Para usar en la cancha

A Copa do Mundo da Rússia está chegando ao final, e já contamos os dias para o próximo Mundial no Catar. Pra você já ir se preparando para a festa, aprenda as principais expressões futebolísticas em espanhol. 😉

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*Observações:  Também se usa “cancha” para se referir ao campo, “hinchada” para torcida e “hinchas” para torcedores. 

Fonte –  Instagram: @espanholentrelineas

De Cavani para Cavani

Você já escreveu uma carta pra si mesmo? Muita gente faz isso, especialmente para ler anos depois.  Eu ainda não fiz essa experiência, mas imagino que deve ser bem interessante, porque com o passar do tempo as mudanças são inevitáveis e imagino que a pessoa deve ter sensações que variam de nostalgia,  frustração, alegria, ou vários desses sentimentos  misturados. O craque Cavani do Uruguai teve essa experiência, mas ao contrário:  Com 31 anos escreveu uma carta para ele mesmo aos 09.  O  texto, publicado no The Players´Tribune, é emocionante, confiram abaixo:

“Caro Edinson de 9 anos,

Eu escrevo isso para o garoto que no bairro todo mundo chama de ‘Pelado’.

Quando você era bebê, não tinha muito cabelo. Cresceu pouco a pouco. Uma merda! Não havia nada que você pudesse fazer a respeito. Então, graças à criatividade de sua família, você sempre foi o ‘Pelado’.

Bem, fico feliz em dizer que nos próximos 20 anos o futebol vai mudar sua vida de muitas maneiras. Algumas muito boas, outras nem tanto. O futebol vai ajudar você a se livrar daquele apelido. Existe um cara chamado Gabriel Batistuta. Você ainda não sabe, porque o único programa que você tem a paciência de assistir na TV é Tom & Jerry. Seu irmão mais velho, Nando, será o primeiro a ser inspirado por Batistuta. Ele vai começar a se recusar a ir ao cabeleireiro. E usar o condicionador da sua mãe. E pouco a pouco, ele começará a se parecer com o magnífico Batigol. Quando ele está correndo em um campo de futebol, com seu cabelo comprido puxado para trás e segurado por um elástico, será a coisa mais cool que você já viu.

Chegará a hora em que você dirá à sua mãe: “Sem mais cortes de cabelo”.

Você vive a sua vida lá fora, com uma bola nos pés. Do jeito sul-americano. Você não sabe fazer diferente. E também, o que há para fazer dentro? Nada divertido, nada interessante. Não há PlayStation. Não há TV grande. Você não tem nem chuveiro quente. Não há aquecimento também. No inverno, seu sistema de aquecimento é feito por quatro cobertores. Quando você precisa tomar um banho, você tem uma garrafa térmica com água que você aquece na cozinha com querosene. É muito importante entender como combinar água fria e quente. De pé na banheira, você aprende a ser um alquimista.

Cavani
Cavani criança – Imagem Reprodução Internet

E, no entanto, isso será um luxo para você. Ou você não se lembra da sua primeira casa? Aquela que não tinha banheiro. Aquela casa onde toda vez que você tinha que se aliviar, você não tinha escolha senão sair e ir para a pequena cabana!

Você pode me deixar te contar um segredo? Quando me lembro dessa imagem agora, não me sinto mal. Por alguma razão, isso me enche de energia. Isso me dá coragem. É uma linda lembrança.

Não se preocupe com o que você tem na casa. Você tem que continuar vivendo sua vida ao sol, Pelado.

Além disso, qual é a razão para ter cartazes de futebol presos na parede? A cada dois ou três anos, quando você muda de emprego ou sua família não pode pagar o aluguel, você tem que se mudar para outro lugar. Mas você sabe o que é melhor? Que em cada casa nova, não importa onde esteja localizada, você sempre tem um pequeno campo do lado de fora. E também há uma bola. Não há locatário no mundo que possa tirar isso de você.

O que mais importa em sua vida neste momento, se bem me lembro, é o Gol do Sorvete.

O Gol do Sorvete é algo mágico. Eu preciso falar com alguém do PSG sobre o Gol do Sorvete. É genial. É pura motivação. A ideia era para os organizadores do campeonato juvenil de Salto. Como você motiva um bando de guris de 6 anos?

Colocando a regra de que o garoto que faz o último gol do jogo toma um sorvete.

O resultado poderia ser 8-1, mas isso não importa. É uma corrida contra o tempo. Marque o último gol do jogo. E a sensação ao ouvir o técnico que tocou o apito para marcar o final, quando você fez o Gol do Sorvete… incrível! Uma imensa alegria. Será chocolate? Você vai pegar um desses do Mickey Mouse? Seja o que for, ao longo desse dia, você é o rei.

Claro que você não é um garoto da capital, Pelado. Os meninos de Montevidéu vivem em um mundo diferente. Um mundo que você nem conhece. Um mundo de chuteiras Adidas, viagens de carro e grama verde. Em Salto, tudo é diferente. Por alguma razão, todo mundo quer jogar descalço. Algumas crianças começam os jogos com chuteiras, mas depois, no intervalo, todas as chuteiras estão empilhadas de um lado e todo mundo corre descalço. Se eu fechar meus olhos agora, ainda posso sentir a lama nas solas dos meus pés. Ainda sinto meu coração batendo, correndo atrás da bola, sonhando com sorvete.

Você carregará esses sentimentos com você por toda a sua vida, porque você é sul-americano. Você é do Uruguai. Você é de Salto. Você vive o futebol de uma maneira diferente.

A bênção e a maldição para os uruguaios é que nunca podemos relaxar. É a história do nosso futebol, é a história do nosso país. Quando colocamos o azul da celeste, sentimos o orgulho da nossa história. Temos de seguir adiante. E você vai.

Quais são seus sonhos, Pelado? Eu nem me lembro deles exatamente. O tempo os transformou em memórias difusas.

O seu sonho é jogar em Montevidéu, como Nando? Você vai conseguir, e quando fizer isso, vai sentir que está jogando na Liga dos Campeões.

O seu sonho é jogar na Europa? Você vai fazer isso e ganhará dinheiro suficiente para mudar a vida de sua família.

O seu sonho é jogar pelo Uruguai? Você fará isso e terá experiências que o farão chorar de alegria e também de tristeza.

O seu sonho é jogar uma Copa do Mundo? (Eu não vou estragar a surpresa, vou dizer que 2010 será El Loco).

Seu sonho é ter muito dinheiro, dirigir bons carros e dormir em hotéis elegantes? Bem, Pelado, você terá todas essas coisas. Mas eu tenho que te dizer uma coisa. Elas não necessariamente farão você feliz.

O que você tem agora, com 9 anos de idade, é algo de que eu sinto muita falta agora. Você não tem um banho quente. Você não tem um dólar no seu bolso. Você nem tem um bom cabelo. Mas você tem outra coisa. Algo que não tem preço. Você tem sua liberdade.

Quando criança, você vive sua vida com uma intensidade e uma paixão que são impossíveis quando adulto. Tentamos nos apegar a esse sentimento quando crescemos, mas ele começa a desaparecer. Ele escorrega pelas nossas mãos. Existem muitas responsabilidades. Muita pressão. Muita vida a ser vivida interiormente.

Você sabe como é a vida agora, aos 31 anos de idade? 

Você vai de um hotel para um ônibus e de lá para um campo de treinamento. Depois do campo de treinamento para um ônibus e um avião. Do avião você vai para outro ônibus. Do ônibus você vai para um estádio.

Em muitos aspectos, você está vivendo um sonho. Mas em muitos outros, você também é prisioneiro desse sonho. Você não pode sair e sentir o sol. Você não pode tirar as chuteiras e jogar descalço. As coisas vão acontecer de modo a tornar sua vida muito complicada. É inevitável.

Quando você é criança, você tem a sensação de que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem mais coisas. Quando você cresce, percebe que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem a sabedoria de viver a vida.

Quando você conseguir isso no futebol profissional, você terá tudo com que pode sonhar. E para isso você terá que ser extremamente grato. Mas tenho que ser honesto com você, Pelado. Existe apenas um lugar onde você pode ter essa liberdade total. E dura 90 minutos, se você tiver sorte.

Quando você coloca suas chuteiras, não importa se você está jogando na terra em Salto, na grama verde de Nápoles ou na frente de milhões de pessoas em uma Copa do Mundo…Eu quero lembrá-lo das palavras do seu pai.

O que ele sempre te diz, toda vez que você vai jogar?

Eu sei que você sabe disso.

Ele diz: “No momento em que você cruza a linha de cal e entra no campo, é apenas futebol. Nada que acontece fora dessa linha irá ajudá-lo com o que se passa dentro de você. Nada mais existe”.

Se você ouvir essas palavras e realmente acreditar no espírito delas, então, mesmo que a pressão seja imensa, mesmo que você esteja jogando em frente de milhões de pessoas… você sairá do campo e sentirá que está jogando descalço.

Você vai sentir a lama presa nas solas dos seus pés.

Você vai sentir o seu coração batendo e vai correr atrás da bola, como se fosse o maior troféu do mundo. Como se você tivesse jogando pelo sorvete…

Sinceramente,

Edi.

 

 

Arriba Peru

Com certeza uma das torcidas mais empolgadas desse Mundial da Rússia será a peruana, e não é pra menos: Nossos vizinhos andinos estavam há 36 anos sem participar do torneio, e sobre o comando do argentino Ricardo Gareca,  conseguiram a tão sonhada vaga, ao bater a Nova Zelândia na repescagem. A empolgação se tornou ainda maior com a liberação do craque Paolo Guerrero, que estava suspenso da competição por ter sido pego no antidoping, mas acabou sendo liberado exclusivamente para disputar a Copa.

O bom momento da equipe reflete também um sentimento de otimismo em relação ao país de forma geral, já que o governo conseguiu reduzir drasticamente a pobreza local nos últimos 10 anos.

O vídeo motivacional, elaborado para empolgar os torcedores, reflete bem esse clima de otimismo e esperança que vive o país vive. Confira no link  abaixo e sinta  la buena onda dos peruanos 😀

Uruguai e sua estranha neurose futebolística

Já entrando no clima da Copa da Rússia que começa nesta  quinta – feira, o post de hoje vai falar sobre a relação dos torcedores uruguaios com o maior evento do futebol mundial. Se por aqui no Brasil, estamos meio desanimados com o time canarinho, após o traumatizante 7 a 1 contra a Alemanha, no nosso vizinho Uruguai a situação é bem diferente. A empolgação com a equipe celeste é sempre forte, ainda mais neste ano, após uma ótima campanha nas Eliminatórias.  Outro dia li um artigo do psicólogo, jornalista e escritor uruguaio Agustín Acevedo Kanopa no New York Times em espanhol, e achei muito interessante a análise que ele fez sobre como o torneio afeta os ânimos de toda a população de quatro em quatro anos e sobre o conflito psicológico que a população e também os atletas travam em relação à sua amada seleção.  Resolvi fazer a tradução e compartilhar com vocês, confiram no texto abaixo 😉

Uruguay e su extraña neurosis futebolística

O Uruguai está às vesperas de jogar seu terceiro mundial consecutivo e nós psicólogos estamos preocupados. É uma conversa que temos a cada quatro anos: quando a seleção começa a ir bem, os pacientes se sentem melhor, conectam cabos soltos de seu desejo, são alcançados por pequenas epifanias ou adquirem a coragem para tomar uma decisão a um longo tempo adiada.

Mas, sobretudo, se sentem melhor: melhor com seu país, melhor com seu par, com seu chefe, consigo mesmos. À sombra dessa nova felicidade, nós psicólogos começamos a parecer desnecessários.

Duas empresas de eletrodomésticos de Montevidéu enfrentam uma situação similar. Campanhas publicitárias de ambas anunciam que em cada compra de uma televisão de plasma, se a seleção chega à semifinal, será reintegrado ao cliente a metade do dinheiro. Mas a expectativa é tanta que uma delas (Barraca Europa) estendeu a promoção para todos os produtos que tem a venda, enquanto a outra (Multi Ahorro Hogar) dobrou a aposta e promete cem porcento de reembolso se o Uruguai sai campeão. As vendas não param de crescer.

Pouca, pouquíssima gente acredita que podemos sair campeões. No entanto, quando se trata da seleção, a pessoa aposta por ela como quem joga na Mega Sena: não movido pela certeza ou pela esperança de que vai ganhar, mas pelo medo de descobrir que saíram os números que ela se esqueceu de jogar nessa semana.

Ainda se deixamos de lado a loteria do campeonato, algo mudou nesta última edição. Pela primeira vez, há adolescentes que praticamente não se lembram de ter tentado preencher um álbum Panini sem figuras da Celeste. Com sangue, suor e lágrimas, mas classificados ao fim.

hinchas Uruguai
Imagem: Reprodução Internet

Para os nascidos nos anos 80, a história — ainda a atual — joga com a lembrança traumática dos anos 90, o canibalismo institucional da Associação Uruguaia de Futebol daqueles anos, com problemas contrastantes, dispensas de técnicos, insubordinação de jogadores e campanhas falhas. O gosto amargo de ver um Mundial tendo que torcer por outras equipes.

Há coisas mais estranhas.  Nos descobrimos, pela primeira vez em muitíssimo tempo, classificados com folga, sem termos que sentar naquele incômodo lugar chamado repescagem. Uruguai: praticamente classificado na penúltima data, segundo na tabela de posições durante quase todas as eliminatórias, quase invicto em seu próprio Estádio Centenário, salvo o penoso 4 a 1 contra o Brasil.

É difícil separar as neuroses individuais de uma uruguaice mais ampla  e colectiva, mas uma vez e outra, falando entre a gente —  os torcedores —  acostumava escapar algo: Durante as Eliminatórias estivemos esperando uma catástrofe que nunca chegou.

O começo das Eliminatórias não podia ser melhor: um histórico 2 a 0 frente a Bolívia na altura de La Paz, acompanhado de uma sucessão de surpreendentes goleadas no Centenário. Tudo isso sem Suárez (que cumpria sua longuíssima suspensão após a mordida em Giorgio Chiellini no Mundial passado. O Campeonato seguiu rodada a rodada, o Uruguai se alternava entre o primeiro e segundo lugar. Havia algo suspeito ali. Houve certos momentos de incerteza, como quando a Celeste perdeu três partidas em sequência, mas foi tão grande a colheita na primeira fase, que as reservas davam para três invernos nucleares.

De isso se trata, em definitivo, a neurose: um estranho culto individual que leva a estar o tempo todo encontrando sinais de uma possível desgraça. Porque, em que momento se gesta o gol contrário? O certo é que estas desgraças estão prescritas em jogadas muito mais insignificantes: uma bola mal passada, uma falta erroneamente cobrada na metade do gramado, uma série de segundas bolas perdidas. Inevitavelmente ficamos traçando no ar uma fórmula sinistra.

Agora o que acontece quando esse mesmo medo forma parte do sentir e do estilo de jogo de um país inteiro? Talvez seja uma benção e uma maldição nascida do Maracanaço: O Uruguai se sente mais cômodo sendo aquele país de quem não se espera nada, um boxeador que se encontra preso entre as cordas e os punhos do adversário. Se esta situação não chega, a Seleção dá um jeito de colocar-se em apertos e buscar como um estranho sistema de auto-regulação, a impossibilidade de vencer (e assim se levantar).

Prova de sobra foi o que aconteceu na última Copa: em um grupo dificílimo, formado por Costa Rica, Inglaterra e Itália, o Uruguai estreia com uma derrota de 3 a 1 com a Costa Rica, aparentemente —  o rival mais simples, para logo depois se ver obrigado a ganhar de 2 a 1 da Inglaterra e depois vencer a Itália por 2 a 0.

As confusões em que se mete a seleção são o mesmo combustível que a mantêm funcionando. Uma espécie de vício épico, citado e reinventado a cada passo, ainda quando não parece haver obstáculos à vista.

Por isso, a Celeste sempre leva sua autodestruição atada ao pé, fazendo de seus malabarismos um autêntico estilo. Em tempos regidos pelo paradigma do estilo de jogo espanhol, no qual a posse de  bola é tudo, a Celeste foi uma das pouquíssimas equipes medianamente exitosas que seguiu necessitando desprender-se da pelota,  deixando a outra equipe marcar o ritmo do jogo.

Na arena do trágico, o Uruguai sempre soube rebelar-se frente  a seu destino, mas nunca soube — nunca quis —  escrever-lo. A lista de rivais na primeira fase do Mundial, pela primeira vez, em muito tempo, parece acessível: uma Rússia organizada, mas bastante dizimada em seus partidos de preparação: uma Arábia Saudita volátil, um Egito que volta, depois de muitíssimos anos, liderado por Mohamed Salah.

Há uma frase poderosa no filme “Do crepúsculo ao amanhecer: Eres tão perdedor que nem sequer se das conta quando já tens ganhado”. 

O Uruguai, essa ilha melancólica e ateia em um mar de países cristãos, um dos poucos países com uma maior quantidade de psicólogos por cabeça, mas por outro lado historicamente associado aos primeiros postos de suicídios da região, protagonista de proezas futebolísticas como poucos, enfrenta a possibilidade de poder ganhar sem seu vício épico. De ganhar de forma natural, sem apertar os dentes, ou televisores como prêmio. Será questão de ver o quão prisioneiros somos de nossos próprios mitos,  e de como aprender a traçar nosso destino sem os pés dos outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

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