Conservadorismo rouba cena no Peru

A partir de 28 de julho, o Peru terá um presidente populista e conservador, independentemente de quem ganhe o  segundo turno da eleição presidencial, marcado para junho. Os dois candidatos, a direitista Keiko Fujimori e o professor  Pedro Castillo, estão em lados opostos no espectro ideológico, mas coincidem no rechaço à igualdade de gênero, ao casamento homossexual e a legalização do aborto. E as ideias conservadoras não terão espaço apenas no Executivo: Pela primeira vez, haverá no Congresso uma bancada da ultradireita católica.

Apuradas 95% das urnas, o professor e sindicalista rural Castillo soma 19% dos votos, enquanto a filha do ex-autocrata Alberto Fujimori, ela própria acusada de lavagem de dinheiro ficou com 13%, 26 pontos a menos do que sua votação na eleição de 2016. O número de votos em branco chegou a 12%, e a abstenção foi de 28%, apesar de o voto no Peru ser obrigatório.

Castillo adota posições de esquerda radical, defendendo um Estado forte, o fim dos monopólios privados e a erradicação da “exploração trabalhista”, mas ao mesmo tempo é profundamente intransigente aos avanços sociais. Ele surgiu no cenário nacional em 2017, durante uma greve de professores de dois meses que pedia melhores salários e condições profissionais. Desde então, manifestou-se repetidamente contra o enfoque da igualdade de gênero no currículo escolar e contra o casamento igualitário. Também afirmou durante a campanha que se opõe a legislar sobre o aborto ou a eutanásia.

Keiko Fujimori, que tenta pela terceira vez a presidência, também se opõe ao casamento igualitário e se declara defensora da família, para explicar que não pretende promover nem reconhecer os direitos da população LGBTI nem o aborto em caso de estupro. Ela prometeu “pulso firme” contra a delinquência e o indulto do seu pai, que cumpre pena de 25 anos de prisão por crimes de corrupção, roubo e homicídio cometidos durante seu Governo (1990-2000), em um contexto de graves violações aos direitos humanos. Entretanto, há um mês um promotor peruano pediu 30 anos da prisão para a própria candidata e a dissolução do seu partido depois de uma investigação iniciada em 2018 por lavagem de dinheiro e por supostamente receber doações milionárias da empreiteira brasileira Odebrecht e de um grupo financeiro peruano para suas campanhas presidenciais de 2011 e 2016.

À espera do segundo turno, o cenário político peruano, abalado desde 2016 pela instabilidade institucional, parece se deteriorar ainda mais. O Peru teve quatro presidentes neste período, e muitos congressistas usam seus cargos para bloquear possíveis investigações e julgamentos dos líderes partidários, a maioria por casos de corrupção.

O advogado e professor Juan de la Puente explica: “O Congresso eleito é muito mais conservador que o que tivemos nos últimos anos, e fragmentado. Essa correlação é interessante porque é muito provável que os setores conservadores obtenham uma maioria parlamentar para dar sustentabilidade a um Governo de Fujimori ou para realizar uma oposição dura ao Governo de Castillo”.

Segundo turno no Peru será disputado, em junho, por dois candidatos com visões conservadoras

Segundo as projeções da imprensa de Lima, baseadas numa apuração rápida da empresa Ipsos Peru e no escrutínio parcial do Gabinete Nacional de Processos Eleitorais, a formação Peru Livre, que lançou a candidatura de Castillo, teria a maior bancada no Congresso, entre 32 e 35 deputados, seguida pelo Força Popular, de Fujimori, com 24. O Parlamento no Peru é unicameral e tem 130 membros.

O terceiro partido com maior representação seria o Ação Popular, do candidato presidencial Yohny Lescano ―uma formação política sem doutrina única, fraturada em duas desde as eleições de 2016. Esta divisão se agravou em novembro passado, quando um setor propiciou a derrubada do Governo de Martín Vizcarra investigado por subornos que teria recebido na época em que era governador departamental, segundo promotores que o investigaram. O grupo político encabeçado pelo candidato presidencial César Acuña, também com vários de seus militantes sentenciados ou investigados por crimes comuns e corrupção, deve eleger 14 deputados.

O Congresso terá também um grupo fundamentalista radical, o Renovação Popular, do empresário ultradireitista Rafael López Aliaga, membro da organização conservadora católica Opus Dei. Com 13 assentos, é a primeira vez que alcança uma representação própria como partido religioso e radical. López Aliaga rejeita taxativamente o aborto, mesmo em caso de estupro, e propõe que meninas que engravidem devido a agressões sexuais sejam acolhidas em seus hotéis cinco-estrelas antes de parir.

O primeiro reflexo da guinada conservadora no Peru talvez se veja na eleição do defensor do Povo e do Tribunal Constitucional, opina o analista De la Puente. Fernando Tuesta, ex-diretor da Organização de Processos Eleitorais, projeta que 11 grupos políticos terão representação no novo Congresso. Apesar da chegada de mais conservadores e do nulo interesse na pauta social e na política ambiental por parte dos partidos com maior representação, o jornalista e cientista político Enrique Patriau estima que não será um Congresso pior que o atual. “Mas sim: o Peru se recusa a deixar de olhar para o abismo”, sentencia.

Fonte: El País Brasil

O meteoro “La Bamba”

Existem músicas que parecem ser feitas para serem eternas. “La Bamba“ seguramente é uma delas. A melodia do folclore mexicano conquistou o mundo através da performance de vários artistas.

Sem uma gravação específica, a canção já era extremamente popular em seu país natal, mais especificamente no estado de Veracruz. As versões originais combinavam elementos da música espanhola, indígena e africana e sequer tinham uma letra definida.

Com o passar do tempo, a divertida faixa passou a ser gravada por diversos artistas que ajudaram a impulsionar seu reconhecimento. As diferentes versões incluem os toques pessoais de nomes como Trini Lopez, Harry Belafonte, Los Lobos, entre outros…

A versão que vou destacar neste post é a de um jovem roqueiro californiano, de ascendência latina. O ano é 1958 e o rock, com grande base em elementos do blues, ganhava popularidade enquanto um gênero de música juvenil. Um dos pioneiros neste movimento foi o cantor norte-americano Ritchie Valens.

Valens, orgulhoso de suas raízes mexicanas, adaptou “La Bamba” para a estética dançante do rock n’ roll. Esta foi a primeira versão a sair do folclore mexicano para conquistar o mundo comercialmente. Não à toa, a canção permanece viva no imaginário musical não apenas do México, mas como de todo o mundo.

Se você tem acesso à Netflix, ou ao Youtube, pode conferir a cinebiografia desse grande astro da música. O emocionante e trágico enredo do filme “La Bamba” (1987) narra a história de vida do garoto Ritchie, que embora muito jovem, chamou atenção pelo enorme talento musical e pela voz marcante.

Com somente 16 anos, ele começou sua primeira banda, a The Silhouettes. O grupo fazia pequenas apresentações locais em algumas cidades próximas na Califórnia. Uma delas chamou a atenção do produtor Bob Keane, que presidia uma gravadora na época. Com sua ajuda, Ritchie acabou se tornando um sucesso com suas composições que misturavam rock e música latina. Em 1958, seu primeiro single “Come On, Let’s Go” se tornou um pequeno sucesso. Entretanto, foram as músicas seguintes que renderam grande fama ao cantor: a dançante “La Bamba” e a belíssima “Donna”, uma homenagem a sua namorada do colégio, Donna Ludwig.

O cantor morreu com apenas 17 anos, cerca de 8 meses após ter alcançado a fama, em um acidente de avião que também vitimou os músicos Buddy Holly  e J.P. Richardson. Posteriormente, a tragédia ficou conhecida como “o dia em que a música morreu” na canção “American Pie”, do cantor Don McLean.

Richard Steven Valenzuela nasceu em maio de 1941 em Pacoima, uma pequena cidade da Califórnia, próxima a Los Angeles. Filho de operários mexicanos, ele desenvolveu o gosto pela música desde pequeno, aprendendo a tocar uma série de instrumentos.

Após a fatalidade que tirou a vida jovem astro, a música “La Bamba” continuou sua trajetória e até hoje se mantém como essencial para a cultura da América Latina. “La Bamba” é descrita, por representantes da Biblioteca do Congresso dos E.U.A., como “culturalmente, historicamente e esteticamente relevante”.

Em 2004, a revista Rolling Stone  lançou uma edição especial em que elenca as 500 Melhores Músicas de Todos os Tempos. A lista conta com a versão de “La Bamba” de Ritchie Valens, que, por sinal, é a única música cantada em um idioma sem ser o inglês. A canção ocupa a 354ª colocação na lista, à frente de sucessos de artistas como Elton John, 2Pac e de nomes da época como Elvis Presley e Muddy Waters.

Ritchie Valens teve uma carreira meteórica que deixa marcas até hoje. Se você é fã de música boa, não deixe de conferir essa comovente e incrível trajetória 🎼

* Com informações dos sites: “Tenho mais discos que amigos” e “Globo.com”

Clandestino

Aconteceu num dos momentos culminantes da sua carreira, depois de concluir a etapa do Mano Negra e logo antes de publicar seu primeiro disco solo, Clandestino. Era julho de 1998 e Manu Chao havia embarcado num projeto chamado La Feria de las Mentiras, um festival que reunia malabaristas, DJs, shows, teatro… Um projeto ambicioso que precisou de meses de preparação e uma zelosa tarefa de contabilidade para que não fosse deficitário. Optou-se por desenvolvê-lo em Santiago de Compostela no Mercado de Gado de Salgueiriños. Milhares de pessoas tinham comprado o ingresso por 5.000 pesetas (30 euros, 172 reais pelo câmbio atual). O recinto estava cercado, e uma empresa de segurança foi contratada para controlar os acessos. Mas alguns encontraram um lugar pouco vigiado. Alguns minutos depois do começo do show, Manu Chao estava lá, ajudando um grupo de penetras. O chefe boicotando a si mesmo. Empurrava uma das cercas e estimulava fãs a entrarem mesmo sem terem passado pela bilheteria. “Venham, venham, rápido, passem.” Os espectadores furtivos nem reconheceram o cantor, com a cabeça encapuzada. Passaram-se mais de duas décadas daquilo, e desde então Manu Chao só acentuou este espírito indômito, temerário e contraditório.

Nos últimos tempos, fez algo que andava evitando neste século: equiparar-se a astros como Alejandro Sanz ou Bon Jovi. Como: publicando um vídeo com canções para aliviar o confinamento das pessoas. Com esta ação generosa, o cantor recordou ao público maciço que continua aí, que não está desaparecido. Embora, na verdade, sempre tenha estado ativo, mas esquivando o sistema.

Manu Chao não tem gravadora; não faz turnês como as dos artistas de sua categoria; tem ofertas para tocar nos melhores festivais do mundo, mas não quer; não se interessa por entrevistas; não lança discos; não aparece para receber prêmios; não usa celular.

Tudo isso não o impede de estar fazendo coisas o tempo todo. Você pode encontrá-lo atuando num bar de bairro, sem avisar, ou camuflado com outro nome. Ou escutar suas novas canções em seu site. O artista foi apanhado pela mano negra do coronavírus  enquanto fazia uma turnê pela Índia, Bangladesh, Sri Lanka, Filipinas… Salas pequenas e em formato acústico de trio. Quando a coisa ficou feia, conseguiu chegar ao seu apartamento de Barcelona, de onde está gravando canções que publica em suas redes sociais com o nome de Coronarictus Smily Killer Sessions. Algumas são versões de canções dele (Otro Mundo), de outros, como Kiko Veneno (Echo de Menos), ou temas que aparentemente são novos (Mi Libertad).

Certamente não existe um músico nos últimos anos como ele, capaz de dar as costas ao sistema quando poderia tirar tantas coisas dele. Chao foi um campeão de vendas em nível mundial no final dos anos noventa, com discos como Clandestino (1998) e Próxima EstaciónEsperanza (2001), que juntos despacharam quatro milhões de cópias. Chao lapidou aquela música bastarda de seu ex-grupo Mano Negra, acelerada e desordeira, e propôs algo mais pausado, melancólico. Reggae, rumba, ritmos latinos… para um disco, Clandestino, canônico no que se chamou de mestiçagem. Crucial a parte da mensagem, resumida em duas ideias que repetiu naqueles anos: “Tudo é mentira” e “Vivemos a ditadura da economia”.

“São canções simples, mas há muita verdade e sinceridade. Manu utiliza as palavras adequadas. Tudo parece fácil, mas tem uma grande complexidade”, observa a cantora Amparo Sánchez, cujo projeto musical mais conhecido é o Amparanoia. Sánchez colabora com Chao há mais de 25 anos. “É um artista crucial para entender o devir do rock na América Latina durante os anos oitenta e noventa. Também é um entroncamento entre a música europeia e africana. Sua marca é crucial e indiscutível”, afirma o jornalista Bruno Galindo, que compartilhou com Chao uma longa viagem pelo Brasil.

Mas Manu Chao viu as longas garras da fama chegarem perto demais e fugiu. As encontrou, olhou-as de frente e lhes disse: “Não me quero sentir como um boneco numa tempestade”. A troco de quê? “Em um sentido mais amplo, a troco de liberdade”, afirma Kike Babas, autor, com Kike Turrón, do recente Manu Chao. Ilegal. Perseguiendo el Clandestino (Bao Bilbao Ediciones). “A missão de Manu é viver a vida, viajar, não cair na rotina. Um de seus exemplos é Bob Marley. Acredito que Mano vive e sente a vida como Marley”, afirma Turrón.

Amparo Sánchez recorda como começou sua relação com Chao. “Era 1995 e eu acabava de chegar a Madri. Tinha 25 anos. Costumava ir pela rua Madera [no centro] para ensaiar carregando meu violão e o tripé do microfone. E sempre cruzava com um sujeito pequeno que me cumprimentava. Eu era fã do Mano Negra, mas não reconhecia Manu quando me dizia ‘olá’. Um dia decidimos tomar uma cerveja em um bar da praça Dos de Mayo. Falamos por três horas. Contou-me suas viagens pela América Latina, as causas sociais que lhe pareciam interessantes… Mas eu continuava sem localizá-lo e ele não disse nada. Ao ir embora me comentou que tinha um grupo e que ensaiavam num porão próximo, que passasse por lá um dia. E passei. Abriu ele mesmo a porta e percebi que era o Mano Negra.”

Nascido em Paris de pai galego (Ramón) e mãe basca (Felisa), Manu Chao não se interessava muito pelos livros que enchiam a sala da sua casa de classe média. Preferia a rua. Ramón Chao (Lugo, 1935 – Barcelona, 2018), seu pai, era um jornalista e escritor que trabalhava para veículos como o Le Monde e recebia prêmios literários. Os dois filhos do casal, Antonie (nascido em 1964) e José Manuel, o Manu (em 1961), começam de adolescentes a tocar rock. Manu forma bandas como Hot Pants e Los Carayos… e o Mano Negra, junto com seu irmão, que começou em 1987 com sua mistura de punk, ska e ritmos latinos e se manteve num caminho ascendente em popularidade até sua dissolução em 1997.

A ruptura do Mano Negra, que acabou em julgamento, destroçou Chao. “Foi uma etapa de grande desânimo. Inclusive ele cogita deixar a música. O final do grupo lhe causou muito desgaste e a isto se uniu uma separação sentimental. Deprime-se. Pensa em virar trabalhador social na África ou em seguir os passos do seu pai e virar jornalista”, afirma o escritor Kike Babas.

Chao opta por uma viagem terapêutica pela América Latina que lhe salvaria tanto emocional como criativamente. Conhece sua namorada no Brasil e se nutre dos ritmos latinos. Toda esta melancolia latina será o arcabouço de Clandestino, que grava ao regressar à Espanha. “O sucesso de Clandestino nos pegou de surpresa. Não o esperávamos na gravadora, e acho que Manu tampouco. Ele sempre foi muito honesto, um músico que se nutre do bairro, que prefere tocar com músicos desconhecidos que conhece num bar a tocar com grandes nomes”, conta Javier Liñán, a pessoa de confiança do franco-espanhol em sua etapa na multinacional Virgin. O disco vendeu milhões de cópias. Música em espanhol acotovelando-se com os que triunfavam naquela época: Britney Spears, NSYNC, Eminem, Limp Bizkit…

Sagrario Luna conhece Manu Chao desde que formou o Hot Pants, no final dos anos oitenta. “Lembro que naquela época só falava de Chuck Berry e Camarón e usava um pequeno topete”, comenta. Depois trabalhou com ele em turnês e na Virgin. “Era trabalhar com um colega”, observa. “Durante muito tempo, ser Manu Chao pesou muito para Manu Chao. Depois do sucesso de Clandestino, todo mundo lhe pedia opinião sobre tudo, e acho que isso lhe gerou muita frustração”, diz Luna. E acrescenta: “Sempre me pareceu um sujeito de verdade. Tem nuances, como todos, mas nunca foi falso. Por outro lado, o achava bastante solitário, com poucos amigos, dos quais, isso sim, cuidava muito”. O discurso de Chao naquela época tem tintas de visionário. Alerta sobre o populismo xenófobo, o integralismo religioso, a morte do formato físico na música. E cria um movimento ao redor dele. Assim o definiu Fermín Muguruza, músico que também colaborou com o artista: “Formou-se uma rede internacional do rock em que estavam todos remando para conseguir um mundo melhor”.

Apesar de ter conquistado fama mundial, Mano é avesso aos holofotes

Para entender a posição fora de foco atual do músico, é preciso revisar dois episódios de sua vida, decepções que tiraram a pouca fé que ele tinha no establishment. Uma delas é com Iggy Pop, um músico a quem Chao admirava… até que o Mano Negra abriu um show do líder dos Stooges. Assim contou ele certa vez à revista Tentaciones, do EL PAÍS: “Com Iggy Pop aprendemos a dura lei de show-business. Boicotaram o nosso som, proibiram o pessoal do catering de nos dar de comer, às vezes até nos proibiram de tocar. E, no final, o numerozinho. Quando alguém da segurança – às vezes o próprio filho do Iggy, que trabalhava na turnê – empurrava alguém que tentava subir ao palco, Iggy dizia: Ei, você, seu filho de puta, não toque no meu público!’. E toda a plateia pensando: Que cara mais maneiro é o Iggy”.

E o segundo episódio tem a ver com seu compromisso social. Em julho de 2001 o cantor vai a Gênova (Itália) para protestar, com muitos milhares mais, durante a reunião dos países mais poderosos, o G-8. O anfitrião é Silvio Berlusconi, à época primeiro-ministro italiano. Chao atua e no dia seguinte participa, esmurrando um tambor, de uma grande manifestação contra a política do G-8. E vai embora para a França. No dia seguinte, o caos. Um grupo de manifestantes violentos entra em ação, e a polícia italiana revida com força. As imagens corem o mundo, com manifestantes pacifistas envoltos num furacão de violência. Chao vê tudo pela televisão da sua casa, em Paris, e fica horrorizado.

Muitos o reclamam como o líder antiglobalização que as ruas necessitam. Ele primeiro fala. “Esse movimento não necessita de líderes, se houver líderes é nefasto para o movimento. Essa etiqueta do líder do movimento eu rejeito”, afirma numa entrevista coletiva em Valência, antes de um show, em setembro de 2001. E, nos anos seguintes, reluta a todo custo em aparecer no noticiário. Procura batalhas antimidiáticas, lutas de pequenas comunidades. Como as reivindicações salariais das trabalhadoras do Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD) de Barcelona; em Mendoza (Argentina), para apoiar que não se permita o fracking e a mineração em grande escala; incentivando as chamadas kellys (camareiras de hotéis); em defesa do povo mapuche; ao lado dos migrantes; contra a multinacional Monsanto… Aparece sempre com seu violãozinho, vestido com suas eternas calças corsário e com seu perene sorriso desenhado no rosto. Chao escuta, canta e apoia economicamente. Não sai na imprensa, poucos ficam sabendo.

“Manu se dói pelo mundo. E se acalma indo aos lugares e apoiando causas pequenas que considere justas. Em seus shows grandes, sempre deixa um lugar para que estes coletivos se expressem. Em um momento dado do show, para e sobem ao palco para se expressarem, como ocorreu em 2016 na Plaza Mayor de Madri”, diz Kike Babas, que foi o contato entre o artista e a equipe de Manuela Carmena, então prefeita da capital, para celebrar o recital. “Quis estar em Madri porque depois de muitos anos na capital se respiravam outros ares. Mas deixou muito claro que não queria que o vinculassem nem com algum partido político nem com o [movimento de indignação popular] do 15-M”, diz Babas.

Quem compartilha vivências com ele salienta seu caráter austero: “Quando você se senta para comer com ele, não há dois pratos e sobremesa. Você só belisca”; “o lugar mais incômodo onde já dormi na minha vida foi com o Manu: em um povoado do Brasil, numa espécie de armário; “compra roupas em lojas de segunda mão”… Amparo Sánchez conta uma história curiosa a respeito: “Manu já era uma estrela, mas recordo que quando marcávamos de nos encontrar ficávamos sentados na porta de um prédio, com cigarros e uma cerveja, e ali passávamos as horas falando”. O artista pode se permitir esta vida errante e livre de grilhões (familiares, profissionais…) porque sua conta corrente é generosa. “As vendas de seus dois primeiros discos solo e os direitos autorais são suficientes para que ele e sua descendência vivam de forma bastante folgada”, diz uma fonte. A julgar pelas canções que publica em seu site, não se vislumbra uma evolução musical. “Não acredito que precise nem que a busque. Interessa-se pela cultura popular, pelo bairro, pelo músico que trabalha na rua”, aponta Liñán.

Sua casa em Barcelona tem 80 metros quadrados e é uma espécie de oficina de trabalho, com um computador, lembranças dos lugares por onde viaja e, num canto, um catre “que não parece muito cômodo”. Passa ao menos uma vez ao ano pelo Brasil, onde vive, no Ceará, seu único filho, Kira, que já tem mais de 20 anos.

Neste ano, Manu Chao completa 60 anos. Manteve-se sempre afastado das drogas duras: preferiu fumar maconha e beber licores depois da refeição, mas de forma comedida. Conserva-se juvenil. É pequeno, magro e fibroso. Corre, joga futebol e se mexe, sempre se mexe. Sua última canção confinada se chama Mi Libertad. Diz assim: “Minha liberdade, minha companheira, minha liberdade, minha solidão”.

Fonte: El PAÍS

Alfajores, uma paixão argentina

É impossível ir até a Argentina e não se deliciar com esse iguaria. O doce também é muito utilizado para presentear os amigos quando voltamos de viagem ao país vizinho, afinal, é uma marca de nossos hermanos. A Argentina é o país que mais produz e consome alfajores no mundo. E essa riqueza culinária está se espalhando pelo mundo.

Os olhos da chocolatier Maria Romero brilham quando ela se lembra da infância em Quilmes, cidade argentina na província de Buenos Aires, e do seu primeiro contato com os alfajores. “Minha primeira lembrança de comê-los é de quando era pequena”, diz ela.

“Tinha um quiosque dentro da escola e corríamos no intervalo para comprar alfajor. Tenho uma lembrança muito forte de ficar de pé ouvindo as crianças gritando os nomes das diferentes marcas — Jorgito, Capitán del Espacio, Fantoche. Se você estava com fome, precisava de um doce, estava triste, você comprava um. Às vezes, você só precisa de um alfajor para sobreviver.” Em sua forma mais comum, o alfajor argentino é um doce feito com dois biscoitos macios que esfarelam, recheados com doce de leite e cobertos com chocolate ou polvilhados com açúcar ou coco ralado.

Romero descreve os alfajores como “biscakes” — algo entre um biscoito e um bolo (cake, em inglês) — e ganha a vida com eles. Depois de trabalhar para a Savoy em Londres, os fabricantes de chocolate de luxo Artisan du Chocolat e Rococo, e o Hilton, em Buenos Aires, ela agora dirige a Sur Chocolates, no Reino Unido, que produz alfajores gourmet. Romero coloca alfajores no mesmo patamar do vinho Malbec, da carne e da erva-mate no panteão culinário da Argentina — e ela não está sozinha.

Cerca de 1 bilhão de alfajores são vendidos na Argentina todos os anos, de acordo com o conselho de turismo de Buenos Aires, e centenas de variedades estão disponíveis em quiosques, supermercados e padarias de todo o país, desde a Tierra del Fuego, no extremo sul, às planícies áridas de Jujuy, ao norte.

“Você pode encontrá-los em qualquer lugar”, diz Allie Lazar, crítica gastronômica de Buenos Aires e colaboradora do blog Pick Up The Fork.

“Cada quiosque vende uma grande seleção de alfajores. A maioria dos argentinos tem uma queda por doces, e doce de leite é basicamente um tesouro nacional, então os alfajores são há muito tempo a guloseima ou o lanche rápido perfeito. Também são um ótimo acompanhamento para contrastar a erva-mate, que tende a ser bastante amarga.”

Os alfajores são parte integrante da cultura popular argentina, aparecendo em diversas obras — do conto O Aleph, de Jorge Luis Borges, às tirinhas da tão amada Mafalda, do cartunista Quino.

Quando era jovem, o jogador Lionel Messi era recompensado por um dos seus treinadores com alfajores por cada gol que marcava. Eles são tão importantes para a vida argentina que a Constituição do país foi supostamente escrita em uma alfajorería (loja de alfajores) em meados do século 19. Embora sejam um produto relativamente simples, os alfajores têm uma história longa e complexa.

Facundo Calabró, criador do blog Catador de alfajores e autor do livro ‘En busca del alfajor perdido’ (Em Busca do Alfajor perdido, em português), explica que eles datam pelo menos do século 8, quando um biscoito árabe feito de açúcar, melado, nozes e canela chegou à Península Ibérica durante a conquista dos mouros.

Foram desenvolvidas na sequência versões da Andaluzia e da Múrcia, que ganharam o nome de alajú ou alfajor — derivado, alguns linguistas acreditam, da palavra árabe al-fakher (“luxuoso”) ou da palavra árabe antiga al-huasu (“preenchido” ou “recheado”) .

Com formato cilíndrico e feito de amêndoas moídas, avelãs, farinha de rosca, açúcar, mel e especiarias como a canela, essas versões ainda são tradicionalmente consumidas em algumas partes da Espanha no Natal e em algumas regiões estão disponíveis o ano todo.

Mas os alfajores ganharam destaque de verdade na América Latina.

“No século 16, durante o [período colonial], o alfajor chegou do sul da Espanha e se espalhou pelas Américas, principalmente por meio dos conventos. Começou a se hibridar, pegando os ingredientes de cada região e perdendo outros”, conta Calabró. Os alfajores em Porto Rico são tipicamente feitos de mandioca moída, por exemplo; enquanto Chile, Peru e México — entre outros — usam suas próprias versões de doce de leite.

No entanto, embora sejam encontrados por toda a América Latina, eles são símbolo, antes de mais nada, da Argentina, maior produtora e consumidora do produto.

Alfajores são normalmente recheados com uma camada de doce de leite e então cobertos com chocolate, açúcar ou coco ralado. GETTY IMAGES

Hoje, os alfajores argentinos estão muito distantes de seus predecessores espanhóis e árabes. As versões caseiras mais comuns — e geralmente encontradas nas padarias — são conhecidas como alfajores de maizena, com recheio de doce de leite e cobertura de açúcar ou coco ralado.

“Mas, como a maioria dos alimentos que chegaram à Argentina, os alfajores passaram por reviravoltas provinciais”, explicam Paula Delgado e Claudio Ortiz, chefs da Estancia Los Potreros, que vão publicar seu primeiro livro de receitas em 2021.

“Nossos chefs recorrem a receitas que aprenderam com suas mães, tias, avós. Aqui na província de Córdoba, os alfajores são tipicamente recheados com uma pasta de marmelo doce. Todos os nossos gaúchos, cozinheiros, faxineiros e funcionários se sentam à tarde para falar sobre a vida e política com alfajores e chá mate. Eles são uma parte importante da cultura argentina.”

O tipo mais famoso de alfajor comprado nas lojas é o marplatense, que é recheado com doce de leite e coberto com chocolate. Seu nome vem da cidade costeira de Mar del Plata, berço da principal marca Havanna, que abriu sua primeira padaria em 1947 e agora tem lojas e cafés em toda a Argentina.

Mas há inúmeras variações além do clássico marplatense.

Se você explorar as prateleiras de um quiosque, vai encontrar versões cobertas com açúcar, merengue ou iogurte; recheadas com geleia, ganache, mousse ou pasta de amendoim; e aromatizadas com café, frutas, nozes ou bebidas como rum ou uísque.

Há variedades veganas, sem glúten, de arroz e até com três camadas. As pessoas estabelecem ligações profundas com marcas específicas, de acordo com o marido de Romero, Emanuel:

“Os argentinos precisam pertencer a um lado ou ao outro. Como no futebol, por exemplo, você torce pelo Boca ou pelo River. Com os alfajores é quase a mesma coisa — você tem uma marca (preferida) e a defende.”

A marca “HAVANNA” é uma das mais populares na Argentina e no mundo

Apesar de sua popularidade na Argentina e em outras partes da América Latina, os alfajores são relativamente pouco conhecidos no resto do mundo, embora isso esteja começando a mudar. A Havanna abriu uma loja na Flórida, a primeira nos EUA, em 2017. “Há também lojas Havanna na Espanha e mais de 100 no resto da América Latina”, afirma Mariano Oliva, CEO da Havanna USA.

“Vendemos cerca de meio milhão de alfajores por ano nos Estados Unidos e temos um plano — suspenso por enquanto [por causa da covid-19] — de abrir mais unidades. Os alfajores têm um potencial fenomenal.”

No Reino Unido, os alfajores criativos de Romero — erva-mate, Malbec, chocolate amargo e menta são apenas alguns dos sabores — também se revelaram um sucesso. “Nosso sonho é levar [alfajores] para todos os lugares”, diz ela.

No entanto, enquanto os alfajores se expandem globalmente, a questão de por que exatamente eles são tão populares na Argentina, permanece sem resposta.

Delgado e Ortiz atribuem à paixão nacional por doces; Oliva sugere um forte apego emocional que se desenvolve na infância; e Romero acredita que se deve a uma “paixão compartilhada”.

Para Calabró, as razões por trás do amor argentino pelos alfajores permanecem um “grande mistério”.

“É óbvio que eles fazem parte de nossa identidade coletiva”, afirma.

“[Mas] nós amamos alfajores porque eles fazem parte da nossa identidade ou porque, por alguma estranha razão, decidimos amá-los? Ainda não há resposta.”

Fonte: BBC Brasil

Marielle presente!

Em cada mês de março o Brasil e o mundo voltam os olhos para o Rio de Janeiro, onde Marielle e seu motorista Anderson foram brutalmente assassinados. Seus algozes tentaram silencia-la, mas sua voz segue ecoando em todo o planeta cada vez que uma menina ou mulher decide exercer seu direito à fala.

Todos os anos, desde a sua partida, a vereadora recebe inúmeras homenagens, além de pedidos de justiça. No último dia 14, quando o crime completou 03 anos, ainda sem elucidação, Marielle recebeu um importante tributo, em uma das principais cidades latinas, Buenos Aires. A estação “Rio de Janeiro” do metrô da capital Argentina inaugurou uma placa em homenagem à vereadora brasileira.

Placa em homenagem à parlamentar brasileira, na capital Argentina – Divulgação

A placa será permanente e foi homologada pelo governo por iniciativa da deputada Maria Bielli, do Frente de Todos (partido do presidente Alberto Fernández). Marielle terá um espaço permanente na estação, que deve incluir um código QR onde os visitantes poderão conhecer um pouco mais da história da vereadora brasileira.

Homenagem no Brasil

No mesmo dia, autoridades e parentes de Marielle  também inauguraram uma placa em homenagem à vereadora em frente à Câmara Municipal, no Centro do Rio de Janeiro. A placa é idêntica à utilizada na identificação de vias e praças da capital fluminense.

Na placa, há as seguintes frases: “Mulher negra, favelada, LGBT e defensora dos direitos humanos. Brutalmente assassinada em 14 de março de 2018 por lutar por uma sociedade mais justa”.

Fonte: G1

Chile lidera ranking de vacinação na América Latina

Na primeira semana da campanha de vacinação em massa contra covid-19 em idosos, o Chile já havia ultrapassado o marco de um milhão de pessoas imunizadas. A meta do governo chileno é vacinar toda a população que faz parte do grupo de risco — incluindo pacientes crônicos e profissionais de saúde — ainda no primeiro trimestre de 2021, de modo a imunizar 15 milhões dos 19 milhões de habitantes do país até julho.

Em meados de 2020, o governo chileno enfrentou fortes questionamentos em relação à gestão da pandemia, à medida que o país registrava grandes taxas de infecção por covid-19. Mas agora está sendo aplaudido por seu plano de vacinação. A campanha é gratuita e voluntária. De acordo com os últimos dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde do país, 2.375.725 pessoas foram imunizadas no Chile contra a covid-19 até o final do mês passado.

Até o dia 19 de fevereiro, o país havia administrado 15,03 doses da vacina para cada 100 habitantes — segundo a plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Número muito superior às 3,07 doses no Brasil, 1,48 na Argentina e 1,22 no México. O desempenho até agora coloca o país como líder latino-americano e 7º no ranking mundial de taxa de vacinação contra a doença, liderado por Israel (82,40).

Mas como o Chile alcançou esse resultado?

De acordo com Luis F. López-Calva, diretor regional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) da América Latina e Caribe, para que uma campanha de vacinação seja bem-sucedida, três fatores importantes devem ser levados em consideração: primeiramente, dispor de recursos financeiros para adquirir as vacinas; segundo, ter uma boa estratégia para distribuir as doses e, finalmente, ter capacidade institucional e estrutura governamental para implementá-la.

“Essas três características foram bem atendidas no caso do Chile”, afirmou López-Calva à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Compra antecipada de vacinas e diversificação

O Chile agiu rapidamente e logo assinou acordos com diferentes desenvolvedores de vacinas contra covid-19. Até agora, o país já garantiu mais de 35 milhões de doses de vacinas, das quais 10 milhões são da empresa americana Pfizer-BioNTech, outras 10 milhões da chinesa Sinovac e o restante da AstraZeneca, da Johnson & Johnson e do consórcio Covax, iniciativa liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para garantir o acesso universal à vacina.

Além disso, está em meio a negociações para comprar doses da vacina russa Sputnik V, que em breve poderá garantir as duas doses necessárias da vacina para toda a população.

O país também foi o primeiro da América do Sul a iniciar a vacinação contra o covid-19.

As autoridades começaram a imunizar os profissionais de saúde da linha de frente em 24 de dezembro com as doses fornecidas pela Pfizer/BioNTech, às quais se somaram as do laboratório chinês Sinovac na campanha de vacinação em massa que começou no dia 03 de fevereiro.

Para isso, é preciso levar em conta que o Chile dispõe de recursos para obter a vacina. Membro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), possui um dos maiores PIB per capita da região, embora também deva ser levado em consideração que apresenta uma taxa de desigualdade superior à média da OCDE. Segundo López-Calva, “a compra das vacinas foi prevista com bastante tempo, houve um bom planejamento”.

“E a ideia era priorizar: primeiro os profissionais de saúde, depois os idosos — para os quais o Chile adquiriu um número significativo de doses da Pfizer — e depois ter vacinas de outras empresas farmacêuticas para o resto da população”.

Nesse sentido, López-Calva acredita que foi importante apostar na diversificação na hora da compra, diferentemente de alguns países de alta renda, por exemplo, que apostam apenas nas vacinas ocidentais.

“A diversificação de desenvolvedores tem sido muito importante porque o mercado está muito distorcido e a oferta muito limitada. Alguns países optaram por um ou outro e só recentemente estão tentando diversificar”, afirmou o diretor regional do PNUD.

Colaboração científico-clínica

Para Alexis Kalergis, acadêmico da Universidad Católica de Chile e diretor do Instituto Millennium de Imunologia e Imunoterapia, a colaboração científico-clínica foi fundamental para alcançar alguns dos acordos.

“Foi estabelecido um acordo de colaboração acadêmica-científica entre a Universidade Católica e a Sinovac, que visa o desenvolvimento recíproco e colaborativo de vacinas contra a SARS-CoV-2, por meio de estudos científicos e clínicos”, explica Kalergis à BBC News Mundo.

“Este acordo deu origem a algo muito importante, que foi a possibilidade de acesso prioritário e preferencial a um fornecimento de doses para uso no Chile, uma vez aprovado pelos respectivos órgãos reguladores”.

“Este direito obtido pela Universidade Católica foi transferido 100% para o Estado do Chile por meio de um convênio entre a Universidade Católica e o Ministério da Saúde. O que permitiu ao nosso país poder garantir um fornecimento antecipado e prioritário de doses para os próximos meses”, acrescenta.

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Capacidade institucional e coordenação

O Chile também possui uma sólida rede de atendimento primária, por meio da qual já são realizadas outras campanhas anuais de vacinação, afirma a jornalista Paula Molina. Segundo ela, tanto essa rede robusta quanto a experiência em campanhas de vacinação têm facilitado a logística. E em relação a isso, o Chile tem uma vantagem.

“Temos uma população pequena e ela está muito concentrada na região metropolitana (Santiago)”, diz Molina. Além da capacidade institucional em termos de centros de saúde, López-Calva também destaca a utilização de recursos materiais e humanos existentes para acelerar o ritmo da vacinação.

Assim, estádios, centros educacionais e esportivos foram transformados em postos de vacinação, e todo profissional de saúde capacitado — como dentistas e parteiras — foi chamado para realizar a vacinação. “É uma estratégia que tem funcionado bem e acho que outros países podem aprender com ela”, avalia o diretor regional do PNUD. Nesse sentido, a colaboração entre os diferentes níveis de governo tem sido fundamental.

“Tem havido uma coordenação do governo central mas com muita intervenção dos governos regionais, dos governos locais, viabilizando espaços ao ar livre, ginásios, estádios, para poder haver mais postos de vacinação.” Segundo López-Calva, em estruturas mais descentralizadas, onde os governos locais têm mais autonomia, como no Brasil ou no México, esse tipo de estratégia e planejamento leva mais tempo.

Contra o ‘turismo das vacinas’.

As autoridades chilenas retificaram o plano inicial de vacinação divulgado pelo Ministério da Saúde e anunciaram na semana passada que não vão vacinar estrangeiros não residentes no país contra a covid-19, com o objetivo de evitar o chamado “turismo das vacinas”.

“Os estrangeiros que estão no país com visto de turista (…), ou aqueles que se encontram de forma irregular, não terão direito de se vacinar no Chile”, declarou o ministro das Relações Exteriores, Andrés Allamand.

Para ter acesso à imunização, é necessário ter nacionalidade chilena, permanência ou residência no país, ou, na ausência disso, uma solicitação de visto em andamento, esclareceu o chanceler.

“O que se tenta evitar é o turismo da vacina, não se trata de não vacinar estrangeiros, mas de não vacinar pessoas com visto de turista”, diz López-Calva a respeito do anúncio chileno.

Pelo novo decreto, todos os migrantes em situação irregular também são excluídos da campanha de vacinação, o que deixa sem vacina os milhares de estrangeiros que entraram no país nas últimas semanas pela fronteira ao norte com a Bolívia — e que estão em quarentena preventiva.

Fonte: BBC News

Espirulina, o superalimento perdido da América pré-colombiana que o México tenta resgatar

Na Cidade do México, a espirulina tem aparecido em quase todos os cardápios. Desde os habituais smoothies (bebidas refrescantes a base de frutas) até em pratos mais tradicionais, como tortilhas e tlayudas (base de tortilha crocante com feijão frito e outras coberturas).

Mas não pense que este é um símbolo da invasão “hipster” da globalização dos alimentos saudáveis: na verdade, séculos antes de serem consideradas um “superalimento”, essas cianobactérias de cores vibrantes (ou algas verde-azuladas) — que crescem sobretudo em lagos alcalinos quentes, lagoas e rios nas zonas tropicais e subtropicais — eram um alimento básico na era pré-colombiana.

Os mexicas — ou astecas, como ficaram conhecidos posteriormente — colhiam a substância rica em proteínas da superfície do Lago Texcoco, um extenso corpo de água no centro do México que acabou sendo drenado em grande parte pelos espanhóis para abrir caminho para a construção da Cidade do México. As águas do lago tinham o equilíbrio perfeito entre salinidade e alcalinidade para o florescimento da espirulina.

Os mexicas a chamavam de tecuitlatl, palavra nahuatl que pode ser traduzida como “excremento de rocha”, embora tivessem decididamente um apreço maior por ela do que o nome sugere.

“As tradições orais dizem que os mensageiros e corredores mexicas na antiga Tenochtitlan comiam espirulina seca com milho, tortilhas, feijão ou pimenta como combustível para viagens de longa distância”, afirma Denise Vallejo, chefe que dirige o restaurante vegano Alchemy Organica, em Los Angeles, nos EUA.

Mesmo sem a ciência moderna, os mexicas puderam reconhecer a densidade de nutrientes que fez da espirulina um dos alimentos preferidos da atualidade. Ela tem cerca de 60%-70% de proteína e aminoácidos essenciais, além de muitas vitaminas e minerais, sobretudo ferro, manganês e vitaminas B, de acordo com a Encyclopedia of Dietary Supplements.

Na verdade, é tão saudável e relativamente fácil de cultivar que especialistas acreditam que pode ser uma potencial fonte de alimento para as futuras colônias de Marte. É claro que, para os conquistadores espanhóis que chegaram no século 16, parecia estranho.

No México, a espirulina aparece sob diferentes formas nos cardápios — de smoothies a pratos tradicionais – Antons Jevterevs/ALAMY

Bernal Díaz del Castillo escreveu em suas memórias de 1568 sobre “uma espécie de pão feito de um tipo de lama ou limo coletado da superfície do lago e comido dessa forma, e que tem um sabor semelhante ao nosso queijo”.

E o frade franciscano Bernardino de Sahagún incluiu ilustrações da colheita de espirulina em seu estudo etnográfico do século 16, o Florentine Codex.

“Depois da invasão espanhola, a maior parte de seu consumo diminuiu com a drenagem dos lagos do Vale do México”, diz Vallejo. “E muitos dos espanhóis não gostavam de suas propriedades ‘viscosas’ ou ‘pegajosas’. O conhecimento de seu consumo se perdeu por muito tempo.”

O mundo ocidental redescobriu o ingrediente nutritivo na década de 1940, quando um ficologista francês (cientista que estuda algas) notou que o povo Kanembu ao longo do Lago Chade, que banha Níger, Camarões, Nigéria e Chade, estavam colhendo espirulina e transformando-a em bolos que secavam ao sol chamados dihé.

Mas ela não fez seu grande retorno ao México até um feliz acidente na década de 1960, quando os proprietários da Sosa Texcoco — que produzia carbonato de sódio e cloreto de cálcio em uma grande lagoa em forma de caracol no que restou do Lago Texcoco — notaram uma substância de coloração verde arruinando o trabalho deles. Eles procuraram pesquisadores franceses, que concluíram que era o mesmo organismo que vinha alimentando os Kanembu por gerações.

Em vez de tentar erradicar as cianobactérias, a Sosa Texcoco reconheceu seu valor, incentivou seu cultivo e abriu a primeira empresa comercial de espirulina do mundo, a Spirulina Mexicana. Embora a Spirulina Mexicana já tenha fechado, uma microfazenda nos arredores de San Miguel de Allende, chamada Spirulina Viva, dá continuidade à antiga tradição.

Desde 2010, a americana Katie Kohlstedt e seu marido, Francisco Portillo, nascido em San Luis Potosí, cultivam espirulina fresca — que provavelmente tem um gosto muito semelhante à que os mexicas colhiam séculos atrás.

“Estamos muito orgulhosos de cultivá-la aqui”, diz ela. “Não precisávamos inventar algo novo ou trazer algo de outro lugar.” Embora muitas pessoas possam estar familiarizadas com a espirulina na forma de pó desidratado, a Spirulina Viva vende a substância verde crua e congelada, o que confere a ela um sabor muito mais delicado. “A espirulina fresca deve ser cremosa como um requeijão”, afirma Kohlstedt. “Se você fechar os olhos, pode achar que está comendo algo entre abacate e espinafre.”

Ela adverte que se você acha que a espirulina tem sabor de peixe, é provável que esteja comprando um produto de qualidade inferior — ou inclusive algum que use espinhas de peixe moídas para fornecer o fósforo que a espirulina precisa para crescer. Kohlstedt e Portillo organizam workshops de cultivo de espirulina e já receberam futuros agricultores de lugares distantes, como Austrália e Argentina.

O Lago Texcoco foi drenado em grande parte pelos espanhóis para construir a Cidade do México- Chico Sanchez / ALAMY

“É jardinagem combinada com química”, diz Kohlstedt sobre o processo. Mas, para muitos consumidores, o produto final ainda permanece sendo um mistério.

“Se eu ler mais um artigo que diz que a espirulina é cultivada no oceano ou [que mostra] a foto de uma alga marinha, vou gritar”, afirma ela, rindo.

Kohlstedt recomenda comer espirulina da forma mais simples possível, misturada em uma sopa quente de missô ou caldos, batida em um smoothie, passada no pão ou com guacamole e suco de limão, uma vez que a vitamina C mostrou ajudar na absorção de ferro. “Você vai se sentir como se tivesse acabado de comer o almoço de Popeye”, afirma.

Na Cidade do México, os chefes estão ficando cada vez mais criativos ao usar o ingrediente.

Você pode encontrar espirulina na tlayuda coberta com abacate e escamoles (larvas de formiga) no restaurante Balcón del Zócalo; ou iluminando uma tortilla na Cintli Tortilleria; adicionando um toque verdejante às tigelas de smoothie e cheesecakes no Vegamo; e até mesmo em coquetéis no Xaman Bar, de inspiração pré-colombiana.

Lá, o barman chefe, Kenneth Rodrigez, incorporou a espirulina em uma série de drinques, incluindo um coquetel à base de gim com limão mexicano e licor de aspargos.

“Eu uso quando alguém não gosta de clara de ovo ou [em drinques para] pessoas veganas, porque a espirulina tem proteína e podemos obter texturas interessantes”, diz Rodriguez, “sem falar na cor incrível e nos componentes nutricionais que ela fornece”. Ele acrescenta que o ingrediente “pode ainda ​​ser usado para realçar outros sabores, pois tem muitos minerais, como uma alternativa ao sal”.

Do outro lado da fronteira nas comunidades mexicanas-americanas, o uso da espirulina significou estabelecer uma conexão direta com o passado pré-colombiano.

No criativo restaurante mexicano Mixtli de San Antonio, por exemplo, os chefes Rico Torres e Diego Galicia apresentaram a espirulina em um menu especial inspirado na invasão espanhola. Eles participaram de um jantar colaborativo no Dia dos Mortos no James Beard House de Nova York, onde uma das entradas era um iogurte de espirulina defumado com ovas de truta e rabanetes.

No Alchemy Organica, Vallejo incorpora espirulina em pó à água fresca (bebida sem álcool tradicional mexicana) de abacaxi com sementes de limão e chia.

E ela usa inclusive como “um corante alimentar natural e reforço nutricional, junto com cactos e espinafre em pó” para preparar uma massa verde vibrante (feita com milho que foi nixtamalizado ou tratado com uma solução alcalina), que ela transforma em tortilhas e tamales coloridos.”Também uso para intensificar o sabor de alguns dos meus pratos inspirados em frutos do mar, já que oferece um sabor muito parecido com o das algas”, explica.

Os chefes abusam da criatividade ao usar a espirulina em pratos e drinques- Marsbars – GETTY IMAGES

E quando um de seus cozinheiros começou a vender espirulina fresca no mercado de agricultores, Vallejo passou simplesmente a colocar colheradas em suas bebidas. “Dá a energia que você espera de uma xícara de café!”, afirma.

De certa forma, esses chefs estão explorando algo muito mais profundo do que simplesmente o sabor ou a nutrição. Vallejo, que estuda curandeirismo (medicina popular), disse que a espirulina costuma ser vista como um desintoxicante para preparar rituais, feitiços e “cerimônias visionárias”.

Kohlstedt também ouviu falar sobre as conexões místicas do ingrediente:

“Alguém me disse que a razão de ser chamada ‘espirulina’ tem a ver com sua forma espiral, mas também com nosso DNA e como há algo realmente básico e espiritual sobre como nos relacionamos com as plantas [e as cianobactérias]. “

“Muitos dos ‘superalimentos’ desfrutados hoje têm uma rica história na Mesoamérica: chia, amaranto, cacau, abacate, cacto”, observa Vallejo.

“Acho que o atual movimento descolonizador nos Xicanx (mexicanos nos EUA), na América Central e em outras comunidades de língua espanhola está nos ajudando a redescobrir e lembrar nossos hábitos alimentares ancestrais. Devemos recuperar nossos alimentos e nossa sabedoria vegetal. Quanto mais os comemos, mais despertamos esse DNA e essa história.”

Fonte: BBC News Brasil

Conheça a soberana, vacina cubana contra a covid-19

Alguns dos equipamentos do Instituto Finlay de Vacinas, em Havana, podem ser considerados desatualizados em outras partes do mundo. Mas o que ocorre por trás de suas paredes pintadas de branco é ciência de ponta. Ali, os pesquisadores trabalham em longos turnos naquela que é considerada a maior oportunidade para Cuba combater a pandemia: a Soberana 2, a vacina contra a covid-19 produzida na ilha. A Soberana 2 é uma vacina conjugada. Isso significa que ela traz um antígeno (substância que suscita a resposta imune do organismo) junto com uma molécula transportadora para reforçar a sua estabilidade e eficácia. Dentro de semanas, o imunizante começará a ser testado em dezenas de milhares de voluntários.

Os resultados dos primeiros ensaios clínicos foram “encorajadores” e “muito importantes”, afirma o diretor do instituto, Vicente Vérez Bencomo. Segundo a agência Efe, a vacina está na fase de estudos 2B, que avaliará, entre outros pontos, a capacidade da vacina em gerar resposta imunológica e sua segurança. Depois disso, ainda restaria a fase 3 de estudos.

O governo espera dar a vacina a todos os cubanos até o final do ano. “Nosso plano é, obviamente, primeiro imunizar nossa população”, explicou Bencomo em uma entrevista coletiva. “Quando passarmos para a produção comercial da Soberana 2, planejamos ter cerca de 100 milhões de doses ao longo de 2021, e vamos dedicar parte importante delas à imunização total do país”, completa.

Sem influência americana

A meta citada por Bencomo é ambiciosa, mas realista: Cuba tem mais de 30 anos de experiência em biotecnologia e imunologia. No final da década de 1980, cientistas cubanos produziram a primeira vacina contra a meningite B e o então líder do país, Fidel Castro, abriu o Instituto Finlay com o objetivo de encontrar maneiras de contornar o embargo americano que perdura por décadas.

Se as patentes das empresas farmacológicas dos Estados Unidos não estiverem disponíveis para Cuba, o país seria capaz de encontrar suas próprias soluções nesse campo, argumentou o representante do Instituto Finlay. No entanto, fazer 100 milhões de doses de vacina sem alguma forma de assistência internacional vai muito além da capacidade fabril da ilha.

Ainda assim, mesmo se o governo de Joe Biden amenizar as medidas restritivas reforçadas durante a administração de Donald Trump, os Estados Unidos não terão um papel importante no desenvolvimento da Soberana 2.”Nossos principais contatos são com a Europa e o Canadá. Nós também temos contribuintes da Itália e da França”, explica Bencomo.”Esperamos que no futuro seja possível avançar para a próxima etapa da cooperação com os Estados Unidos”, disse ele.

Instituições internacionais, como a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), esperam que Cuba se torne o primeiro país latino-americano a produzir do zero sua própria vacina.

“Estamos muito otimistas”, disse o médico José Moya, representante da Opas em Cuba.”Fomos informados na fase piloto e nos testes experimentais da Soberana 2 e sabemos que o país vem investigando a viabilidade de várias vacinas desde agosto do ano passado”.

José Moya, da Opas, compartilha do otimismo dos cientistas cubanos

Saúde sob pressão

As apostas de Cuba são altas. Em primeiro lugar, isso acontece porque os números de casos e mortes por covid-19 estão piorando a cada semana por lá. As infecções confirmadas aumentaram recentemente para mais de mil por dia, pela primeira vez desde o início da pandemia. Até o dia 16 de fevereiro, o país registrava 269 mortes, segundo a Universidade Johns Hopkins e a OMS.

Embora essas estatísticas pareçam minúsculas em comparação com aquelas observadas em México, Brasil e Estados Unidos (os três países com o maior número absoluto em mortes por covid-19 no mundo), elas são sérias o suficiente para colocar pressão extra no sistema de saúde cubano. Em meados do ano passado, Cuba conteve em grande parte seu surto por meio da combinação de uma agressiva campanha de informação pública e o fechamento de seus aeroportos.

Durante várias semanas entre julho e agosto, a ilha registrou taxas mínimas de transmissão e poucas mortes. Mas os casos gradualmente aumentaram, para grande frustração dos cubanos.

Moya, da Opas, diz que a situação não está fora de controle e é similar à que ocorre em outros países.”Chegou um momento em todos os lugares em que era necessário começar a reabrir. E foi o que aconteceu aqui, enquanto se tentava avançar progressivamente para o chamado ‘novo normal’.”

Problemas do amanhã

Cuba está experimentando sua pior perspectiva econômica desde o fim da Guerra Fria. Logo, existe também um importante incentivo econômico para uma vacina bem-sucedida. Os bloqueios e lockdowns necessários para conter o coronavírus foram muito dolorosos para uma ilha que depende tanto do turismo.

Isso fez a economia cubana despencar 11% no ano passado. Atualmente, longas filas se formam todos os dias do lado de fora de lojas de alimentos e supermercados, enquanto as pessoas aguardam sua vez de adquirir produtos básicos.

O governo escolheu este momento para implementar uma série de reformas, desde a unificação da moeda até algum tipo de liberalização das licenças de trabalho autônomo. Embora essas medidas possam eventualmente fortalecer a economia conturbada de Cuba, elas resultam numa tormenta de curto prazo para muitas famílias, especialmente aquelas sem parentes que enviam recursos financeiros do exterior.

Os cubanos são muito resistentes e engenhosos — eles tiveram que desenvolver essas características para enfrentar o duplo desafio imposto pelas sanções americanas e pelo controle autoritário do Estado. Mas muitos estão exaustos com os meses implacáveis ​​de restrições e as dificuldades econômicas opressivas.

Um fio de esperança?

Com as crianças ainda fora da escola, as empresas falindo e um toque de recolher na capital Havana, as pessoas anseiam por notícias encorajadoras sobre a vacinação. Uma vacina viável permitiria à ilha reabrir mais cedo e sem o medo de novas ondas. A Soberana 2 também permitiria uma nova fonte de receita ao ser exportada para toda a região.Tudo isso coloca uma urgência real no trabalho dos cientistas: eles precisam aliviar a crise sanitária e econômica da ilha com muita rapidez.

Fonte: BBC News Brasil

Alguém tem que morrer

Se você quer compreender um pouco sobre como era a sociedade espanhola no período da ditadura franquista, não deixe de assistir a minissérie: “Alguém tem que morrer””, disponibilizada na Netflix. Ambientada nos anos 50, a trama apresenta a poderosa família Falcón, composta por Amparo (Carmen Maura), a matriarca da família, seu filho Gregorio (Ernesto Alterio), a esposa Mina (Cecilia Suárez) e pelo seu neto Gabino (Alejandro Speitzer). A reputação da família é posta à prova quando Gabino retorna do México acompanhado de um amigo bailarino, Lázaro (Isaac Hernández).

A série não perde tempo em estabelecer sua trama, a relação entre os personagens enquanto planta mistérios e intrigas suficientes para instigar o espectador a criar teorias sobre os segredos escondidos. Ao longo de seus três episódios, de aproximadamente 45 minutos, todo drama se desenrola. Quando a amizade de Gabino e Lázaro começa a ser questionada, o ponto central da história começa a se mostrar: O preconceito arraigado em uma sociedade extremamente conservadora e moralista. A família Falcón, que se destaca na alta sociedade, principalmente por seu favorecimento pelo governo e liderança conservadora da matriarca, não pode aceitar conviver com um filho homossexual.

Em uma época que a homossexualidade era tratada como pecado, doença e até mesmo crime, os “desviados” eram detidos e sofriam um “tratamento” a base de violência, sendo torturados em alguns casos até a morte. Alguém tem que morrer prova que certas coisas não mudam com o tempo. Infelizmente, muito do que é retratado na minissérie ainda, é visto nos tempos de hoje. Em um período que a religião era imposta através da cultura do medo, e a violência era exercida em nome da Igreja e do patriotismo. O conservadorismo e o poder militar ditavam as regras. Fica claro o discurso de “pátria limpa”, utilizando a religião para justificar o ódio, a violência e o preconceito no sentido amplo da palavra.

Através de seus temas, o enredo evidencia todos os problemas de uma sociedade conservadora e de um regime ditador. As tramas são movidas pela repressão e a violência. Algumas cenas são desconfortáveis e se tornam ainda mais dolorosas sabendo que ainda hoje acontece muito daquilo que é apresentado. A série chega a provocar uma certa revolta, ao refletirmos sobre como a imposição de padrões e regras comportamentais, podem causar inúmeros sofrimentos… Vale a pena conferir!

Fonte: mixdeseries.com.br

Saiba como será a primeira cidade-floresta inteligente do México

Comissionada pelo Grupo Karim´s e projetada por Stefano Boeri Architetti, a primeira cidade-floresta inteligente do México terá como foco a inovação e a qualidade ambiental. A cidade busca um equilíbrio entre áreas verdes e construídas e é completamente auto-suficiente em alimento e energia.

Smart Forest City – Cancun é a primeira cidade-floresta do novo milênio, com capacidade para 130.000 habitantes. A cidade será construída em um terreno de 557 hectares, com 400 hectares reservados para espaços verdes. As mais de 400 espécies vegetais usadas no projeto foram escolhidas pela botânica e arquiteta paisagista Laura Gatti, e vão compor um arranjo de mais de 7,5 milhões de plantas espalhadas por toda a cidade. Com uma proporção de 2,3 árvores por habitante, a cidade-floresta “absorverá 116 mil toneladas de dióxido de carbono por ano”. Parques públicos, jardins privados, coberturas vegetais e fachadas verdes ajudarão a estabelecer um equilíbrio com a área construída.

Visando a economia circular, a cidade é cercada por painéis solares e campos agrícolas, tornando-a completamente auto-suficiente em alimento e energia. A água é coletada na entrada da cidade, próxima à torre de dessalinização, e é distribuída “por um sistema de canais navegáveis que conectam a zona urbana aos campos agrícolas”. Dentro da cidade, as pessoas circulam com veículos elétricos e semi-automatizados, deixando seus carros nos limites da cidade. 

Por fim, a cidade conta com “um centro de pesquisa avançada que pode receber universidades, organizações internacionais e empresas que lidam com questões de sustentabilidade”. Esse centro receberá pesquisadores e estudantes de todo o mundo.

Fonte: archdaily.com.br

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