Países latino-americanos usam dinheiro apreendido do narcotráfico e da corrupção para combater covid-19

Com o mundo todo lutando para conter a disseminação do coronavírus, muitos países enfrentam com dificuldade o desafio de comprar o equipamento sanitário e hospitalar necessário para conter a pandemia.

Dois países latino-americanos, no entanto, adotaram uma maneira original de obter parte dos recursos extras. Argentina e Colômbia usam ativos apreendidos do narcotráfico e oriundos de outras atividades criminosas para fortalecer seus sistemas de saúde diante do avanço do vírus.

De carros a imóveis que pertenciam a criminosos suspeitos, esses bens são usados ​​para transportar ou abrigar pacientes com coronavírus ou isolar pessoas em risco devido à pandemia.

Isso é possível graças a uma figura jurídica chamada “extinção de domínio”, que se aplica a ativos supostamente adquiridos ilegalmente.

Basicamente, permite que os pertences ilícitos de pessoas acusadas de crimes como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, tráfico humano, terrorismo ou corrupção sejam colocados à disposição do Estado.

Como funciona

As pessoas investigadas por esses crimes geralmente enfrentam processos criminais, e suas propriedades, em países que não possuem um regime de extinção de domínio, só podem ser confiscadas se a pessoa for condenada (algo que pode levar anos). Com o mecanismo de extinção de domínio, o procedimento é muito mais rápido.

A justiça pode apreender fortunas de origem suspeita mesmo antes de processar criminalmente o acusado.

Nesses países, quando um juiz criminal decreta medidas cautelares sobre bens suspeitos de origem criminosa, esses bens imediatamente vão para a jurisdição civil, onde é decidido o possível confisco. Ou seja, mesmo antes de um suspeito ser processado e condenado pela Justiça, tudo o que se presume ter sido adquirido por meio de atividades ilegais passa para as mãos da Justiça civil.

Com a aplicação da extinção de domínio sobre esses bens, o suspeito perde seus direitos de propriedade sobre eles. Aí esses ativos passam para as mãos do Estado e são administrados por entidades criadas especialmente para esse fim.

Na Colômbia, onde a extinção de domínio foi aprovada por lei em 2014, esse órgão é a Sociedad de Activos Especiales (SAE). Na Argentina, que aprovou o regime no início de 2019 por meio de um decreto do então presidente Mauricio Macri é a Agência de Administração de Ativos do Estado (AABE).

Contra a covid-19

Esses dois países não são os únicos na região que adotam sistemas desse tipo. Peru, México, El Salvador, Honduras, Guatemala e Bolívia também têm figuras legais semelhantes em sua legislação, assim como vários outros países do mundo.

No entanto, Argentina e Colômbia são os dois primeiros que atribuíram a esse recurso um uso específico na luta contra o coronavírus.

No Brasil, o pacote das dez medidas contra a corrupção previa, originalmente, a criação da chamada ação de extinção de domínio, para permitir “dar perdimento a bens sem origem lícita, independentemente da responsabilização do autor dos fatos ilícitos, que pode não ser punido por não ser descoberto, por falecer ou em decorrência de prescrição”.

A Câmara chegou a tirar este ponto durante a votação, mas ele foi resgatado pelos senadores. O projeto, no entanto, ainda não foi votado novamente pela Câmara.

Na Argentina e na Colômbia, até agora, os bens apreendidos relativos a atividades ilegais foram usados ​​ou leiloados para financiar organizações que combatem o crime organizado ou para ajudar pessoas com menos recursos.

Com a pandemia, no entanto, esses bens passaram a ser usados como parte da estratégia para conter o avanço do vírus. O primeiro exemplo disso ocorreu no norte da Argentina, em 21 de março, três semanas após o país registrar seu primeiro caso de coronavírus e um dia após a decretação da quarentena obrigatória nacional.

A AABE cedeu ao governo da província de Salta, um popular destino turístico, dois hotéis para acomodar viajantes estrangeiros procedentes de áreas de risco.

Os hotéis foram duas das dezenas de propriedades que pertenciam ao clã Loza, organização de narcotráfico internacional que foi destruída em 2018 e cujos ativos foram os primeiros recuperados pelo regime de extinção do domínio argentino.

Edifícios, carros e dinheiro

Alguns dias depois, a AABE aceitou um pedido de Pilar, um município do norte da província de Buenos Aires, para dispor de um “megaempreendimento” supostamente financiado por um cartel de drogas colombiano.

Trata-se de um imenso projeto imobiliário chamado Pilar Bicentenário, que segundo a Justiça Argentina, fazia parte de uma operação de lavagem de dinheiro do cartel liderado por José Bayron Piedrahita Ceballos, atualmente detido nos Estados Unidos.

Por meio de uma resolução, a AABE aprovou a transformação do prédio em construção em um “centro de diagnóstico covid-19”.

O megaprojeto Pilar Bicentenário, que será usado como um centro de diagnóstico para a covid-19.

A Justiça da Argentina também liberou carros e dinheiro para ajudar no combate à pandemia. Em 4 de abril, um juiz da cidade de Mar del Plata, o mais famoso balneário de Buenos Aires, aceitou o pedido do prefeito local e ordenou que 26 veículos apreendidos de uma suposta quadrilha de traficantes de drogas fossem usados ​​para prestar serviços no âmbito da resposta ao coronavírus.

Os carros serão usados ​​para transportar pacientes e outras tarefas de segurança durante a quarentena obrigatória.

Dinheiro da corrupção

Fortunas apreendidas em dois dos casos de corrupção de maior destaque nos últimos anos também tiveram esse fim.

O tribunal que julgou o ex-secretário de Obras Públicas do governo Kirchner, José López, condenado por enriquecimento ilícito depois de ter sido filmado escondendo sacos com milhões de dólares em um convento, determinou que US$ 2 milhões (R$ 10,6 milhões) desse dinheiro sejam doados ao hospital pediátrico Garrahan, em Buenos Aires.

Esse verba, além de outros US$ 12 mil (R$ 63 mil), serão destinados à compra de respiradores, máscaras e óculos de proteção.

Enquanto isso, o tribunal que julga o empresário Lázaro Báez, acusado de lavar dinheiro para o governo Kirchner, entregou ao Exército “como um depósito judicial” bens que incluem 17 contêineres vazios, 300 equipamentos de proteção e 21 macas.

Colômbia

A Sociedade Colombiana de Ativos Especiais (SAE) também permitiu que alguns bens apreendidos fossem utilizados provisoriamente para ajudar a combater o coronavírus.

“Para apoiar o governo e entidades territoriais no tratamento dessa contingência, a SAE ajustou os procedimentos internos”, explicou Virginia Torres, presidente da SAE, ao jornal El Tiempo. “Isso garante que os ativos gerenciados possam ser usados ​​e adequados como instalações para tratamento, isolamento e atendimento, sem atender a outros requisitos comuns”.

Propriedades apreendidas pela SAE que podem ser usadas como abrigos para mulheres que correm risco de sofrer violência doméstica.

Entre as propriedades que a entidade ofereceu estão o Hotel Benjamin, na cidade de Santa Marta, no norte do país, que pertencia ao israelense Assi Mosh, expulso da Colômbia em 2017 por supostos vínculos com redes de prostituição. E um ex-prostíbulo conhecido como “El Castillo”, no centro de Bogotá, oferecido ao Instituto Nacional Penitenciário e Prisional (Inpec) para abrigar prisioneiros infectados com a covid-19, para que estes não infectem o resto da população carcerária.

A SAE também disponibilizou às autoridades regionais 65 prédios a serem utilizados durante a pandemia como abrigos para mulheres que correm o risco de sofrer violência doméstica durante o isolamento obrigatório .

Fonte: BBC Brasil

Qual a fórmula da Costa Rica para ter o menor número de mortes pelo coronavírus na América Latina?

Depois de enfrentar uma noite com febre, fortes dores de cabeça e nos ombros, Henry* não hesitou em ir ao centro de saúde na manhã seguinte em San José, Costa Rica.

Foi em 9 de março, três dias após o primeiro caso do novo coronavírus Sars-CoV-2 ter sido detectado no país, que até maio registrava pouco mais de 700 infecções e apenas 6 mortes.

No centro de saúde pública, ele e sua mãe, que também apresentava sintomas, foram submetidos a alguns testes básicos e enviados de volta para casa.

“Eles me disseram que eu tinha uma infecção na garganta”, ele conta à BBC News Mundo, o serviço espanhol da BBC, por telefone.

O venezuelano de 50 anos, residente na Costa Rica, suspeitava ter pego a covid-19 em seu escritório, pois outro funcionário teve resultado positivo alguns dias antes, depois de voltar de uma viagem à Europa.

Em 17 de março, Henry voltou ao centro de saúde para novos exames. Quatro dias depois, recebeu um e-mail: ele e sua mãe deram positivo para covid-19.

Apesar de ter outras doenças, e de sua mãe pertencer a um grupo de risco por ter 70 anos, seu tratamento teve que ser realizado em casa. Sua esposa e filha também foram infectadas.

Henry garante que eles nunca se sentiram abandonados com sua doença, pelo contrário.

“De 21 de março e até finalizar o tratamento os médicos vieram aqui pelo menos um dia sim e um dia não para acompanhar de perto a progressão da doença”, explica Henry.

Eles foram visitados por profissionais de saúde das Equipes Básicas de Assistência Integral à Saúde (Ebais), e o médico ficou em contato com a família por meio de mensagens do WhatsApp.

As Ebais têm sido a primeira linha de resposta à pandemia na Costa Rica e é um dos fatores que permitiram ao país ter a menor taxa de mortalidade por covid-19 na América Latina, dizem especialistas.

Profissionais da saúde vão até as casas dos pacientes para acompanhar tratamento.

“Nossa melhor vacina contra a covid-19 é ter uma população disciplinada e educada e um sistema de saúde bastante consolidado”, disse à BBC Mundo o Dr. Luis Villalobos, especialista em saúde pública da Costa Rica.

“Não investimos no Exército (o país não tem Exército), mas gastamos muito em saúde, previdência e educação, e isso tem sido muito importante”, acrescenta o também ex-reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Costa Rica.

Um sistema de saúde sólido

Villalobos explica que o sistema de saúde do país já foi muito fragmentado, mas as reformas nos anos 90 e 2000 criaram um esquema sólido que lhe permitiu responder a essa pandemia.

As Ebais têm mais de mil centros de saúde espalhadas pelo país, com médicos, enfermeiros, assistentes técnicos e farmacêuticos. A ênfase foi na fase de detecção, crucial para conter infecções.

Como no caso de Henry, quando uma possível infecção é identificada, o monitoramento ativo dos sintomas é mantido até a confirmação. Ele só é hospitalizado se há um agravamento.

O órgão que cuida da saúde e do bem-estar dos costa-riquenhos, a Caixa Costa-Riquenha de Seguro Social, possui uma dúzia de hospitais nas sete províncias do país, disse o Ministério da Saúde do país à BBC News Mundo.

Os momentos mais complicados nos últimos meses ocorreram entre 19 de março e 3 de abril, quando foram confirmadas 325 novas infecções. O pior dia foi 24 de março, com 60 casos.

A Costa Rica é um dos países com a menor taxa de letalidade por coronavírus na América Latina e no mundo. A taxa de letalidade, que indica o número de mortos entre pacientes infectados, é de 0,86%, segundo cálculos da BBC News Mundo com dados da Johns Hopkins University, localizada nos EUA. No Brasil, a média nacional é de 6,8%, segundo o Ministério da Saúde.

Tudo isso se deve em grande parte ao fato de a Costa Rica ser um dos poucos países das Américas (junto com EUA, Canadá, Cuba e Uruguai) que investe mais de 6% do Produto Interno Bruto em saúde.

Ter sistemas de saúde “menos fragmentados, abrangentes, organizados, que manejam bem as informações das pessoas sob seus cuidados”, como na Costa Rica, é o que outros países devem procurar, aconselha Villalobos.

De que outra forma o país foi protegido?

Quando a contagem de casos na Costa Rica atingiu sua primeira dezena, o governo tomou decisões semelhantes a outros países.

Aglomerações, escolas, turismo e atividades sociais foram suspensas e a fronteira foi fechada.

Além disso, foram lançadas campanhas para promover o trabalho em casa, lavagem das mãos e distanciamento social.

Especialistas e autoridades destacam que os costarriquenhos seguiram as instruções notavelmente, diferentemente de outros países.

Um relatório do Google baseado na localização de telefones celulares mostrou que as visitas a lojas e espaços públicos foram reduzidas em 84% e a praias ou centros de recreação, 82%.

“Muitos reagiram. Eles entenderam o momento histórico que estamos vivendo, é um momento muito delicado”, disse o ministro da Saúde, Daniel Salas, na semana passada.

A prática de distanciamento social vem sendo cumprida pela população.

Villalobos concorda com isso, e acrescenta que a transmissão de informações por telefones celulares e o acesso universal à água potável fazem parte da fórmula de sucesso do país no combate ao coronavírus.

“O fato de praticamente 100% da população ter água em casa nos permite tornar a comunicação de lavagem das mãos muito eficaz entre a população”, ressalta.

Pisando em ovos

A Costa Rica tem uma população de 5 milhões, dois terços vivendo na região metropolitana de San José, a capital do país.

Isso permitiu que as autoridades concentrassem recursos nas fontes mais importantes de infecção.

A Costa Rica, no entanto, não está isenta de riscos.

A proporção de testes, de 250 por 100 mil habitantes, está na média da de outros países latino-americanos; políticos da oposição disseram que é pouco.

Além disso, o movimento constante dos nicaraguenses — 8% da população da Costa Rica — levantou questões sobre como controlar o fluxo de pessoas do país vizinho, que não tomou medidas preventivas e registra a mais alta taxa de letalidade por coronavírus da América Latina.

O ministro Salas é cauteloso em relação ao futuro próximo, pois alerta os costa-riquenhos de que o retorno à normalidade não pode ser acelerado, nem ocorrerá no médio prazo.

“A maioria da população, devido ao pouco tempo de presença do vírus em nosso país, não foi exposta, não foi infectada pelo vírus. Podemos ter um aumento de casos, cadeias de transmissão, em pouco tempo”, diz ele.

O país está andando sobre “cascas de ovos muito frágeis”, alerta.

Fonte: BBC Brasil

Pequena cidade na Argentina é totalmente isolada após churrasco “fatal”

Em 19 de março, o presidente argentino, Alberto Fernández, anunciou em sua residência oficial em Buenos Aires que no final do dia a Argentina se tornaria um dos primeiros países da região a entrar em quarentena obrigatória.

No entanto, a centenas de quilômetros de distância, em uma pequena cidade da Patagônia, um grupo de vizinhos decidiu que o decreto presidencial não iria atrapalhar seus planos de desfrutar de um churrasco de domingo.

Não era apenas um churrasco: era também uma festa de aniversário; então, depois de comer, o grupo de familiares e amigos seguiu comemorando.

Comeram churrasco e compartilharam cerveja e vinho da mesma garrafa”, disse o prefeito da Loncopué, no oeste da Argentina, onde o evento foi realizado.

A violação das regras acabou provando-se mortal. Alguns dias depois, o aniversariante, um homem de 64 anos, morreu. As autoridades de saúde confirmaram seu diagnóstico positivo por covid-19.

Outro homem de 68 anos, que nem participou das celebrações, morreu após ter sido infectado por um dos filhos do aniversariante.

E pelo menos 29 moradores de Loncopué testaram positivo para o vírus, um deles uma mulher de 61 anos que teve que ser hospitalizada em um hospital próximo.

O tamanho do surto levou as autoridades regionais a declarar o isolamento total desta cidade de cerca de 6.000 habitantes, bloqueando as vias de acesso. Todas as lojas também foram fechadas.

O promotor que ordenou o isolamento disse que tomou a decisão “para a proteção da saúde pública de todos os cidadãos da cidade, locais próximos e da província em geral”.

O presidente Alberto Fernández foi um dos primeiros líderes nacionais a decretar o isolamento social na América Latina.

Lição

Por sua parte, o prefeito de Loncopué, Walter Fonseca, alertou que “às vezes, quando a quarentena não é realizada adequadamente, essas coisas acontecem”.

“Tem que ser uma lição para pessoas de outros locais entenderem que isso (isolamento social) não é uma piada”, disse ele ao canal de notícias A24.

“Quarentena significa quarentena: você tem que ficar em casa, não pode receber visitas nem nada do tipo.”

“Lamentamos profundamente o que aconteceu conosco, a perda de nossos vizinhos”, disse ele.

Paciente zero

Os pesquisadores ainda não foram capazes de determinar quem foi o “paciente zero” que levou o coronavírus para Loncopué.

Provavelmente, acreditam eles, um vizinho contraiu o vírus durante uma visita a uma cidade vizinha, onde outras infecções foram registradas.

Eles estão convencidos de que o fatídico churrasco teria sido uma das principais fontes de propagação. Vários dos participantes estão entre os casos que deram positivo para a covid-19.

Mas os primeiros que morreram como resultado desse contágio nem participaram da celebração.

O filho da vítima, Claudio, disse que seu pai provavelmente contraiu o vírus de um vizinho, um jovem gasista, que o ajudou a limpar seu aquecedor.

O jovem era um dos filhos do aniversariante, o homem de 64 anos que acabaria morrendo um dia depois do pai de Claudio.

A partir desses dados, as autoridades concluíram que o provável foco inicial de contágio havia sido o churrasco em 22 de março.

Eles imediatamente rastrearam e isolaram os outros participantes daquele evento, vários dos quais foram diagnosticados positivo para a covid-19 (embora muitos sem sintomas).

Falta de consciência

Apesar do drama que está gerando, o coronavírus não conseguiu dividir esta cidade, principalmente dedicada à pecuária, mineração e comércio.

Um símbolo disso foram as palavras de Cláudio, que apesar de ter perdido o pai, garantiu que não guarda rancor contra as pessoas que participaram do churrasco.

“O que aconteceu foi resultado da falta de consciência, mas não havia intenção maliciosa”, disse ele ao canal de notícias da TN.

Ele também enfatizou que seu pai, que estava em uma cadeira de rodas, tinha um relacionamento “muito agradável” com seu vizinho gasista e que ele e sua família eram muito gratos ao jovem por todas as vezes que ele o ajudara.

As duas famílias até falaram ao telefone e lhe ofereceram suas condolências pelas perdas.

Autoridades fecharam os acessos a Loncopué para tentar conter a disseminação do vírus.

Muito longe

O Ministério Público informou que abriu uma investigação para determinar as responsabilidades criminais dos moradores que participaram do churrasco.

No entanto, a imprensa local garante que eles não foram os únicos que violaram a quarentena obrigatória em Loncopué.

Nas últimas semanas também houve outros eventos, como churrascos e casamentos, dizem eles.

Daniel, outro filho do aniversariante que morreu, admitiu no jornal “La Nación” que uma certa “mentalidade de cidade pequena” estava jogando contra eles.

“Foi algo que havia acontecido muito longe dali”, disse ele. “Pensamos que (o vírus) nunca chegaria aqui.”

“Agora o temos entre nós, na cidade”, lamentou…

Fonte: BBC Brasil

Buenos Aires adota operação de choque para evitar propagação do coronavírus em favelas

Uma tropa de cerca de 300 pessoas, vestidas com macacões, máscaras e óculos de acrílicos, entra nas ruas de terra para conter o novo coronavírus nas casas simples do bairro José Luis Cabezas, na província de Buenos Aires. O lugar é cercado por policiais. Os soldados, com apoio de sanitaristas e voluntários, controlam as entradas e saídas do local. Cada morador abre os braços em cruz e é borrifado para que seja eliminado o vírus das suas roupas. Dentro do bairro, eles têm as mãos higienizadas, por algum integrante da tropa, com um spray de álcool em gel.

Cinquenta casas, muitas de chapa, com cerca de 250 moradores, próximas à linha férrea, foram bloqueadas. Os moradores devem ficar isolados durante, pelo menos, 15 dias. Aqueles com qualquer um dos sintomas da covid-19, que pelos tamanhos de suas casas não possam realizar o isolamento, são levados para um hotel, universidade ou hospital de campanha preparados para recebê-los. Aqueles que testam positivo para a doença causada pelo novo coronavírus são encaminhados para tratamento hospitalar, contaram à BBC News Brasil assessores da Secretaria de Saúde da província de Buenos Aires.

“Os moradores que estão isolados recebem alimentos, atenção psicológica, e contam com apoio para o que precisem”, disseram. A bateria de iniciativas, anunciou o governador da província, Axel Kicillof, inclui assistência social para que sejam evitados registros de violência de gênero durante o confinamento.

Os demais moradores, do bairro de cerca de 1.200 habitantes, são parados nos controles policiais e sanitários cada vez que precisam entrar e sair do local. A localidade de José Luis Cabezas, a cerca de uma hora do centro de Buenos Aires, é a segunda da província de Buenos Aires, que é a maior da Argentina, a ser alvo da operação de choque contra o coronavírus.

Vila blindada

No dia 24 de maio, outra tropa de médicos, infectologistas e voluntários, vestidos de macacões e tocas brancas e óculos de acrílicos, isolou a Villa Azul, na mesma província. O lugar com cerca de 5.000 habitantes também foi cercado por policiais. La Villa (na Argentina, sinônimo de comunidade carente, de favela) foi blindada depois que o mapa de coronavírus mostrou a curva ascendente de casos e que “sete de cada dez pessoas testadas tinham tido resultado positivo para a doença”, de acordo com informação oficial.

Como o bairro José Luis Cabezas, que está próximo de grandes conglomerados habitacionais, como Villa Catella, com 15 mil habitantes, a Villa Azul está a poucos metros de uma Villa muito maior, chamada de Villa Itatí, que também tem pelo menos 15 mil habitantes, segundo os últimos dados oficiais disponíveis. Foi temendo que o vírus alcançasse os lugares com maior densidade demográfica que os governos locais decidiram cercá-los com o que foi batizado de “cordão sanitário”.

Assim que Villa Azul, com casas de alvenaria grudadas umas nas outras e ruelas sem asfalto, com áreas com esgoto a céu aberto, foi bloqueada, alguns moradores disseram à imprensa local que se sentiam eles mesmos bloqueados, já que não podem sair à rua do próprio bairro. Entre os moradores, como ocorre em outras villas de Buenos Aires, muitos são, além de argentinos, imigrantes paraguaios, peruanos, bolivianos e chilenos que chegaram ao país ao longo das últimas décadas.

Doze dias depois do início da operação, uma moradora disse ao canal de televisão Telefe, de Buenos Aires, que estava preocupada. “Muitos de nós aqui temos trabalhos (considerados essenciais e autorizados a serem realizados pessoalmente). E agora estamos com medo de perder o trabalho. São muitos dias isolados”, disse a moradora que se identificou como Valeria. Para o governo, são reclamações isoladas, já que a maioria entendeu a importância da estratégia de evitar mortes pela doença no local. “Eu apoio o isolamento porque se o vírus se expandir aqui, aí sim será pior”, disse a moradora Gloria Teresa Guevara à imprensa local. O Coronavírus já fez vítimas fatais na comunidade: Dois moradores de Villa Azul, que já tinham problemas de saúde, faleceram no hospital, acometidos pela Covid-19.

A estratégia de apartar uma comunidade inteira é a mesma aplicada nos asilos com casos de coronavírus, disseram assessores do vice-ministro da Saúde, o médico e sanitarista Nicolas Kreplak, que esteve na operação inicial de choque contra o vírus no local. “Temos que reduzir a circulação do vírus, não podemos relaxar”, disse Kreplak. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, usou uma metáfora para justificar a medida. “É como apagar um foco de incêndio. Um foco que temos que evitar que se esparrame”, disse.

Depredador

O infectologista Pedro Cahn, que integra o comitê de especialistas que assessoram o presidente Alberto Fernández, reconheceu que existe um “conflito de direitos”, quando um lugar é isolado, mas que existe algo “muito maior” em jogo neste momento. A decisão do isolamento da Villa Azul foi tomada em consonância entre prefeitos, o governador da província de Buenos Aires e Fernández.

“Esse direito (de ir e vir) poderá ser recuperado em 15 ou 20 dias, quando a situação ali estiver controlada. Mas enquanto isso, estaremos fazendo algo muito maior, que é salvar vidas”, disse Cahn à emissora de televisão TN, de Buenos Aires.

Profissionais de saúde visitam residências em comunidades carentes para prevenir e diagnosticar casos de coronavírus na Argentina

Para os infectologistas que assessoram Fernández, o vírus está sendo “depredador” entre os excluídos nas Américas, como afirmou Luis Camera, que também faz parte do comitê especial de combate ao coronavírus. “O vírus foi um depredador dos afro-americanos, em vários lugares dos Estados Unidos, atingiu brutalmente Guayquil, no Equador, e Manaus, no Brasil. Na Argentina, felizmente, a mortalidade é baixa. Mas já sabemos que ele ataca aos mais pobres na América Latina”, disse Camera. Segundo estudiosos argentinos, no caso específico das comunidades carentes do país, os baixos índices de mortes estariam ligados a idade dos seus habitantes, onde muitos são jovens. Para Camera, o isolamento é uma das poucas ferramentas disponíveis contra a virulência do coronavírus.

Mas a iniciativa de blindagem gerou críticas de setores opositores. “É uma medida que estigmatiza”, disse o ex-ministro da Saúde do governo Macri, Adolfo Rubinstein. Setores ligados ao ex-governo de Mauricio Macri, anterior e opositor do atual de Fernández, como o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, têm atuado, porém, em sintonia com as medidas do governo central e da província de Buenos Aires, da mesma linha política do atual presidente argentino.

Um dos líderes do movimento político e social Barrios de Pie, que trabalha no Ministério do Desenvolvimento Social, Daniel Menéndez, disse que a Villa Azul tinha virado “um gueto”. Em meio às críticas, o governador Kicillof disse que nenhum lugar estava livre de ser blindado. “Essa medida não é exclusiva dos bairros populares. Elas também podem incluir condomínios ou edifícios. O principal é colocar um freio no vírus”, disse.

Condições difíceis

A província de Buenos Aires tem cerca de 1,7 mil comunidades carentes reunidas, principalmente, no que é definido como “conurbano bonaerense”, que reúne a periferia urbana da cidade de Buenos Aires e parte do território provincial. Nos mapas epidemiológicos, elas representam menos de 20% do total de casos de coronavírus, mas viraram o foco das medidas dos governos pelas condições difíceis em que muitos vivem, sendo impossível o cumprimento do distanciamento social ou até da higienização necessária por falta de água corrente e potável.

Com cerca de 16 milhões de habitantes, a província, que também reúne condomínios de classes média e alta, além de fábricas e produção agrícola, representa em torno de um terço da população de 44 milhões de habitantes do país.

Fonte: BBC Brasil

Superando o medo do inimigo invisível

O coronavírus atingiu um dos cantores latinos mais queridos em todo o mundo: o uruguaio Jorge Drexler, que vive atualmente em Madrid. Mas, felizmente ele está recuperado e já pode fazer uma das suas atividades preferidas: tocar violão. A esposa do artista também testou positivo para a Covid-19 e se recuperou bem.

Em entrevista ao Jornal o Globo, o músico, de 55 anos, conta que a primeira a ser contaminada foi sua esposa, a atriz e cantora espanhola Leonor Watling.  Ela esteve em uma premiação de cinema de onde muita gente saiu doente. Dias depois, foi ele quem começou a sentir-se mal. Evitou ir ao hospital para não sobrecarregar o sistema de saúde, já que o exame clínico é recomendado apenas para os casos mais graves. Ligou para um médico e, ao narrar o que sentia, teve um diagnóstico positivo para o vírus.

Jorge Drexler e sua esposa contraíram a Covid-19.

O corpo todo dói muito, é uma tosse esquisita. Senti a fragilidade humana no meu corpo. O mais estranho foi perder olfato e paladar. Também senti um peso no peito e tive muito medo, um medo que eu não experimentava há muito tempo. Mas essa não deve ser nossa força motriz. O medo é um mau conselheiro, porque parte da população que deveria se cuidar em casa satura as emergências públicas — alerta o compositor, que também é médico (especializado em otorrinolaringologia) e trabalhou durante cinco anos em emergências hospitalares.

A experiência rendeu muitas amizades na área. E é por meio de um chat com esses amigos médicos que ele recebe, diariamente, notícias do front do combate ao coronavírus no Uruguai. No entanto, desde que se curou da doença, tem se dedicado mesmo aos assuntos escolares dos filhos pequenos, de 8 e 11 anos.

Mudança radical na rotina

A proximidade entre pais e filhos é um efeito positivo desse momento. Tem sido lindo. Mas é cansativo. Tem o homeschooling, e sou um pouco impaciente. É um aprendizado — conta ele, enquanto a filha aparece na tela para dar um oi. — É um momento de celebração da vida familiar e me sinto feliz estando em casa. O que é surpreendente porque sou muito social. Normalmente, quase toda noite, estou em botecos ou cozinhando para amigos.

Em seu Instagram o cantor alertou a seus seguidores, especialmente aos da América Latina,  sobre a importância da conscientização de todos nesse momento tão delicado: “Queridos amigos, vocês tem uma oportunidade única de não cometer os mesmos erros que cometemos na Espanha e na Itália. Deem um exemplo ao mundo: Fiquem em casa. Evitemos o pico de contágio massivo. É a única forma de não saturar os sistemas de saúde e permitir que os casos graves se salvem” – escreveu em postagem na rede social.

Antes de adoecer, Jorge havia composto a canção Codo a Codo (Cotovelo com Cotovelo)  que deixa uma mensagem de alento para que possamos superar essa fase tão difícil:  “Já voltarão os abraços os beijos, dados com calma. Caso encontre um amigo, cumprimente-o com a alma.  Sorria, mande um beijo. Desde longe, seja próximo, não se toca o coração somente com a mão”, diz um trecho da canção…

Fonte: Jornal O Globo e Portal Uol

Quédate en casa

Nesses tempos de pandemia a união faz a força para vencer a ameaça letal do coronavírus. Os profissionais de saúde, e todas as profissões dos chamados serviços essenciais, estão trabalhando como verdadeiros heróis tentando impedir que o caos se implemente em um momento tão difícil.

 Quem não se enquadra nesse grupo de trabalhadores indispensáveis está contribuindo de uma outra forma também muito importante: ficando em casa na maior parte do tempo possível. Parece pouco, mas essa atitude pode fazer toda diferença. Países que reduziram ao máximo a circulação de pessoas conseguiram manter o nível de contágio do novo coronavírus bem mais baixo do que outros que resistiram em fazer quarentena a princípio.

Pensando em conscientizar as pessoas pra esse fato, o cantor e compositor Ariel de Cuba lançou a música “Quédate en casa”, (Fique em casa) que rapidamente se tornou um hit entre os confinados em toda América Latina, Espanha e em várias outras  partes do mundo.

Ariel conta que todo o processo de criação ocorreu de maneira bem natural: “Fiz esta canção no primeiro dia de quarentena, as coisas do coração movem massas. No mesmo dia compus, cantei, produzi, masterizei  e fiz o vídeo para ajudar a campanha #Quedateencasa.”

“Foi a maneira que eu encontrei para levar às pessoas uma mensagem positiva e útil. Não importa qual seja sua ideologia, raça ou religião é o momento de todos nos unirmos” – ressalta o artista.

 Além da letra, que tem uma mensagem pra lá de importante, o ritmo da música também é excelente para dançar. Ótima opção pra se exercitar em casa nessa quarentena. 👇

*Fonte Youtube

Economia da América Latina é uma das mais afetadas pela epidemia do coronavírus

Toda cautela é pouca na hora de tentar antecipar o inegável impacto econômico do coronavírus: grande parte do que está ocorrendo hoje só será plenamente visível e quantificável no decorrer das semanas ou meses. Os sinais, entretanto, chegam em peso e falam por si só: há algo de grave acontecendo no sempre frágil jogo de equilíbrio em que se move a economia.

A Bolsa de Nova York perdeu quase um quinto do seu valor em menos de um mês; a migração da renda variável para a renda fixa – a prova mais evidente do temor que paira sobre o mercado – é evidente; o consumo global de petróleo afunda a um ritmo inclusive maior que na Grande Recessão; a saída de capitais dos emergentes se multiplica; e cada vez mais organismos internacionais reconhecem que ainda não dispõem dos elementos de julgamento suficientes para se aventurarem com uma cifra concreta de impacto.

Pouco a pouco, as certezas do impacto econômico começam a emergir. Entre elas, que ser uma das regiões do mundo com menos casos de contágios não a exime de sofrer o dano financeiro associado a qualquer epidemia: a América Latina não tem de forma alguma garantida a sua imunidade, e foi pega no contrapé, mergulhada num já longo período de baixo crescimento e com pouca margem de ação para reverter a esperada redução da demanda.

As consequências já começaram a ser sentidas em várias frentes: sacudida nas Bolsas, acompanhando os grandes mercados mundiais; moedas indo à lona; redução nas previsões nas previsões de crescimento e uma clara mudança de padrão nas exportações de matérias primas. “A região está perante sua possível segunda década perdida… das últimas três. O coronavírus chega num péssimo momento, de baixo crescimento”, observa Lourdes Casanova, diretora do Instituto de Mercados Emergentes, ligado à Universidade Cornell (EUA).

No aspecto sanitário, a epidemia chegou à América Latina através do Brasil, com um homem que voltou infectado de uma viagem à Itália. Desde então, o vírus avançou em ritmo mais lento que em outras latitudes: o verão austral talvez tenha ajudado, como também a distância geográfica e as poucas conexões aéreas com as zonas mais afetadas.

Primeiro paciente infectado da América Latina chegou ao Brasil depois de uma viagem à Itália.

O número de contágios é oito vezes maior nos EUA e 160 vezes maior na Europa. Mas o dinheiro corre por vias bem distintas: na mente dos economistas, está gravada a fogo a relação direta entre menor atividade global, menor consumo de matérias primas e golpe na linha de flutuação de muitas economias da região. A eterna dependência dos produtos básicos, sem valor agregado, agrava a exposição latino-americana a um choque desta espécie.

As primeiras a sofrerem o golpe foram as divisas regionais, algumas das quais já estavam nos ossos: o real brasileiro e o peso chileno flertavam com seu mínimo histórico bem antes do coronavírus monopolizar tudo. Só o peso mexicano sustentava a cotação.

Mas além dos sempre voláteis mercados financeiros – Bolsas, câmbio, renda fixa –, que já antecipam uma guinada radical no caminho de crescimento global e regional, “há um impacto claro sobre as exportações e, portanto, sobre o crescimento. Ainda não vemos contágio para o setor de serviços, com impacto doméstico, mas o risco está aí, e as autoridades de política econômica deveriam estar observando-o”, afirma Martín Castellano, chefe de análise para a América Latina do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês).

A estreita relação com a China nas últimas décadas se transforma em uma faca de duplo fio na balança comercial de muitos países latino-americanos. Pouco mais de uma década atrás, quando o bloco ocidental sucumbia à crise financeira, esse gancho permitiu à região se isolar das consequências da queda dos EUA e Europa. Hoje, por outro lado, é motivo de alarme: embora a China vá pouco a pouco voltando à normalidade, “a atividade econômica ficou muito reduzida, com um impacto significativo”, observa por email Otaviano Canudo, ex-diretor do FMI para o Hemisfério Ocidental e hoje fellow da Brookings Institution. Segundo os cálculos da OCDE, um ponto a menos de crescimento na China implica uma queda em idêntica proporção no crescimento da região. E a migração da volatilidade para os spreads da dívida pública, como recorda Sebastián Neto, chefe de unidade do organismo para a região, também é muito maior.

Três das grandes economias regionais – Brasil, Chile e Peru – têm no gigante asiático o principal destino de seus produtos, e o fantasma de 2015, quando as matérias primas desabaram e as principais economias latino-americanas se ressentiram, está na memória. Se nos primeiros dias os temores se centravam nos minérios de uso industrial – ferro e cobre, sobretudo –, o que situava as nações andinas como maiores prejudicados, o recente desabamento do petróleo por uma combinação de menor demanda (maior baixa trimestral em décadas, superior inclusive à registrada no auge da Grande Recessão) e descoordenação entre a OPEP e a Rússia, pôs o foco sobre Venezuela, Equador, Colômbia, Brasil e México, grandes produtores regionais. Em questão de dias, o México, segunda maior economia latino-americana – e um dos países menos afetados pela epidemia, por sua escassa exposição à China, onde tudo começou –, passou ao olho do furacão financeiro. Primeiro porque o desmoronamento do petróleo representa um duro baque para sua já abaladíssima petroleira estatal Pemex. Segundo porque, à medida que o vírus se globaliza – ou, melhor dizendo, se ocidentaliza –, suas consequências econômicas também o fazem.

Estamos começando a mudar o enfoque, vendo-o não só como um golpe para a economia chinesa, mas como algo que vai muito além”, aponta, pedindo anonimato, o estrategista para a América Latina de uma importante gestora de recursos. “Nos EUA, por exemplo, vão comprar os mesmos carros nestas circunstâncias? Temos dúvidas, e isso afeta o México e também o Brasil, onde dois terços de suas exportações são matérias primas. São “tempos difíceis” para a região, afirma por telefone. “Estamos vendendo com as duas mãos e esperando que os números se estabilizem para comprar com três mãos.” E quando os investidores apertam o botão de pânico, a história diz claramente que a peça latino-americana do dominó global costuma ser uma das primeiras a cair: sua exposição à volatilidade é inclusive maior que a do resto dos emergentes.

Na sopa de letras que os economistas identificam ao lerem as curvas dos gráficos – ou seja: L, uma queda da atividade sem recuperação à vista; V, rápido desabamento, rápida recuperação; U, descida busca, descenso, recuperação demorada –, Neto aposta na última opção. “Não há dúvidas de que haverá efeito sobre o crescimento. O período de recuperação já não será de um trimestre nem um semestre, e sim mais”. O resultado desse coquetel é um quadro cinza, muito mais sombrio que o desenhado no final de 2019 – que, verdade seja dita, era mais prudente que pessimista. O Goldman Sachs foi o último a revisar seu quadro macro para os principais países da região: Brasil e Equador crescerão 0,7 ponto percentual a menos (1,5% em vez de 2,2% no primeiro caso; e de -0,3% a um lúgubre -1% no segundo); Peru, 0,5 a menos (2,8% em lugar de 3,3%); e Colômbia, 0,4 (3% em vez de 3,4%).

Economia de países emergentes como o Brasil é uma das mais afetadas em momentos de crise mundial – Reprodução Internet.

Ao contexto adverso se soma uma menor margem de manobra para políticas contracíclicas que em crises anteriores. A depreciação generalizada das moedas latino-americanas delimita o campo de ação da política monetária – juros mais baixos contribuem para a retomada da atividade, mas também estimulam a saída de recursos. Esse é, justamente, o maior desafio regional neste ponto, segundo Neto: a “limitadíssima capacidade de aplicar estímulos num momento em que é preciso ter muito cuidado com o potencial impacto sobre a saída de capitais”. No plano fiscal, a margem é igualmente curta, com volumes de dívida pública que, como recorda Castellano, do IIF, duplicaram em grande parte da região desde 2009. Naquela época, estes países puderam fazer frente. “Só os países com espaço fiscal ou monetário e com reservas de divisas estrangeiras poderão responder ao choque”, conclui Canudo. Tempos bicudos, sem poções mágicas.

Texto de Ignacio Fariza – Retirado do caderno de Economia – Jornal El País.

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