sinal verde para o projeto, como parte das medidas para enfrentar a crise social no país.

Agora, o total dos rendimentos parlamentares, somando salários e benefícios, não poderá ultrapassar 20 salários mínimos. Por lei, um deputado recebe cerca de 6 milhões de pesos chilenos líquidos (R$ 31,2 mil) por mês. Se aprovado o projeto, esse valor cairá à metade (R$ 15,6 mil).

Imagina se a moda pega no Brasil? 🤔 Provavelmente muita gente ia deixar de concorrer nas próximas eleições não é? 😄

Fonte: Revista Exame
 

Jogadores da seleção chilena cancelam partida em apoio aos protestos por maior justiça social no país

Os jogadores da seleção chilena de futebol mostraram estar atentos e solidários perantes às reivindicações e protestos que sacodem o país há semanas. Apesar de serem atletas de alto nível e por essa razão não terem dificuldades financeiras, os ídolos de La Roja demostraram ter uma grande empatia em relação às camadas menos favorecidas do país.  Eles decidiram não entrar em campo no amistoso contra o Peru, marcado para a próxima terça-feira. Na tarde desta quarta, a Federação de Futebol Chilena anunciou que a partida não ocorreria por escolha dos atletas, e que o técnico Reinaldo Rueda já havia liberado os convocados para seus respectivos clubes.

“Os jogadores convocados para a seleção principal do Chile decidiram não disputar o amistoso internacional contra o Peru, programado para a próxima terça (19) em Lima. A decisão foi tomada pelo grupo após uma reunião realizada nesta manhã no Complexo Juan Pinto Durán. O técnico Reinaldo Rueda liberou imediatamente todos os jogadores, que já estão à disposição de seus clubes. A Federação Chilena já comunicou a situação à Federação Peruana”, diz a nota.

Um dos principais nomes da equipe, o volante Arturo Vidal manifestou-se sobre a decisão do grupo em sua conta no Instagram.

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Arturo Vidal, um dos ídolos da equipe, comunicou a decisão de não jogar o amistoso em uma rede social. Imagem Reprodução Internet.

“Como equipe, nós tomamos a decisão de não jogar o amistoso marcado com o Peru, em atenção ao momento social que vive nosso país. Somos jogadores de futebol, mas, antes de tudo, pessoas e cidadãos. Sabemos que representamos um país inteiro e, hoje, o Chile tem outras prioridades, muito mais importantes do que o jogo da próxima terça”, explicou o jogador, atualmente no Barcelona.

O volante ressaltou que os jogadores apoiam os protestos, sem ações violentas tanto de manifestantes quanto do Estado. Acrescentou também que o grupo considera, ainda, que a batalha mais importante que os chilenos enfrentam neste momento é a de viver em um país mais justo para todos.

“Temos uma partida mais importante que é a da igualdade, a de mudar muitas coisas para que todos os chilenos vivam em um país mais justo”, avaliou.

Apoio dos jogadores aos protestos

Em outubro, outros ídolos do futebol chileno já haviam manifestado apoio aos protestos que ocorrem no país, iniciados a partir do anúncio de um aumento na tarifa do metrô. Entre eles, estão o goleiro Claudio Bravo, o capitão da seleção, Gary Medel, os atacantes Alexis Sánchez e Pinilla, o meia Jorge Valdivia ex- Palmeiras  e a goleira Christiane Endler, finalista do prêmio de Melhor do Mundo da Fifa na posição em 2019.

Uma das principais pautas dos protestos  é a crítica ao aumento da desigualdade social. Nos últimos anos, o Chile era visto como um modelo da aplicação de políticas neoliberais  na América do Sul, tendo adotado como uma das principais medidas as privatizações.

“Eles venderam à iniciativa privada nossa água, eletricidade, gás, educação, saúde, aposentadoria, remédios, estradas, florestas, o Salar de Atacama, as geleiras, o transporte. Algo mais? Não é muito? Não queremos um Chile de alguns poucos, queremos um Chile de todos. Chega”, escreveu Bravo no Twitter.

Nesta terça-feira, o volante Charles Aranguiz já havia pedido o cancelamento do amistoso em entrevista à imprensa local. “O ambiente está difícil. Minha opinião é que não deveria ter jogo, para respeitar o que está acontecendo no país”, disse.

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A onda de protestos no país abarca pessoas de todas classes sociais. Imagem Reprodução Twitter

Confira a carta publicada por Vidal na íntegra:

“Para toda a opinião pública, especialmente os torcedores:

Como equipe, nós tomamos a decisão de não jogar o amistoso marcado com o Peru, em atenção ao momento social que vive nosso país. Somos jogadores de futebol, mas, antes de tudo, pessoas e cidadãos. Sabemos que representamos um país inteiro e, hoje, o Chile tem outras prioridades, muito mais importantes do que o jogo da próxima terça. Temos uma partida mais importante que é a da igualdade, a de mudar muitas coisas para que todos os chilenos vivam em um país mais justo.

Apoiamos as manifestações, mas sem violência e sem feridos, tanto do lado dos manifestantes como das forças policiais. O Chile precisa de paz, mas também que não sejam esquecidas as demandas que originaram esse movimento.”

Fonte: Jornal Extra

Primavera chilena

O Chile é considerado uma das nações mais desenvolvidas de toda América Latina. Visto como exemplo a ser seguido pelos vizinhos, a população do país andino vem demostrando nesses últimos dias que a situação por lá não é tão ideal como se imaginava. Ruas limpas, paisagens lindas, estradas bem cuidadas, inflação controlada, entre outros pontos, camuflam um problema muito relevante:  a intensa desigualdade e a falta de mobilização social.

Como entender a crescente convulsão social que tomou conta do país?  A crise começou quando, por recomendação de um painel de especialistas em transporte público, o governo decidiu aumentar o preço das passagens de metrô em 30 pesos, atingindo um valor máximo de 830 pesos (R$ 4,73, na cotação atual).  Mas com certeza “não é só por 20 centavos”… A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, listou quatro pontos para entender as recentes manifestações chilenas.

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Um milhão de pessoas tomaram as ruas de Santiago no dia 25 de outubro pedindo melhorias nas políticas sociais.  A manifestação já é considerada a maior desde o processo de redemocratização.

1. O Chile é um país desigual?

Políticos e especialistas afirmaram que o aumento da tarifa do metrô é apenas a “ponta do iceberg” dos problemas que os chilenos estão enfrentando. A palavra “desigualdade” ganhou protagonismo nos últimos dias, com centenas de manifestantes insistindo que a diferença social entre pobres e ricos no país é excessiva.

Segundo a última edição do relatório Panorama Social da América Latina, elaborado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a parcela de 1% mais rica da população chilena manteve 26,5% da riqueza do país em 2017, enquanto 50% das famílias de baixa renda representavam apenas 2,1% da riqueza líquida.

Por outro lado, o salário mínimo no Chile é de 301 mil pesos (cerca de R$ 1.715,70 — no Brasil, ele é de R$ 998). Segundo o Instituto Nacional de Estatística do Chile, metade dos trabalhadores do país recebe um salário igual ou inferior a 400 mil pesos (R$ 2.280) ao mês. Já no Brasil, como comparação, 60% dos trabalhadores (ou 54 milhões de pessoas) tiveram um rendimento médio mensal de apenas R$ 928 no ano passado, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE.

Com esse salário, os manifestantes alegam que um aumento na passagem do metrô é inconcebível. Ainda mais se considerarmos que o transporte público no Chile é um dos mais caros da mundo, dependendo da renda média. Um estudo recente da Universidade Diego Portales aponta que, de um total de 56 países ao redor do mundo, o transporte no Chile é o nono mais caro.

Assim, existem famílias de baixa renda que podem gastar quase 30% de seu salário no transporte público, enquanto, no nível socioeconômico mais rico, o percentual de gastos nesse setor pode ser inferior a 2%. Dessa forma, o sentimento entre os cidadãos chilenos é de que não houve resposta dos governos a um problema que se arrasta há décadas.

Cristóbal Bellolio, um acadêmico da Universidade Adolfo Ibáñez, disse à BBC News Mundo que “este é certamente um problema estrutural do sistema socioeconômico chileno”. “Não é um mistério que o Chile seja um país muito desigual, apesar do fato de haver muito menos pobreza do que antes.”

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Essa simbólica foto, com a bandeira Mapuche acima,  foi tirada pela atriz Susana Hidalgo.  A imagem viralizou nas redes sociais, pelo mundo inteiro, em apoio às manifestações chilenas.

Para Bellolio, o aumento da passagem do metrô se soma ao aumento do custo da eletricidade, da água e da crise no sistema público de saúde. Os protestos também têm a ver com pensões e aposentadorias: o Chile discute há muitos anos uma reforma do sistema privatizado de previdência, que, para muitos, apresenta deficiências significativas.

“É uma mistura que não oferece esperança de tempos melhores, que é precisamente a promessa do governo Piñera. Pelo contrário, acho que as pessoas percebem que o momento é pior”, afirma.

Claudio Fuentes, professor de Ciência Política da Universidade Diego Portales, pensa de maneira similar. “Houve um grande crescimento da classe média, mas é uma classe média precária, com baixas pensões, altos níveis de dívida e que vive muito de crédito e salários muito baixos. É uma situação em que o dia a dia é precário, cheio de incertezas “, diz.

2. Qual é a responsabilidade do governo Piñera?

Tanto a oposição a Piñera quanto alguns de seus aliados concordaram que o atual governo reagiu tarde às manifestações. Os críticos afirmaram que não houve explicações claras sobre os motivos do aumento da tarifa de transporte e que houve uma “falta de empatia” com os problemas das pessoas por parte do governo.

Além disso, a oposição tem questionado as autoridades pelo fato de o governo ter ameaçado coibir os protestos usando a Lei de Segurança do Estado, sem abordar o mérito das reivindicações. Além disso, os governistas classificaram os manifestantes como “delinquentes” por várias vezes.

“Foi um protesto que começou lento, mas aumentou gradualmente de intensidade, com muitos momentos para reagir. Mas no início houve apenas duas respostas: tecnocracia e repressão. O painel de especialistas define a tarifa e as Forças Especiais a aplicam. Há planilhas do Excel e repressão, enquanto a política permanece cega, surda e muda”, escreveu o jornalista chileno Daniel Matamala em uma coluna no jornal La Tercera.

Piñera foi fortemente criticado no começo das manifestações. Enquanto várias estações de metrô estavam pegando fogo, ele foi visto jantando em um restaurante em Vitacura (um dos locais mais ricos de Santiago). Na ocasião, ele estava comemorando o aniversário de um de seus netos.

Assim, os líderes das coalizões políticas da oposição, como a Frente Ampla, começaram a criticar o presidente e seus ministros. “O governo insiste em concentrar seu discurso na crítica à violência dos protestos, mas suas ações contribuíram para ela. Indolência (“levante-se mais cedo para não pagar passagem mais cara”), mal-entendidos (“crianças em idade escolar não têm motivos para protestar”) e repressão. Não é assim”, escreveu o deputado Gabriel Boric em seu perfil no Twitter.

A ex-candidata presidencial da Frente Ampla, Beatriz Sánchez, disse: “Só precisamos pensar em como o Chile seria diferente se os governos ouvissem o povo antes”. Até um ex-ministro do primeiro governo de Piñera, Harald Beyer, disse ao jornal La Tercera que o episódio “demonstrou a falta de habilidade do governo para lidar com situações como essa”.

Por outro lado, a oposição também não escapou das críticas: há quem diga que ela reagiu tarde e não fez nada para melhorar a qualidade de vida dos chilenos, além de “apoiar os protestos violentos”.

“A oposição cometeu um grande erro: validou a violência (das manifestações). Eles não disseram isso explicitamente, mas estavam desgastados ao contextualizar a violência como parte do descontentamento. E, nesse sentido, o Partido Comunista e a Frente Ampla remaram para o lado do fogo”, diz Cristóbal Bellolio.

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Manifestantes pedem melhorias em serviços essenciais como a saúde. Imagem – Reprodução Facebook

3. Como as expectativas de melhorias sociais influenciam o desconforto das pessoas?

Há anos, a classe política chilena vem prometendo melhorias na qualidade de vida dos cidadãos. Reformas educacionais, constitucionais, tributárias e de saúde foram anunciadas, mas muitas delas falharam em atender às expectativas da sociedade.

A agitação social resultou nessa série de manifestações que terminaram em violência e destruição. As causas do descontentamento vieram das expectativas geradas pela sequência de dois governos antagônicos: Michelle Bachelet (de 2006 a 2010 e depois de 2014 a 2018), de centro-esquerda, e Sebastián Piñera, de centro-direita — que também liderou o país em um período anterior, entre 2010 e 2014.

“Se os primeiros governos tanto de Bachelet quanto de Piñera eram símbolos de mudança, as segundas gestões de ambos esgotaram o estoque de esperanças. Eles pegaram a retroescavadeira e enterraram os melhores tempos. Eles estavam surdos à falta de um projeto nacional, um caminho para o desenvolvimento, uma meta compartilhada que dê sentido às dificuldades cotidianas”, escreveu o jornalista Daniel Matamala.

Além disso, é importante lembrar que Piñera foi reconhecido por sua “capacidade de gerar empregos e melhorar a economia”. De fato, durante seu primeiro governo, essa foi sua grande conquista. Desta vez, as pessoas ansiavam o mesmo e, até agora, a realidade econômica ficou abaixo das expectativas da sociedade chilena.

“Havia duas promessas: melhoras econômicas e paz para os cidadãos. Essas foram as chaves desse governo”, explica Claudio Fuentes. O acadêmico acrescenta que “o crescimento econômico foi menor. E, sobre a segurança pública, acaba de sair um relatório que mostra um aumento na percepção de insegurança por parte da população. Tudo isso afeta esse clima de inconformismo”.

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4. Qual é o papel dos estudantes nas manifestações?

Os recentes protestos foram liderados principalmente por estudantes. A  primeira manifestação ocorreu na segunda-feira, 7 de outubro, liderada por alunos de escolas emblemáticas, principalmente do Instituto Nacional. Este estabelecimento, fundado em 1813, foi o ponto central de organização de protestos. As reclamações têm a ver com a “falta de recursos” para a educação chilena e precariedade nas salas de aula.

Segundo Carlos Peña, reitor da Universidade Diego Portales, os excessos que ocorreram nos últimos dias no Chile são resultado, em parte, do surgimento de uma nova geração “que se manifesta com crescente intensidade”, disse ele ao jornal El Mercurio.

“Não é por acaso que todas essas formas de protesto violento são realizadas por jovens”, acrescenta. Uma das manifestações mais importantes no Chile desde o retorno à democracia também foi liderada por estudantes. A chamada “revolução dos pinguins”, ocorrida em 2006, gerou um precedente importante em relação à demanda social para melhorar a educação no país sul-americano. O nome “pinguim” é uma referência aos uniformes escolares usados no Chile.

Então, em 2011, essa demanda cresceu e o movimento estudantil também provocou grandes protestos, pressionando o primeiro governo de Piñera. Embora não se saiba qual será a verdadeira dimensão das atuais manifestações, os últimos dias podem ser classificados como um dos momentos mais violentos que o Chile viveu em décadas.

Reações

O despertar chileno já está dando os primeiros resultados. O presidente Sebastián Piñera, prometeu aumentar a aposentadoria, melhorar o atendimento na saúde e aplicar impostos aos que ganham mais, uma tentativa de acalmar uma onda de distúrbios e protestos contra a desigualdade que vem sacudindo o país.

No Palácio de La Moneda, o mandatário de centro-direita pediu “perdão” pela falta de visão dos governantes para atender demandas antigas da sociedade que precipitaram as manifestações, que já deixaram mais de 15 mortos.

É verdade que os problemas se acumulavam há muitas décadas e que os vários governos não foram nem fomos capazes de reconhecer esta situação em toda sua magnitude. Reconheço e peço perdão por esta falta de visão”, disse.

Piñera, que nos últimos dias realizou várias reuniões com partidos políticos e representantes das instituições do Estado, disse que parte das medidas terá que passar pelo Congresso e que outras poderão ser implantadas diretamente. O presidente também pediu que todos os ministros do governo renunciassem numa tentativa de reformular radicalmente o atual governo.

Entre as medidas anunciadas pelo chefe de estado está o aumento imediato das pensões e elevações adicionais dentro de dois anos, assim como melhorias nas aposentadorias da classe média, das mulheres e de idosos deficientes.

Mudando o tom de seu discurso em relação aos primeiros dias dos protestos, em que falou de uma “guerra” contra um inimigo poderoso em meio aos distúrbios, o presidente ainda propôs a criação de seguros para conter os gastos de saúde das famílias.

“Esta agenda social não solucionará todos os problemas que afligem os chilenos, mas será uma contribuição necessária e significativa para melhorar sua qualidade de vida”, acrescentou Piñera. Ele também propôs um aumento de 16 por cento no salário mínimo, que passaria para 484 dólares, e um mecanismo para frear a alta recente das tarifas elétricas. Também defendeu elevar os impostos das pessoas mais bem remuneradas.

Homenagem

Um dos momentos mais marcantes dos protestos aconteceu na sexta-feira dia 25 de outubro, quando milhares de pessoas acompanharam centenas de violonistas que tocaram a música El Derecho de Vivir en Paz, do artista Victor Jara, que foi preso, torturado, teve as duas mãos decepadas e foi fuzilado pela ditadura do general Augusto Pinochet, em 1973.

O ato foi realizado em frente à Biblioteca Nacional, em Santiago, com centenas de violonistas tocando as canções de Jara, enquanto a multidão cantava as músicas. Além de poeta, cantor e ativista político,  Jara foi professor, diretor de teatro e compositor. Lutou bravamente contra a ditadura sangrenta de Augusto Pinochet.

Após sofrer várias formas de tortura, Jara tombou crivado de 44 balas em 15 de setembro de 1973, poucos dias após o golpe militar.  Sua morte ocorreu no Estádio Nacional, em Santiago, que foi usado como centro de detenção e tortura. Os restos mortais do cantor, cujo assassinato se converteu em um dos símbolos contra a ditadura pinochetista (1973-1990), estão no Cemitério Geral de Santiago.

Confira a canção original no link abaixo 👇

 

Realmente está sendo de arrepiar a primavera chilena.  E  o  mais bonito é perceber que a  população não  está clamando  por um Salvador da Pátria, ou algo do tipo.  Eles estão vivenciando na prática aquele dito que afirma “que o poder emana do povo”. Desejamos todo sucesso a essa brava gente  ✊ 🌹 🇨🇱

Fontes:  Sites BBC Brasil, Uol e Revista Fórum

 

Senador chileno propõe lei para combater notícias falsas nas eleições

Num mundo cada vez mais conectado pela internet a propagação de notícias falsas, as já famosas “Fake News” é algo cada vez mais difícil de controlar. Além da facilidadade de se espalharem, afinal, hoje em dia, é difícil ver alguém sem o celular na mão, elas também são muito fáceis de serem produzidas: basta ter um bom programa de edição de imagens e vídeos à disposição e uma ideia mal intencionada na cabeça, que o estrago já está feito.

Esse fenômeno pode causar muito prejuìzo à reputação de pessoas e empresas, e é ainda mais perigoso quando o assunto é eleição. Muitas pessoas podem decidir o voto baseadas em mentiras propagadas pelas redes sociais, o que configura uma grave ameaça à democracia. Pensado nesse perigo, o senador chileno Alejandro Navarro, fundador do partido Pais, está com um projeto de reforma constitucional para punir candidatos a cargos políticos no Chile que utilizarem notícias falsas nas eleições.

A proposta, que Navarro nomeou de “Lei Bolsonaro”, tem o objetivo de punir aqueles que se beneficiarem das fakes news para se eleger. 

“O projeto visa cancelar uma candidatura política presidencial, parlamentar, municipal ou de governador, quando algum político for responsabilizado pela difusão de notícias falsas, durante sua campanha”, afirma texto publicado em seu site oficial.

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Segundo o parlamentar, essa é “uma reforma necessária para resguardar a democracia”, que protegerá “a nova forma de fazer política que tomou a extrema-direita na América Latina” e que “espalha mentiras e destrói a reputação de candidaturas opositoras”.

O senador também fez um alerta de que a notícia falsa é uma manobra eleitoral efetiva e que candidatos que as usam ganham eleições. “Não podemos deixar que essa prática conquiste a política chilena. É uma bola de neve que não podemos deixá-la crescer”, afirma.

“Lei Bolsonaro”

De acordo com Navarro, o nome “Lei Bolsonaro” foi escolhido “por causa da maneira questionável de fazer política do candidato presidencial no Brasil, Jair Bolsonaro, candidato eleito à presidência do Brasil.

Para justificar a proposta, o senador cita a reportagem do jornal Folha de S.Paulo, de que empresários teriam pagado pela divulgação de notícias falsas contra a candidatura de seu adversário no segundo turno, o professor universitário e ex-ministro da educação Fernando Haddad.

Como exemplos de fake news, Navarro cita o “kit gay”, a já negada tese de que Haddad defendia incesto em um de seus livros e de que o petista iria elaborar um projeto de lei para legalizar a pedofilia.

Além disso, ele diz reconhecer que “as notícias falsas são difíceis de combater, porque os eleitores ficam com a primeira impressão”.

México e EUA

Além de Bolsonaro, o senador cita mais dois exemplos de candidaturas impactadas por notícias falsas.

No México, ele relembra a situação do candidato e ex-jogador de futebol, Cuauhtémoc Blanco, “que foi difamado por uma empresa paga por seu concorrente eleitoral, que o culpou pelo maciço corte de água no município de Cuernavaca”, diz Navarro. “Eles inventaram até que o bispo local protestou contra Blanco, mas até mesmo o bispo se ofereceu para processar os mentirosos.”

Navarro compara o episódio do México com a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos. “Algo semelhante aconteceu com Donald Trump, quando ele foi acusado de usar o sistema Analytica Cambridge, estudando perfis de usuários do Facebook para enviar informações falsas favoráveis a sua candidatura”, disse o parlamentar.

Me pareceu muito válida a medida porque daqui pra frente essa tem que ser um preocupação não só dos países latinos, mas de qualquer país democrático no mundo inteiro.

Fonte: Site Revista Exame – Grupo Abril

Imagens: Reprodução Internet

Chile, um paraíso para os amantes da Geografia

O Chile é um dos destinos mais procurados pelos turistas brasileiros. O país andino é famoso pelas suas belas paisagens naturais e pela hospitalidade de seu povo. Para quem se interessa por geografia, não há destino mais favorável, pois, o território chileno é um dos mais diversificados do planeta, possuindo quatro tipos de relevo que se desenvolveram no sentido norte-sul. São eles: as Planícies Costeiras ou Litorais, a Cordilheira da Costa, Depressão Intermediária e a  Cordilheira dos Andes (dos seus 9.000 quilômetros, 4.600 estão localizados no território chileno).

Altiplanos
Altiplanos – Imagem Acervo Pessoal.

Além de possuir um relevo acidentado e montanhoso, o país está situado ao longo de uma  área vulcânica onde podem ocorrer tremores de terra ou terremotos. Devido a sua grande extensão, possui climas variados. De maneira geral, podemos dizer que existem três grandes zonas climáticas. No norte predomina o clima desértico,  caracterizado por poucas precipitações; Nas zonas central e sul, predomina o clima temperado, onde se observam claramente as quatro  estações do ano;  E quando  avançamos para o sul, as chuvas aumentam e o frio  permanece o ano todo.  O país possui uma vegetação bastante diversificada e uma fauna bem peculiar, sendo que no litoral as focas e os leões marinhos chamam a atenção, especialmente dos turistas.

De olho em todos esses atrativos,  Hélio Oliveira, professor de Geografia, da Rede Municipal de Ensino da cidade de Confins, na grande Belo Horizonte, planejava fazer uma viagem ao Chile já há algum tempo e nesse ano de 2018 o projeto se concretizou. Juntamente com os filhos e o genro, o educador pôde  aprimorar seus conhecimentos geográficos e visualizar ao vivo as paisagens tantas vezes comentadas com seus alunos em sala de aula. A família visitou a região norte do país, passando também pela capital Santiago e pelas cidades praianas de Viña del Mar e Valparaíso. 

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Hélio planejou a viagem em família, com os filhos e genro – Foto – Acervo Pessoal

Surpreendente

O professor conta que a viagem atendeu suas expectativas e causou até algumas boas surpresas: “Dentre os aspectos que mais chamou minha atenção estava o ambiente da região. Por exemplo, eu achava que a Cordilheira dos Andes era um relevo inacessível, um lugar inóspito, inadequado para a vida em decorrência das altas altitudes, mas na viagem tive a oportunidade de estar em locais situados no topo da Cordilheira onde vi lagos e uma fauna diversificada adaptada àquele ambiente. Ele também tinha uma visão diferente em relação ao Atacama: “Eu imaginava que o deserto do Atacama, por ser o mais árido do planeta, era praticamente inabitável e sem vegetação devido à falta de umidade provocada pela ausência de chuvas, mas não é assim. Existe vegetação, principalmente de gramíneas, além de lagos, faunas e comunidades indígenas vivendo ali, trabalhando com agricultura e artesanato” – explica.

Aspectos culturais

Em relação aos aspectos culturais, Hélio observou os resquícios da colonização espanhola e um sentimento de nacionalização forte em algumas localidades: “Principalmente na região do deserto deu pra notar que ainda existe reflexo da colonização espanhola e costumes indígenas, através das edificações, das vestimentas e artesanatos. Também deu pra perceber uma demonstração do sentimento nacionalista da população. Em São Pedro de Atacama e nas vilas de Socaire e Tocane pude ver muitas casas e estabelecimentos comerciais com a da bandeira do Chile hasteada. Acredito também que a localização geográfica do país contribui para esse espírito nacionalista: o fato de ser um país praticamente isolado de outros, separado por uma grande cadeia de montanhas de um lado e de outro pelo Oceano Pacífico contribui para a preservação da identidade” – observa.

Comida

A comida local que mais chamou sua atenção foi a centolla no Mercado Central de Santiago.  Se trata de uma espécie de caranguejo gigante encontrado em águas profundas do Oceano Pacífico, considerado um dos pratos mais exóticos da culinária chilena. “Me pareceu bastante saboroso, só achei estranho o garçom colocar uma espécie de babador nos clientes – (risos). Já em São Pedro do Atacama experimentamos vários pratos com muita carne. Achei curioso o uso do abacate em muitos pratos” – comenta.

Impressões

Como em todo país, existem pontos positivos e negativos que percebemos ao visitar. Hélio comenta sobre suas impressões: “É difícil avaliar em duas semanas, mas durante minha permanência achei o país organizado, com uma boa infraestrutura, principalmente nas rodovias. Não vi violência (roubos, assaltos, acidentes) nos dias que permaneci no país. Na capital Santiago, gostei do sistema de transporte, principalmente do metrô. Não presenciei congestionamento no trânsito. Já em relação aos aspectos negativos posso falar sobre o alto custo de vida e uma certa desigualdade social, pois, apesar do Chile apresentar um dos melhores indicadores sociais da América Latina, pude observar pessoas pedindo ajuda nas ruas e alguns trabalhando na informalidade (como camelôs) em Santiago e Valparaíso” – revela.

Lugares fantásticos

Hélio conta que gostou muito de todos os lugares que conheceu: ” Achei fascinantes todos os lugares que visitei. São Pedro de Atacama com suas ruas estreitas e sem asfalto, com pessoas de todas as partes do mundo. As Lagunas Altiplánicas,  a Reserva Nacional dos Flamingos, o Valle de La Luna,  O Deserto do Atacama, as cidades de Valparaíso e Viña del Mar onde pude avistar pela primeira vez o oceano Pacífico entre outros”. O local que mais sua chamou atenção entre todos, foi a região onde se encontram águas subterrâneas quentes conhecida como Geiseres El Tátio. “Se fosse para escolher apenas um desses locais escolheria visitar novamente os Geiseres El Tatio porque foi muito emocionante poder testar minha resistência estando a uma altitude de 4.300 metros com uma temperatura de cinco graus negativos” – afirma.

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Na região dos Geiseres El Tatio a temperatura fica abaixo de zero. Foto Acervo Pessoal

Retorno

“O Chile é um país rico em belezas naturais. Dava para voltar lá e visitar a mesma região e conhecer outros lugares sem repetir o que já conhecemos”. Gostaria de voltar um dia especialmente para conhecer o sul, na região da Patagônia – revela o professor”.

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Um dos pontos emocionantes da viagem foi o encontro com o Oceano Pacífico – Acervo Pessoal.

E você se interessou também em conhecer esse país tão especial? Não perca mais tempo e vá se  preparando para se aventurar nesse maravilhoso universo chamado Chile. 

Fonte: Site InfoEscola

 

 

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