Países latino-americanos usam dinheiro apreendido do narcotráfico e da corrupção para combater covid-19

Com o mundo todo lutando para conter a disseminação do coronavírus, muitos países enfrentam com dificuldade o desafio de comprar o equipamento sanitário e hospitalar necessário para conter a pandemia.

Dois países latino-americanos, no entanto, adotaram uma maneira original de obter parte dos recursos extras. Argentina e Colômbia usam ativos apreendidos do narcotráfico e oriundos de outras atividades criminosas para fortalecer seus sistemas de saúde diante do avanço do vírus.

De carros a imóveis que pertenciam a criminosos suspeitos, esses bens são usados ​​para transportar ou abrigar pacientes com coronavírus ou isolar pessoas em risco devido à pandemia.

Isso é possível graças a uma figura jurídica chamada “extinção de domínio”, que se aplica a ativos supostamente adquiridos ilegalmente.

Basicamente, permite que os pertences ilícitos de pessoas acusadas de crimes como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, tráfico humano, terrorismo ou corrupção sejam colocados à disposição do Estado.

Como funciona

As pessoas investigadas por esses crimes geralmente enfrentam processos criminais, e suas propriedades, em países que não possuem um regime de extinção de domínio, só podem ser confiscadas se a pessoa for condenada (algo que pode levar anos). Com o mecanismo de extinção de domínio, o procedimento é muito mais rápido.

A justiça pode apreender fortunas de origem suspeita mesmo antes de processar criminalmente o acusado.

Nesses países, quando um juiz criminal decreta medidas cautelares sobre bens suspeitos de origem criminosa, esses bens imediatamente vão para a jurisdição civil, onde é decidido o possível confisco. Ou seja, mesmo antes de um suspeito ser processado e condenado pela Justiça, tudo o que se presume ter sido adquirido por meio de atividades ilegais passa para as mãos da Justiça civil.

Com a aplicação da extinção de domínio sobre esses bens, o suspeito perde seus direitos de propriedade sobre eles. Aí esses ativos passam para as mãos do Estado e são administrados por entidades criadas especialmente para esse fim.

Na Colômbia, onde a extinção de domínio foi aprovada por lei em 2014, esse órgão é a Sociedad de Activos Especiales (SAE). Na Argentina, que aprovou o regime no início de 2019 por meio de um decreto do então presidente Mauricio Macri é a Agência de Administração de Ativos do Estado (AABE).

Contra a covid-19

Esses dois países não são os únicos na região que adotam sistemas desse tipo. Peru, México, El Salvador, Honduras, Guatemala e Bolívia também têm figuras legais semelhantes em sua legislação, assim como vários outros países do mundo.

No entanto, Argentina e Colômbia são os dois primeiros que atribuíram a esse recurso um uso específico na luta contra o coronavírus.

No Brasil, o pacote das dez medidas contra a corrupção previa, originalmente, a criação da chamada ação de extinção de domínio, para permitir “dar perdimento a bens sem origem lícita, independentemente da responsabilização do autor dos fatos ilícitos, que pode não ser punido por não ser descoberto, por falecer ou em decorrência de prescrição”.

A Câmara chegou a tirar este ponto durante a votação, mas ele foi resgatado pelos senadores. O projeto, no entanto, ainda não foi votado novamente pela Câmara.

Na Argentina e na Colômbia, até agora, os bens apreendidos relativos a atividades ilegais foram usados ​​ou leiloados para financiar organizações que combatem o crime organizado ou para ajudar pessoas com menos recursos.

Com a pandemia, no entanto, esses bens passaram a ser usados como parte da estratégia para conter o avanço do vírus. O primeiro exemplo disso ocorreu no norte da Argentina, em 21 de março, três semanas após o país registrar seu primeiro caso de coronavírus e um dia após a decretação da quarentena obrigatória nacional.

A AABE cedeu ao governo da província de Salta, um popular destino turístico, dois hotéis para acomodar viajantes estrangeiros procedentes de áreas de risco.

Os hotéis foram duas das dezenas de propriedades que pertenciam ao clã Loza, organização de narcotráfico internacional que foi destruída em 2018 e cujos ativos foram os primeiros recuperados pelo regime de extinção do domínio argentino.

Edifícios, carros e dinheiro

Alguns dias depois, a AABE aceitou um pedido de Pilar, um município do norte da província de Buenos Aires, para dispor de um “megaempreendimento” supostamente financiado por um cartel de drogas colombiano.

Trata-se de um imenso projeto imobiliário chamado Pilar Bicentenário, que segundo a Justiça Argentina, fazia parte de uma operação de lavagem de dinheiro do cartel liderado por José Bayron Piedrahita Ceballos, atualmente detido nos Estados Unidos.

Por meio de uma resolução, a AABE aprovou a transformação do prédio em construção em um “centro de diagnóstico covid-19”.

O megaprojeto Pilar Bicentenário, que será usado como um centro de diagnóstico para a covid-19.

A Justiça da Argentina também liberou carros e dinheiro para ajudar no combate à pandemia. Em 4 de abril, um juiz da cidade de Mar del Plata, o mais famoso balneário de Buenos Aires, aceitou o pedido do prefeito local e ordenou que 26 veículos apreendidos de uma suposta quadrilha de traficantes de drogas fossem usados ​​para prestar serviços no âmbito da resposta ao coronavírus.

Os carros serão usados ​​para transportar pacientes e outras tarefas de segurança durante a quarentena obrigatória.

Dinheiro da corrupção

Fortunas apreendidas em dois dos casos de corrupção de maior destaque nos últimos anos também tiveram esse fim.

O tribunal que julgou o ex-secretário de Obras Públicas do governo Kirchner, José López, condenado por enriquecimento ilícito depois de ter sido filmado escondendo sacos com milhões de dólares em um convento, determinou que US$ 2 milhões (R$ 10,6 milhões) desse dinheiro sejam doados ao hospital pediátrico Garrahan, em Buenos Aires.

Esse verba, além de outros US$ 12 mil (R$ 63 mil), serão destinados à compra de respiradores, máscaras e óculos de proteção.

Enquanto isso, o tribunal que julga o empresário Lázaro Báez, acusado de lavar dinheiro para o governo Kirchner, entregou ao Exército “como um depósito judicial” bens que incluem 17 contêineres vazios, 300 equipamentos de proteção e 21 macas.

Colômbia

A Sociedade Colombiana de Ativos Especiais (SAE) também permitiu que alguns bens apreendidos fossem utilizados provisoriamente para ajudar a combater o coronavírus.

“Para apoiar o governo e entidades territoriais no tratamento dessa contingência, a SAE ajustou os procedimentos internos”, explicou Virginia Torres, presidente da SAE, ao jornal El Tiempo. “Isso garante que os ativos gerenciados possam ser usados ​​e adequados como instalações para tratamento, isolamento e atendimento, sem atender a outros requisitos comuns”.

Propriedades apreendidas pela SAE que podem ser usadas como abrigos para mulheres que correm risco de sofrer violência doméstica.

Entre as propriedades que a entidade ofereceu estão o Hotel Benjamin, na cidade de Santa Marta, no norte do país, que pertencia ao israelense Assi Mosh, expulso da Colômbia em 2017 por supostos vínculos com redes de prostituição. E um ex-prostíbulo conhecido como “El Castillo”, no centro de Bogotá, oferecido ao Instituto Nacional Penitenciário e Prisional (Inpec) para abrigar prisioneiros infectados com a covid-19, para que estes não infectem o resto da população carcerária.

A SAE também disponibilizou às autoridades regionais 65 prédios a serem utilizados durante a pandemia como abrigos para mulheres que correm o risco de sofrer violência doméstica durante o isolamento obrigatório .

Fonte: BBC Brasil

Economia da América Latina é uma das mais afetadas pela epidemia do coronavírus

Toda cautela é pouca na hora de tentar antecipar o inegável impacto econômico do coronavírus: grande parte do que está ocorrendo hoje só será plenamente visível e quantificável no decorrer das semanas ou meses. Os sinais, entretanto, chegam em peso e falam por si só: há algo de grave acontecendo no sempre frágil jogo de equilíbrio em que se move a economia.

A Bolsa de Nova York perdeu quase um quinto do seu valor em menos de um mês; a migração da renda variável para a renda fixa – a prova mais evidente do temor que paira sobre o mercado – é evidente; o consumo global de petróleo afunda a um ritmo inclusive maior que na Grande Recessão; a saída de capitais dos emergentes se multiplica; e cada vez mais organismos internacionais reconhecem que ainda não dispõem dos elementos de julgamento suficientes para se aventurarem com uma cifra concreta de impacto.

Pouco a pouco, as certezas do impacto econômico começam a emergir. Entre elas, que ser uma das regiões do mundo com menos casos de contágios não a exime de sofrer o dano financeiro associado a qualquer epidemia: a América Latina não tem de forma alguma garantida a sua imunidade, e foi pega no contrapé, mergulhada num já longo período de baixo crescimento e com pouca margem de ação para reverter a esperada redução da demanda.

As consequências já começaram a ser sentidas em várias frentes: sacudida nas Bolsas, acompanhando os grandes mercados mundiais; moedas indo à lona; redução nas previsões nas previsões de crescimento e uma clara mudança de padrão nas exportações de matérias primas. “A região está perante sua possível segunda década perdida… das últimas três. O coronavírus chega num péssimo momento, de baixo crescimento”, observa Lourdes Casanova, diretora do Instituto de Mercados Emergentes, ligado à Universidade Cornell (EUA).

No aspecto sanitário, a epidemia chegou à América Latina através do Brasil, com um homem que voltou infectado de uma viagem à Itália. Desde então, o vírus avançou em ritmo mais lento que em outras latitudes: o verão austral talvez tenha ajudado, como também a distância geográfica e as poucas conexões aéreas com as zonas mais afetadas.

Primeiro paciente infectado da América Latina chegou ao Brasil depois de uma viagem à Itália.

O número de contágios é oito vezes maior nos EUA e 160 vezes maior na Europa. Mas o dinheiro corre por vias bem distintas: na mente dos economistas, está gravada a fogo a relação direta entre menor atividade global, menor consumo de matérias primas e golpe na linha de flutuação de muitas economias da região. A eterna dependência dos produtos básicos, sem valor agregado, agrava a exposição latino-americana a um choque desta espécie.

As primeiras a sofrerem o golpe foram as divisas regionais, algumas das quais já estavam nos ossos: o real brasileiro e o peso chileno flertavam com seu mínimo histórico bem antes do coronavírus monopolizar tudo. Só o peso mexicano sustentava a cotação.

Mas além dos sempre voláteis mercados financeiros – Bolsas, câmbio, renda fixa –, que já antecipam uma guinada radical no caminho de crescimento global e regional, “há um impacto claro sobre as exportações e, portanto, sobre o crescimento. Ainda não vemos contágio para o setor de serviços, com impacto doméstico, mas o risco está aí, e as autoridades de política econômica deveriam estar observando-o”, afirma Martín Castellano, chefe de análise para a América Latina do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês).

A estreita relação com a China nas últimas décadas se transforma em uma faca de duplo fio na balança comercial de muitos países latino-americanos. Pouco mais de uma década atrás, quando o bloco ocidental sucumbia à crise financeira, esse gancho permitiu à região se isolar das consequências da queda dos EUA e Europa. Hoje, por outro lado, é motivo de alarme: embora a China vá pouco a pouco voltando à normalidade, “a atividade econômica ficou muito reduzida, com um impacto significativo”, observa por email Otaviano Canudo, ex-diretor do FMI para o Hemisfério Ocidental e hoje fellow da Brookings Institution. Segundo os cálculos da OCDE, um ponto a menos de crescimento na China implica uma queda em idêntica proporção no crescimento da região. E a migração da volatilidade para os spreads da dívida pública, como recorda Sebastián Neto, chefe de unidade do organismo para a região, também é muito maior.

Três das grandes economias regionais – Brasil, Chile e Peru – têm no gigante asiático o principal destino de seus produtos, e o fantasma de 2015, quando as matérias primas desabaram e as principais economias latino-americanas se ressentiram, está na memória. Se nos primeiros dias os temores se centravam nos minérios de uso industrial – ferro e cobre, sobretudo –, o que situava as nações andinas como maiores prejudicados, o recente desabamento do petróleo por uma combinação de menor demanda (maior baixa trimestral em décadas, superior inclusive à registrada no auge da Grande Recessão) e descoordenação entre a OPEP e a Rússia, pôs o foco sobre Venezuela, Equador, Colômbia, Brasil e México, grandes produtores regionais. Em questão de dias, o México, segunda maior economia latino-americana – e um dos países menos afetados pela epidemia, por sua escassa exposição à China, onde tudo começou –, passou ao olho do furacão financeiro. Primeiro porque o desmoronamento do petróleo representa um duro baque para sua já abaladíssima petroleira estatal Pemex. Segundo porque, à medida que o vírus se globaliza – ou, melhor dizendo, se ocidentaliza –, suas consequências econômicas também o fazem.

Estamos começando a mudar o enfoque, vendo-o não só como um golpe para a economia chinesa, mas como algo que vai muito além”, aponta, pedindo anonimato, o estrategista para a América Latina de uma importante gestora de recursos. “Nos EUA, por exemplo, vão comprar os mesmos carros nestas circunstâncias? Temos dúvidas, e isso afeta o México e também o Brasil, onde dois terços de suas exportações são matérias primas. São “tempos difíceis” para a região, afirma por telefone. “Estamos vendendo com as duas mãos e esperando que os números se estabilizem para comprar com três mãos.” E quando os investidores apertam o botão de pânico, a história diz claramente que a peça latino-americana do dominó global costuma ser uma das primeiras a cair: sua exposição à volatilidade é inclusive maior que a do resto dos emergentes.

Na sopa de letras que os economistas identificam ao lerem as curvas dos gráficos – ou seja: L, uma queda da atividade sem recuperação à vista; V, rápido desabamento, rápida recuperação; U, descida busca, descenso, recuperação demorada –, Neto aposta na última opção. “Não há dúvidas de que haverá efeito sobre o crescimento. O período de recuperação já não será de um trimestre nem um semestre, e sim mais”. O resultado desse coquetel é um quadro cinza, muito mais sombrio que o desenhado no final de 2019 – que, verdade seja dita, era mais prudente que pessimista. O Goldman Sachs foi o último a revisar seu quadro macro para os principais países da região: Brasil e Equador crescerão 0,7 ponto percentual a menos (1,5% em vez de 2,2% no primeiro caso; e de -0,3% a um lúgubre -1% no segundo); Peru, 0,5 a menos (2,8% em lugar de 3,3%); e Colômbia, 0,4 (3% em vez de 3,4%).

Economia de países emergentes como o Brasil é uma das mais afetadas em momentos de crise mundial – Reprodução Internet.

Ao contexto adverso se soma uma menor margem de manobra para políticas contracíclicas que em crises anteriores. A depreciação generalizada das moedas latino-americanas delimita o campo de ação da política monetária – juros mais baixos contribuem para a retomada da atividade, mas também estimulam a saída de recursos. Esse é, justamente, o maior desafio regional neste ponto, segundo Neto: a “limitadíssima capacidade de aplicar estímulos num momento em que é preciso ter muito cuidado com o potencial impacto sobre a saída de capitais”. No plano fiscal, a margem é igualmente curta, com volumes de dívida pública que, como recorda Castellano, do IIF, duplicaram em grande parte da região desde 2009. Naquela época, estes países puderam fazer frente. “Só os países com espaço fiscal ou monetário e com reservas de divisas estrangeiras poderão responder ao choque”, conclui Canudo. Tempos bicudos, sem poções mágicas.

Texto de Ignacio Fariza – Retirado do caderno de Economia – Jornal El País.

Você moraria em um apartamento de apenas 10 metros?

O corre-corre das grandes cidades faz com que muita gente perca muitas horas de seu dia no deslocamento do trabalho pra casa. Pensando em evitar esse transtorno, muitos jovens acabam optando por buscar uma moradia mais próxima ao seu local de trabalho. O problema é que pagar um aluguel, ainda mais em países cujos salários médios não são muito altos, não é uma tarefa fácil.

Pensando em atender essa demanda, o setor imobiliário latino – americano vem investindo cada vez mais na construção de microapartamentos.

Eles são tão pequenos quanto o espaço de uma vaga de estacionamento.

“São os menores da América Latina, diz Alexandre Frankel, diretor-executivo da Vitacon, empresa que está construindo microapartamentos  de 10 m² em São Paulo. Logo que o projeto VN Higienópolis chegou ao mercado, as unidades foram vendidas por aproximadamente R$ 70 mil. O prédio ainda está em construção e o lançamento está previsto para o fim deste ano.

Como nas grandes cidades os engarrafamentos se tornaram um pesadelo e os preços das moradias estão nas alturas, as construtoras estão erguendo apartamentos minúsculos em áreas centrais para jovens profissionais, estudantes e investidores, que enxergam neles uma oportunidade rentável.

Em cidades como São Paulo, Buenos Aires, Bogotá ou Cidade do México, as pessoas podem passar facilmente três horas por dia se deslocando de casa para o trabalho. E como o salário médio não permite comprar imóveis maiores, quem mora sozinho prefere perder espaço e ganhar tempo.

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Este apartamento de 10 m² em São Paulo foi vendido por R$ 70 mil

Embora alguns arquitetos digam que é como trancar alguém em uma cela na prisão, outros veem os microapartamentos como uma solução com alta rentabilidade para um problema urbano que vai continuar piorando.

Os defensores da nova tendência afirmam que o fenômeno é uma resposta à dinâmica da chamada gig economy, ou economia compartilhada, em que os jovens trabalham de forma independente, têm filhos mais tarde e usam espaços de trabalho compartilhados (coworking).

Assim, os arquitetos estão projetando edifícios com microapartamentos e grandes espaços compartilhados, onde as pessoas que querem socializar podem passar boa parte do tempo. “As pessoas dormem em seu apartamento, mas o prédio é parte da sua casa”, explica à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, Alexandre Frankel.

A empresa dele construiu vários edifícios com microapartamentos em São Paulo, mas nenhum, até então, havia batido o recorde de 10 m². E, de fato, no futuro, ele não será capaz de voltar a construir espaços tão pequenos, porque a regulamentação não permite mais – o limite mínimo permitido hoje para as unidades é de 11 m². “Se eu pudesse fazer menor, eu construiria”, diz Frankel.

E esse é justamente um ponto-chave: na maioria dos grandes centros urbanos, as leis não permitem a construção em uma escala tão pequena. Embora em cidades como Tóquio, onde a densidade populacional é uma das mais altas do mundo e os preços são proibitivos, existam microapartamentos de até 8 m².

As cidades expulsam as pessoas

Em outras cidades latino-americanas, os microapartamentos também estão se proliferando, mas com tamanhos um pouco maiores, que beiram os 20 m². Embora a alta densidade populacional e o tráfego excessivo de veículos não sejam um problema novo na região, a verdade é que pioraram em muitas cidades.

E se, acrescentarmos a isso o aumento dos preços e a ascensão da classe média, temos o cenário perfeito para que o fenômeno dos microapartamentos comece a se expandir, pelo menos enquanto houver demanda para colocar lenha na fogueira. Em Buenos Aires, também estão sendo desenvolvidos projetos imobiliários desse tipo. Alguns em bairros nobres e outros em áreas de classe média.

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A tendência de viver em microapartamentos teve uma forte alta em cidades como Tóquio, Londres e Nova York

“Fazemos produtos para pessoas de classe média que não conseguem comprar (um imóvel), que não têm acesso à moradia”, explica à BBC News Mundo Pablo Brodsky, diretor comercial da Predial, empresa que vende microapartamentos de 18 m² a 30 m², com preços a partir de US$ 40 mil (R$ 153 mil) e US$ 50 mil (R$ 192 mil), respectivamente.

“As cidades expulsam as pessoas. É por isso que os microapartamentos são uma tendência que veio para ficar.” Brodsky acredita, no entanto, que tudo tem um limite, ou seja, você não pode construir moradias tão pequenas quanto as de São Paulo. “Eu não moraria em 10 m²”, diz ele.

Aluguel para turistas

Outras empresas desenvolveram projetos em áreas mais nobres, como Belgrano ou Palermo, que não têm menos de 20 m² e custam pelo menos US$ 55 mil (R$ 211 mil).

Muitos imóveis são comprados por investidores que, em alguns casos, alugam as propriedades em plataformas como o Airbnb ou até mesmo como escritórios. “Devido à desvalorização do peso, é muito rentável alugar (os apartamentos) para turistas que pagam em dólar, em vez de alugá-los por um ano inteiro”, afirma Manuel Mel, gerente de vendas da Mel Propriedades.

Os imóveis também são comprados por pais de estudantes do interior do país que vão estudar na capital ou por jovens profissionais. “Eles têm uma localização muito boa, estão conectados ao metrô e podem ser comprados por pessoas que teriam que esperar mais cinco anos.”

E como as regras que permitem construir microapartamentos em Buenos Aires foram modificadas há poucos meses, é possível que nos próximos anos sejam desenvolvidos mais projetos desse tipo.

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Muitos investidores compram os microapartamentos e alugam em plataformas como Airbnb

As pessoas ainda buscam espaços maiores

“Esse fenômeno ainda não é tangível para o caso do México”, diz à BBC News Mundo José Luis Madrigal, gerente-geral da empresa CADU Residencial.  “Há um aumento nos preços de imóveis, especialmente na Cidade do México, e uma demanda alta que a oferta não consegue assimilar.”Mas as pessoas ainda estão à procura de empreendimentos maiores, com pelo menos 65 m².

De qualquer forma, ele argumenta, a tendência é que os espaços sejam reduzidos – não só devido ao aumento dos preços, mas também à redução do crescimento populacional e às condições de vida e trabalho atreladas à economia compartilhada.

Em alguns sites de imobiliárias, é possível encontrar apartamentos de 20 m², principalmente para alugar. Se trata, em muitos casos, de moradias antigas reformadas, diz Leonardo González, analista do site Propiedades.com.

E há uma demanda por espaços pequenos entre membros da geração millennial, uma vez que não é fácil para eles comprar um apartamento. “Muitos não têm uma renda garantida, tampouco condições para comprar uma propriedade”, explica.

A mesma situação se repete em todo o mundo, especialmente nas grandes cidades, onde a casa própria se tornou um sonho cada vez mais distante. Não é à tôa que muitos profissionais recém-formados tentam ficar na casa dos pais o maior tempo possível com a ideia de economizar.

E outros, cansados ​​de passar horas presos no trânsito, acabam preferindo os microapartamentos. Uma ideia que deixa muitos urbanistas indignados, se perguntando por que não foram feitas políticas de planejamento urbano a tempo. Seja como for, o fato é que as megacidades continuarão crescendo e a demanda por moradia dificilmente vai desacelerar.

E você o que acha desses microespaços? São uma boa opção? Ou concorda com alguns arquitetos que os consideram uma pequena prisão? 🤔

Fonte:  BBC Brasil

 

 

Tigre latino

Se você era um bom aluno de geografia na escola, com certeza se lembra de ter estudado sobre os “tigres asiáticos”.  A expressão foi criada para  fazer uma  analogia entre a força, a agilidade e a audácia típicas do comportamento de felinos encontrados no sudeste do continente e o vigoroso crescimento econômico de algumas nações que, até os anos 1970, eram consideradas bastante empobrecidas.

Os primeiros tigres asiáticos foram:  Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Hong Kong (que atualmente pertence à China). O sucesso desses primeiros tigres atraiu as atenções dos países vizinhos: Filipinas, Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã que passaram a adotar reformas econômicas e estruturais capazes de atrair mais  investimentos.

Do outro lado do mundo, o Panamá, um pequeno país que conecta a América do Sul à América Central, vem chamado a atenção dos economistas do mundo inteiro, por possuir características semelhantes às dos tigres asiáticos.  Tanto que ganhou o apelido de “Singapura” latino – americana, já que nos últimos 25 anos,  foi o país que alcançou o maior crescimento econômico da região.

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Graças ao crescimento ecônomico,  a Cidade do Panamá, capital do país,  foi apelidada de “Dubai Latina” devido à modernização da arquitetura local – Imagem Reprodução – Internet

Existem alguns fatores que explicam este êxito panamenho, vamos ver alguns deles: 

Diferentemente de outras nações centro – americanas como Honduras, Nicaragua o El Salvador, o país abriu sua economia ao mundo há mais de 30 anos, quando a região estava enfrentava a chamada “década perdida”, no meio de uma profunda crise econômica.

“O Panamá experimentou um salto quântico econômico”, disse à  BBC Mundo, Alejandro Santos, chefe da Missão no Panamá e chefe da divisão no e Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI). “Foi um impulso gigantesco,  comparável a de outros países asiáticos como Singapura ou Coreia do Sul”.

E assim demonstram as cifras: nos últimos 25 anos, o Panamá liderou o crescimento  econômico da região com um índice de 5,9%, seguido por República Dominicana, Peru, Chile e Costa Rica, segundo as estimativas do FMI.

De fato, o  Panamá expandiu sua economia mais que o dobro da média regional.

Os arranha – céus da capital,  Ciudad de Panamá  e o impactante fluxo comercial que transita por seu icônico canal, somado ao sabor cosmopolita da metrópole e ao dinheiro que corre por suas veias, criam a aparência  de uma “joia do progresso”.

No entanto, o Panamá está longe de ser um  paraíso: é um dos países mais desiguais da região e esteve no centro de um dos maiores escândalos de corrupção dos últimos anos na América Latina.  Documentos de arquivos secretos, obtidos a partir de um escritório de advocacia no país, revelaram um esquema global de ocultação de patrimônio e dinheiro por parte de líderes mundiais, chefes de Estado e figuras públicas. O caso ficou conhecido como o escândalo do Panamá Papers. 

Grande Salto

Até os finais da década de 1980, os países latino – americanos viviam os duros efeitos da onda de recessão que assolava a América Latina, naquele momento. Dívidas impagáveis, grandes déficites fiscais e volatividades inflacionárias e de tipos de câmbios, eram uma constante na época.

Por outro lado, o Panamá, que tinha um certo nível de estabilidade política, começou a se abrir ao comércio  internacional, conta Santos. “Se a isso somamos uma posição geográfica privilegiada, podemos ver porquê o pais terminou se  transformando em um dos grandes centros internacionais de comércio, finanças e atividades logísticas” – acrescenta o especialista.

 O grande motor que move a máquina

Mais recentemente a ampliação do Canal do Panamá (concluída a meados de 2016), permitiu ao país dobrar sua capacidade de tráfico marítimo.  Embora o canal não seja a única razão do crescimento econômico, ele permitiu que o país abrisse caminho para muitos investimentos. “O Panamá investiu muito nos últimos cinco anos”, disse José Cuesta, economista do Banco Mundial, em conversa com a BBC Mundo.

Prova disso é que as taxas de investimento chegaram a cerca de 40%, fazendo com que o país mantenha seu ritmo de crescimento ecônomico, através do desenvolvimento  de indústrias como a de logística, telecomunicações e de finanças.  O aeroporto tem sido outra fonte de investimento, além do metrô e de outras obras de infra estrutura como pontes e sistemas de água e saneamento.  “Isto tem permitido reduzir consideravelmente a pobreza”, desde um 22% em 2010 a 13% em 2018, explica o especialista. Na prática, nos últimos quatros anos,  150.000 pessoas saíram da pobreza.

Desigualdade

Baixar a pobreza é uma coisa, porém, diminuir a desigualdade é  algo bem diferente.

“A  desigualdade do Panamá é  uma das mais altas da América Latina”-  aponta Cuesta.

” E a América Latina é a região mais desigual do mundo”.

O ranking da desigualdade (medido pelo Coeficiente de Gini) estabelece o  Brasil como o país mais desigual da região, seguido por Honduras e Panamá, segundo os  últimos dados  disponíveis no  Banco Mundial, que correspondem a 2017. 

A Venezuela não está incluída na lista, porque não existe informação oficial disponível.  “Para o Panamá que é um país com alta porcentagem de inversão, não se pode justificar facilmente esse nível tão alto de desigualdade” – afirma José Cuesta.

Olhando mais profundamente para o país aparece um desafio ainda maior: a precária situação em que se encontram as comunidades indígenas.

“A pobreza nessas localidades  é 10 vezes maior que no resto do país”. Nessas condições, enfatiza Cuesta, se faz necessária uma política social “mais ambiciosa”, com aumento do gasto social para proteger as pessoais mais pobres”.

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A população indígena sofre com a desigualdade social no país – Getty Images

Mineração

Apesar dos escândalos de corrupção e da impunidade, a economia segue  se expandindo.  E embora, em 2018 o crescimento econômico não tenha sido tão alto:  3,7%, o FMI projeta que neste ano o país voltará a crescer em torno de 6%.

Se a previsão se confirmar, o crescimento do Panamá vai superar o Chile como o país com maior crescimento econômico per capita da região em 2019.  Mas isso depende da recuperação do setor da construção (que no ano passado enfrentou uma extensa greve) e do nível de exportações que alcance a mina Cobre Panamá, operada pela empresa canadense, First Quantum. A firma espera vender cerca de 320.000 toneladas anuais de concentrado deste mineral quando alcance seu nível máximo de produção.

“O grande desafio do  Panamá é manter o ritmo de crescimento”, disse  Alejandro Santos do FMI, algo que não é nada fácil quando uma economia está correndo a toda velocidade.

Muito interessante a evolução da economia desse pequeno país, não é? E  é muito triste constatar que o Brasil, infelizmente, lidera o ranking da desigualdade social na região 😦

Isso, é sem dúvida, algo que precisamos mudar… 🇧🇷

Fontes: BBC Mundo,  Revista Exame e Site Stoodi

 

¿Cuánto cuesta?

O cinema é uma das minhas maiores paixões, estou sempre acompanhando os lançamentos e sempre que posso compareço, (na verdade pela minha vontade estaria toda semana em frente a grande tela) Rs Mas sabemos que no Brasil não é um programa muito barato. E em outros países da América Latina? Como são os valores? Tem lugares mais caros e bem mais baratos também. Segundo pesquisa feita pela BBC latina, com preços em dólares, a entrada mais cara na região é paga no Chile: em torno de US$ 9,2, e a mais barata se vende em Cuba: US$ O,10.

Esses números, porém, como podemos imaginar, são relativos, porque se de um lado o Chile tem o ingresso mais caro, por outro, a renda per capita de lá é maior do que nos outros países. E em Cuba, onde a entrada é mais barata, a maioria dos filmes transmitidos são produções nacionais e latinas e poucas hollywoodianas.

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Excluindo os extremos da lista  (Chile e Cuba), entre os países onde se vende as estradas  mais caras estão: Argentina, US$ 8,45, Belize US$ 7,50 e Brasil US$ 7,00. Entre os mais baratos aparecem:  El Salvador US$2,50, Costa Rica US$2,94 e México US$3,30.

A  Venezuela é um caso aparte. O custo da entrada do cinema em Caracas gira em torno de 400 bolívares, mas por causa do controle do cambio e dos tipos distintos estabelecidos pelo governo, o  equivalente em dólares pode ir de US$63,49 a  US$2,01. Já a Colômbia, apesar de nos últimos anos, ter acumulado uma grande alta na inflação, em torno de 64% desde 2005, conseguiu manter estável o preço das entradas do cinema. Confira abaixo a tabela com as variações dos preços nos últimos 10 anos em 08 países latino-americanos:

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