Argentina e Uruguai cortam despesas políticas para financiar sistema de saúde

Enquanto a pandemia avança e  o número de contagiados e de vítimas fatais cresce, alguns governos da América do Sul estão adotando medidas de ajuste e realocação orçamentária para enfrentar as necessidades financeiras de seus sistemas de saúde. O Uruguai reduzirá em 20% o salário de altos funcionários e aposentadorias mais privilegiadas. Na Argentina,  o presidente da Câmara dos Deputados, Sergio Massa, anunciou que vai transferir fundos destinados ao funcionamento da Casa e os chamados “recursos especiais reservados” dos deputados ao Ministério da Saúde e a organismos que estão atuando no combate ao coronavírus.

O presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, empossado em 1 de março, comunicou a criação do chamado “Fundo Coronavírus”, com recursos de salários de servidores e pessoas com cargos políticos.

— Não vamos reduzir o salário de funcionários públicos e políticos para economizar, e sim para gastar. Isso é solidariedade pura para as pessoas. Precisamos gastar — declarou Lacalle Pou. Seu salário também será reduzido em 20% para contribuir com o novo fundo. — Este é o momento de todos fazermos um esforço — frisou o chefe de Estado uruguaio.

A medida está prevista num projeto de lei que será enviado ao Parlamento do país. A aliança de governo, formada por cinco partidos, tem votos suficientes para aprová-la. De qualquer forma, o respaldo obtido por Lacalle Pou foi expressivo e deve facilitar o rápido tratamento do projeto.

Paralelamente, a Câmara do Uruguai já aprovou a eliminação dos chamados “fundos de imprensa”, em torno de US$ 800 (R$ 4.131) por deputado, previsto para a compra de jornais e revistas no Parlamento. O Uruguai confirmou na semana passada a primeira morte no país por Covid-19.

Na Argentina, país que tem sido elogiado por especialistas pela rapidez em adotar medidas drásticas de combate à pandemia, a Câmara, que está funcionando com reuniões e debates virtuais há mais de duas semanas, redistribuiu despesas.

As medidas de isolamento social adotados na Argentina estão sendo elogiados pelas entidades de saúde. Foto Reprodução Argentina

— Retiramos dos deputados as chamadas “despesas especiais” e usamos os recursos destinados ao funcionamento da Câmara, as despesas logísticas, e tomamos a decisão de que todos esses recursos sejam enviados ao sistema de saúde — explicou ao Jornal “O GLOBO” o presidente da Câmara argentina, muito próximo de seu colega brasileiro, Rodrigo Maia, com quem tem se comunicado nos últimos dias.

Para Massa, “numa emergência não podem existir despesas especiais da política”.

Fonte: Jornal “O Globo”

Qual país pode ser considerado o rei do mate?

O mate é a bebida mais popular dos nossos vizinhos Argentina, Uruguai Paraguai e também nos estados do sul do Brasil, onde é popularmente conhecido como chimarrão. Confesso que, quando experimentei, achei a bebida um tanto desagradável, porque me pareceu muito amarga, mas pra quem nasceu nas regiões onde ela é popular, o sabor amargo parece passar desapercebido e o ritual “matero” fala mais forte.

Na Argentina, no Paraguai, Uruguai e no sul do Brasil o mate é a companhia do solitário e um hábito coletivo que jocosamente se cataloga como a primeira rede social. O antropólogo uruguaio Daniel Vidart inclusive chegou a afirmar que “em todos os tempos foi o mate que fez a roda e não a roda que trouxe o mate”.

Devido a este nacionalismo “matero” é comum haver muitas discussões a respeito da infusão entre argentinos, paraguaios e uruguaios a respeito do melhor modo de preparo, por exemplo. Uns defendem que deve ser doce, outros acham melhor amargo; em determinadas regiões se toma quente e em outras, frio. Entre esses impasses, surge também a questão sobre quem seria o rei do mate…

Gravura do final do século XVIII retrata indígenas paraguaios no trato da erva mate.

Paraguai, o rei histórico
“O ritual do mate tem se conservado quase sem nenhuma modificação desde uns 300 anos”, escreve o antropólogo uruguaio Gustavo Laborde. A planta com a qual se elabora a erva mate ilex paraguariensis, é nativa das regiões subtropicais da América do Sul. Acredita-se que as populações da região já consumiam esta planta de distintas formas e com fins variados, mas foram os espanhóis que fizeram os primeiros registros escritos do seu consumo em um lugar em particular: o local em que hoje está localizado o Paraguai.

“Com seu epicentro histórico no que hoje seria a região oriental do Paraguai, os guaranis foram os grandes responsáveis pela propagação da erva mate ao sul do continente americano” – revela à BBC Mundo o uruguaio Javier Ricca, autor do livro “El Mate”, ganhador do prestigioso Goumard Awards em 2010. De fato, vários textos espanholes do século XVI afirmam que o produto era conhecido como “erva do Paraguai”, por viajar desde essa província.

Por exemplo, na “História da província do Paraguai da Companhia de Jesus”, o sacerdote Nicolás del Techo escreve: Muitas são as virtudes que se atribuem à dita erva, ela reconcilia o sono, acalma a fome, estimula a digestão, repara as forças, espalha e cura várias enfermidades.

Proibição
Mas foi a origem divina e poderes sobrenaturais que alguns índios guaranis atribuíam ao mate que acabou por convencer aos espanhóis e, em particular, aos sacerdotes jesuítas de proibir seu consumo. Assim, em 1610 a Inquisição de Lima proibiu esta “sugestão clara do demônio”, e em Assunção se impuseram penas de 100 chibatadas para os indígenas e 100 pesos e multa para os espanhóis que consumissem ou traficassem a erva, conta o argentino Jeronimo Lagier no livro “A aventura da erva mate”.
Somente 20 anos depois, a erva não só voltaria a ser legal, mas também seria utilizada pelos jesuítas como a base econômica de sua expansão territorial, “desenvolvendo um quase monopólio da comercialização da erva mate, relata Lagier à BBC Mundo.
Nos séculos seguintes, diversas guerras por motivos geopolíticos e comerciais que golpearam a exportação e distribuição da planta, fariam que o Paraguai perdesse seu trono histórico para ceder o recorde de produção a um de seus vizinhos: a Argentina.

Argentina, o rei da produção e do marketing
A Argentina é o país que mais produz, diz Lagier, atual diretor do Instituto Nacional de la Yerba Mate (YNYM) de Argentina. Nos últimos 05 anos, o país produziu 777 mil toneladas da erva verde, segundo um informe do Instituto Nacional, divulgado recentemente.
A nação também lidera em exportação do mate com um promédio anual de 35 mil toneladas, sendo seus principais destinos Síria (72%), Chile (14%), Líbano e Estados Unidos (2%). Além disso, é o país com maior superfície de cultivo da erva mate mate, totalizando 165 mil hectares. De longe, a seguem Brasil (85 mil) e Paraguai (35 mil) hectares.

O Papa Francisco é um dos mais célebres argentinos propagadores do mate pelo mundo.

Mas só estes números não conseguem explicar porquê, apesar de o mate ser próprio de outros países e de estados do sul do Brasil, a bebida está mais internacionalmente associada à Argentina. “A Argentina está se caracterizando por ter ótimos departamentos de marketing e venda de seus produtos no mundo inteiro. Prova disso é a sua carne, que é reconhecida e valorizada nos mercados mais importantes, afirma Ricca à BBC Mundo.
“Seguindo este camino, o YNYM tem desenvolvido ações de promoção em distintas feiras internacionais de alimentação em países como Alemanha e Estados Unidos, ao mesmo tempo que projeta ampliar seu mercado na Índia”, agrega.
Embora o mate seja mais produzido na Argentina, quando se trata de consumo per capita, o país mais “matero” é o Uruguai.

Uruguai, o rei do consumo
O pequeno país de apenas 03 milhões de habitantes é onde se registra o maior consumo da erva mate por pessoa, com 08 quilos anuais. Pra se ter uma referência, na Argentina que está em segundo lugar se consome 6,4 quilos por ano, por pessoa.
O diretor do YNYM sustenta, que embora os costumes que rodeam a infusão se estendam entre os países “materos”, sem conhecer fronteiras, no Uruguai existe uma particularidade: Tomam mate deslocando-se com vasilha e mate debaixo do braço.
Inclusive aos argentinos, com todas suas estatísticas de liderança em erva mate, lhes impressiona ver os uruguaios andando de bicicleta e servindo mate ao mesmo tempo.

Fenômeno histórico
“A evolução do mate em nossa sociedade, desde a intimidade do lar ao espaço público é um fenômeno historicamente recente, diz Ricca. Segundo o antropólogo Vidart, um setor político da população uruguaia mantinha o rito como um indicador de rebeldia durante o governo militar de 1973 a 1985.
O costume de tomar mate também está relacionado às ondas migratórias até Montevidéu, pois, trabalhadores e estudantes que se alojavam em pensões costumavam sair às ruas tomando mate.

O costume de tomar mate estar relacionado à resistência contra a ditadura e às ondas imigratórias em Montevideo.

Jerônimo Lagier autor do livro “Aventura da erva mate” reconhece a complexidade do rito: “Seria difícil descrever o que tudo o que o rito do mate abarca, porque vai bem mais além de verter água quente em um recipiente com erva e beber essa mistura com a bombilha”, está muito relacionada a uma espécie de camaradagem, a uma forma de levar a vida…

Traduzido do Site BBC News Mundo

Música para curar

Muita gente não sabe, mas um dos principais nomes da música latina, o uruguaio Jorge Drexler, além de cantor e compositor, é formado em medicina. Recentemente, o artista teve a oportunidade de concialiar suas dois paixões: Ele começou a participar de um  projeto promovido em hospitais espanhóis chamado “Música en Vena” – Música na veia.

A iniciativa tem como objetivo levar canções a pacientes que estão ingressados em diferentes áreas de hospitais na Espanha. “É um público muito especial porque se encontra muito sensível”, assegura Jorge, que já trabalhou muito tempo em hospitais do  Uruguai.

Jorge
O cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler é formado em medicina – Imagem – Internet 

“É um privilégio para alguém que escreve canções e que vive de música tocar em um momento delicado do ser humano, como é o momento de estar em um hospital”, diz Drexler. “Um dos doutores que nos acompanhou nos disse que com o sorriso que se produz e com o ambiente que deixamos na sala já alcançamos um avanço” – ressalta o cantor.

Seu contato com a enfermedade, com o sofrimento humano, com a fragilidade da saúde proporciou ao cantor a oportunidade de dispensar uma identidade compositiva mais sensível em sua música que, depois de anos e voltas,  o levou a se reencontrar com as frias salas de um hospital. A intenção é poder fazer com que esses lugares se aqueçam um pouco com suas melodias.

Canções para Irene

Irene Roblas nasceu prematura. Seu corpo é pequeno e frágil. Por isso, no Hospital Severo Ochoa de Leganés em Madrid, estão dando todo o suporte que a família necessita.

Música en vena ajuda a tornar o ambiente hospitalar menos hostil e mais familiar para os pacientes e familiares”, comenta  Ersilia González, responsável pelo setor de recém-nascidos  do centro médico.

“Estavam presentes os pais e a neonatóloga que acompanha  Irene e pudemos notar a reação dela através dos movimentos” – acrescenta Drexler, que deu um recital pessoal  e íntimo para esta bebê que, naquele momento, completava 22 dias em uma incubadora, lutando pela vida.

“Eu acredito que a música  cura, claramente”, concluie.

Assista ao emocionante vídeo de Jorge cantando para a pequena Irene ❤

Fonte: Site La Red21

Alegria partiu, foi embora…

Com a eliminação do Brasil, nessa sexta-feira,  diante da Bélgica pelas quartas de final, a Copa ficou sem nenhum representante latino. Que me desculpem os europeus, inventores do futebol, mas o Mundial da Rússia perdeu muito ao virar uma EuroCopa. Talvez o momento deles seja melhor mesmo: são mais altos, são mais fortes, tem mais dinheiro,  são mais organizados, mas não tem nossa alegria. Se no século 19, lá na terra da Rainha, foi criado o esporte que tempos depois se tornaria  umas das maiores atrações do planeta, foi por aqui pela América, em especial pela do Sul, que o futebol foi criando áureas de paixão e ganhando cores de alegria. Ninguém se envolve como a gente: Festejamos e sofremos com a alma e coração. 

Por aqui o futebol está longe de ser só mais um esporte, está mais para religião.  Nós transformamos o jogo criado pelos ingleses em algo muito maior. O que era pra ser apenas  mais uma modalidade cheia de regras, às vezes complicadas, com jogadas violentas, se tornou um verdadeiro espetáculo, graças aos nossos dribles, à nossa gingada, paixão e habilidades natos.

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Pela América Latina o futebol é quase uma religião – Imagem Reprodução Internet

O Mundial da Rússia continua, mas seria muito melhor se ainda houvesse uma seleção de sangue latino no páreo. A emoção colombiana, a garra uruguaia, a farra mexicana,  a paixão argentina, a irreverência brasileira com certeza fazem falta.

Esperamos que no Catar tenhamos mais sorte! 😉

De Cavani para Cavani

Você já escreveu uma carta pra si mesmo? Muita gente faz isso, especialmente para ler anos depois.  Eu ainda não fiz essa experiência, mas imagino que deve ser bem interessante, porque com o passar do tempo as mudanças são inevitáveis e imagino que a pessoa deve ter sensações que variam de nostalgia,  frustração, alegria, ou vários desses sentimentos  misturados. O craque Cavani do Uruguai teve essa experiência, mas ao contrário:  Com 31 anos escreveu uma carta para ele mesmo aos 09.  O  texto, publicado no The Players´Tribune, é emocionante, confiram abaixo:

“Caro Edinson de 9 anos,

Eu escrevo isso para o garoto que no bairro todo mundo chama de ‘Pelado’.

Quando você era bebê, não tinha muito cabelo. Cresceu pouco a pouco. Uma merda! Não havia nada que você pudesse fazer a respeito. Então, graças à criatividade de sua família, você sempre foi o ‘Pelado’.

Bem, fico feliz em dizer que nos próximos 20 anos o futebol vai mudar sua vida de muitas maneiras. Algumas muito boas, outras nem tanto. O futebol vai ajudar você a se livrar daquele apelido. Existe um cara chamado Gabriel Batistuta. Você ainda não sabe, porque o único programa que você tem a paciência de assistir na TV é Tom & Jerry. Seu irmão mais velho, Nando, será o primeiro a ser inspirado por Batistuta. Ele vai começar a se recusar a ir ao cabeleireiro. E usar o condicionador da sua mãe. E pouco a pouco, ele começará a se parecer com o magnífico Batigol. Quando ele está correndo em um campo de futebol, com seu cabelo comprido puxado para trás e segurado por um elástico, será a coisa mais cool que você já viu.

Chegará a hora em que você dirá à sua mãe: “Sem mais cortes de cabelo”.

Você vive a sua vida lá fora, com uma bola nos pés. Do jeito sul-americano. Você não sabe fazer diferente. E também, o que há para fazer dentro? Nada divertido, nada interessante. Não há PlayStation. Não há TV grande. Você não tem nem chuveiro quente. Não há aquecimento também. No inverno, seu sistema de aquecimento é feito por quatro cobertores. Quando você precisa tomar um banho, você tem uma garrafa térmica com água que você aquece na cozinha com querosene. É muito importante entender como combinar água fria e quente. De pé na banheira, você aprende a ser um alquimista.

Cavani
Cavani criança – Imagem Reprodução Internet

E, no entanto, isso será um luxo para você. Ou você não se lembra da sua primeira casa? Aquela que não tinha banheiro. Aquela casa onde toda vez que você tinha que se aliviar, você não tinha escolha senão sair e ir para a pequena cabana!

Você pode me deixar te contar um segredo? Quando me lembro dessa imagem agora, não me sinto mal. Por alguma razão, isso me enche de energia. Isso me dá coragem. É uma linda lembrança.

Não se preocupe com o que você tem na casa. Você tem que continuar vivendo sua vida ao sol, Pelado.

Além disso, qual é a razão para ter cartazes de futebol presos na parede? A cada dois ou três anos, quando você muda de emprego ou sua família não pode pagar o aluguel, você tem que se mudar para outro lugar. Mas você sabe o que é melhor? Que em cada casa nova, não importa onde esteja localizada, você sempre tem um pequeno campo do lado de fora. E também há uma bola. Não há locatário no mundo que possa tirar isso de você.

O que mais importa em sua vida neste momento, se bem me lembro, é o Gol do Sorvete.

O Gol do Sorvete é algo mágico. Eu preciso falar com alguém do PSG sobre o Gol do Sorvete. É genial. É pura motivação. A ideia era para os organizadores do campeonato juvenil de Salto. Como você motiva um bando de guris de 6 anos?

Colocando a regra de que o garoto que faz o último gol do jogo toma um sorvete.

O resultado poderia ser 8-1, mas isso não importa. É uma corrida contra o tempo. Marque o último gol do jogo. E a sensação ao ouvir o técnico que tocou o apito para marcar o final, quando você fez o Gol do Sorvete… incrível! Uma imensa alegria. Será chocolate? Você vai pegar um desses do Mickey Mouse? Seja o que for, ao longo desse dia, você é o rei.

Claro que você não é um garoto da capital, Pelado. Os meninos de Montevidéu vivem em um mundo diferente. Um mundo que você nem conhece. Um mundo de chuteiras Adidas, viagens de carro e grama verde. Em Salto, tudo é diferente. Por alguma razão, todo mundo quer jogar descalço. Algumas crianças começam os jogos com chuteiras, mas depois, no intervalo, todas as chuteiras estão empilhadas de um lado e todo mundo corre descalço. Se eu fechar meus olhos agora, ainda posso sentir a lama nas solas dos meus pés. Ainda sinto meu coração batendo, correndo atrás da bola, sonhando com sorvete.

Você carregará esses sentimentos com você por toda a sua vida, porque você é sul-americano. Você é do Uruguai. Você é de Salto. Você vive o futebol de uma maneira diferente.

A bênção e a maldição para os uruguaios é que nunca podemos relaxar. É a história do nosso futebol, é a história do nosso país. Quando colocamos o azul da celeste, sentimos o orgulho da nossa história. Temos de seguir adiante. E você vai.

Quais são seus sonhos, Pelado? Eu nem me lembro deles exatamente. O tempo os transformou em memórias difusas.

O seu sonho é jogar em Montevidéu, como Nando? Você vai conseguir, e quando fizer isso, vai sentir que está jogando na Liga dos Campeões.

O seu sonho é jogar na Europa? Você vai fazer isso e ganhará dinheiro suficiente para mudar a vida de sua família.

O seu sonho é jogar pelo Uruguai? Você fará isso e terá experiências que o farão chorar de alegria e também de tristeza.

O seu sonho é jogar uma Copa do Mundo? (Eu não vou estragar a surpresa, vou dizer que 2010 será El Loco).

Seu sonho é ter muito dinheiro, dirigir bons carros e dormir em hotéis elegantes? Bem, Pelado, você terá todas essas coisas. Mas eu tenho que te dizer uma coisa. Elas não necessariamente farão você feliz.

O que você tem agora, com 9 anos de idade, é algo de que eu sinto muita falta agora. Você não tem um banho quente. Você não tem um dólar no seu bolso. Você nem tem um bom cabelo. Mas você tem outra coisa. Algo que não tem preço. Você tem sua liberdade.

Quando criança, você vive sua vida com uma intensidade e uma paixão que são impossíveis quando adulto. Tentamos nos apegar a esse sentimento quando crescemos, mas ele começa a desaparecer. Ele escorrega pelas nossas mãos. Existem muitas responsabilidades. Muita pressão. Muita vida a ser vivida interiormente.

Você sabe como é a vida agora, aos 31 anos de idade? 

Você vai de um hotel para um ônibus e de lá para um campo de treinamento. Depois do campo de treinamento para um ônibus e um avião. Do avião você vai para outro ônibus. Do ônibus você vai para um estádio.

Em muitos aspectos, você está vivendo um sonho. Mas em muitos outros, você também é prisioneiro desse sonho. Você não pode sair e sentir o sol. Você não pode tirar as chuteiras e jogar descalço. As coisas vão acontecer de modo a tornar sua vida muito complicada. É inevitável.

Quando você é criança, você tem a sensação de que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem mais coisas. Quando você cresce, percebe que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem a sabedoria de viver a vida.

Quando você conseguir isso no futebol profissional, você terá tudo com que pode sonhar. E para isso você terá que ser extremamente grato. Mas tenho que ser honesto com você, Pelado. Existe apenas um lugar onde você pode ter essa liberdade total. E dura 90 minutos, se você tiver sorte.

Quando você coloca suas chuteiras, não importa se você está jogando na terra em Salto, na grama verde de Nápoles ou na frente de milhões de pessoas em uma Copa do Mundo…Eu quero lembrá-lo das palavras do seu pai.

O que ele sempre te diz, toda vez que você vai jogar?

Eu sei que você sabe disso.

Ele diz: “No momento em que você cruza a linha de cal e entra no campo, é apenas futebol. Nada que acontece fora dessa linha irá ajudá-lo com o que se passa dentro de você. Nada mais existe”.

Se você ouvir essas palavras e realmente acreditar no espírito delas, então, mesmo que a pressão seja imensa, mesmo que você esteja jogando em frente de milhões de pessoas… você sairá do campo e sentirá que está jogando descalço.

Você vai sentir a lama presa nas solas dos seus pés.

Você vai sentir o seu coração batendo e vai correr atrás da bola, como se fosse o maior troféu do mundo. Como se você tivesse jogando pelo sorvete…

Sinceramente,

Edi.

 

 

Uruguai e sua estranha neurose futebolística

Já entrando no clima da Copa da Rússia que começa nesta  quinta – feira, o post de hoje vai falar sobre a relação dos torcedores uruguaios com o maior evento do futebol mundial. Se por aqui no Brasil, estamos meio desanimados com o time canarinho, após o traumatizante 7 a 1 contra a Alemanha, no nosso vizinho Uruguai a situação é bem diferente. A empolgação com a equipe celeste é sempre forte, ainda mais neste ano, após uma ótima campanha nas Eliminatórias.  Outro dia li um artigo do psicólogo, jornalista e escritor uruguaio Agustín Acevedo Kanopa no New York Times em espanhol, e achei muito interessante a análise que ele fez sobre como o torneio afeta os ânimos de toda a população de quatro em quatro anos e sobre o conflito psicológico que a população e também os atletas travam em relação à sua amada seleção.  Resolvi fazer a tradução e compartilhar com vocês, confiram no texto abaixo 😉

Uruguay e su extraña neurosis futebolística

O Uruguai está às vesperas de jogar seu terceiro mundial consecutivo e nós psicólogos estamos preocupados. É uma conversa que temos a cada quatro anos: quando a seleção começa a ir bem, os pacientes se sentem melhor, conectam cabos soltos de seu desejo, são alcançados por pequenas epifanias ou adquirem a coragem para tomar uma decisão a um longo tempo adiada.

Mas, sobretudo, se sentem melhor: melhor com seu país, melhor com seu par, com seu chefe, consigo mesmos. À sombra dessa nova felicidade, nós psicólogos começamos a parecer desnecessários.

Duas empresas de eletrodomésticos de Montevidéu enfrentam uma situação similar. Campanhas publicitárias de ambas anunciam que em cada compra de uma televisão de plasma, se a seleção chega à semifinal, será reintegrado ao cliente a metade do dinheiro. Mas a expectativa é tanta que uma delas (Barraca Europa) estendeu a promoção para todos os produtos que tem a venda, enquanto a outra (Multi Ahorro Hogar) dobrou a aposta e promete cem porcento de reembolso se o Uruguai sai campeão. As vendas não param de crescer.

Pouca, pouquíssima gente acredita que podemos sair campeões. No entanto, quando se trata da seleção, a pessoa aposta por ela como quem joga na Mega Sena: não movido pela certeza ou pela esperança de que vai ganhar, mas pelo medo de descobrir que saíram os números que ela se esqueceu de jogar nessa semana.

Ainda se deixamos de lado a loteria do campeonato, algo mudou nesta última edição. Pela primeira vez, há adolescentes que praticamente não se lembram de ter tentado preencher um álbum Panini sem figuras da Celeste. Com sangue, suor e lágrimas, mas classificados ao fim.

hinchas Uruguai
Imagem: Reprodução Internet

Para os nascidos nos anos 80, a história — ainda a atual — joga com a lembrança traumática dos anos 90, o canibalismo institucional da Associação Uruguaia de Futebol daqueles anos, com problemas contrastantes, dispensas de técnicos, insubordinação de jogadores e campanhas falhas. O gosto amargo de ver um Mundial tendo que torcer por outras equipes.

Há coisas mais estranhas.  Nos descobrimos, pela primeira vez em muitíssimo tempo, classificados com folga, sem termos que sentar naquele incômodo lugar chamado repescagem. Uruguai: praticamente classificado na penúltima data, segundo na tabela de posições durante quase todas as eliminatórias, quase invicto em seu próprio Estádio Centenário, salvo o penoso 4 a 1 contra o Brasil.

É difícil separar as neuroses individuais de uma uruguaice mais ampla  e colectiva, mas uma vez e outra, falando entre a gente —  os torcedores —  acostumava escapar algo: Durante as Eliminatórias estivemos esperando uma catástrofe que nunca chegou.

O começo das Eliminatórias não podia ser melhor: um histórico 2 a 0 frente a Bolívia na altura de La Paz, acompanhado de uma sucessão de surpreendentes goleadas no Centenário. Tudo isso sem Suárez (que cumpria sua longuíssima suspensão após a mordida em Giorgio Chiellini no Mundial passado. O Campeonato seguiu rodada a rodada, o Uruguai se alternava entre o primeiro e segundo lugar. Havia algo suspeito ali. Houve certos momentos de incerteza, como quando a Celeste perdeu três partidas em sequência, mas foi tão grande a colheita na primeira fase, que as reservas davam para três invernos nucleares.

De isso se trata, em definitivo, a neurose: um estranho culto individual que leva a estar o tempo todo encontrando sinais de uma possível desgraça. Porque, em que momento se gesta o gol contrário? O certo é que estas desgraças estão prescritas em jogadas muito mais insignificantes: uma bola mal passada, uma falta erroneamente cobrada na metade do gramado, uma série de segundas bolas perdidas. Inevitavelmente ficamos traçando no ar uma fórmula sinistra.

Agora o que acontece quando esse mesmo medo forma parte do sentir e do estilo de jogo de um país inteiro? Talvez seja uma benção e uma maldição nascida do Maracanaço: O Uruguai se sente mais cômodo sendo aquele país de quem não se espera nada, um boxeador que se encontra preso entre as cordas e os punhos do adversário. Se esta situação não chega, a Seleção dá um jeito de colocar-se em apertos e buscar como um estranho sistema de auto-regulação, a impossibilidade de vencer (e assim se levantar).

Prova de sobra foi o que aconteceu na última Copa: em um grupo dificílimo, formado por Costa Rica, Inglaterra e Itália, o Uruguai estreia com uma derrota de 3 a 1 com a Costa Rica, aparentemente —  o rival mais simples, para logo depois se ver obrigado a ganhar de 2 a 1 da Inglaterra e depois vencer a Itália por 2 a 0.

As confusões em que se mete a seleção são o mesmo combustível que a mantêm funcionando. Uma espécie de vício épico, citado e reinventado a cada passo, ainda quando não parece haver obstáculos à vista.

Por isso, a Celeste sempre leva sua autodestruição atada ao pé, fazendo de seus malabarismos um autêntico estilo. Em tempos regidos pelo paradigma do estilo de jogo espanhol, no qual a posse de  bola é tudo, a Celeste foi uma das pouquíssimas equipes medianamente exitosas que seguiu necessitando desprender-se da pelota,  deixando a outra equipe marcar o ritmo do jogo.

Na arena do trágico, o Uruguai sempre soube rebelar-se frente  a seu destino, mas nunca soube — nunca quis —  escrever-lo. A lista de rivais na primeira fase do Mundial, pela primeira vez, em muito tempo, parece acessível: uma Rússia organizada, mas bastante dizimada em seus partidos de preparação: uma Arábia Saudita volátil, um Egito que volta, depois de muitíssimos anos, liderado por Mohamed Salah.

Há uma frase poderosa no filme “Do crepúsculo ao amanhecer: Eres tão perdedor que nem sequer se das conta quando já tens ganhado”. 

O Uruguai, essa ilha melancólica e ateia em um mar de países cristãos, um dos poucos países com uma maior quantidade de psicólogos por cabeça, mas por outro lado historicamente associado aos primeiros postos de suicídios da região, protagonista de proezas futebolísticas como poucos, enfrenta a possibilidade de poder ganhar sem seu vício épico. De ganhar de forma natural, sem apertar os dentes, ou televisores como prêmio. Será questão de ver o quão prisioneiros somos de nossos próprios mitos,  e de como aprender a traçar nosso destino sem os pés dos outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

Os ninguéns

Um dos meus escritores favoritos em língua espanhola  é o uruguaio Eduardo Galeano. O autor sempre teve uma opinião muito crítica em relação às injustiças fomentadas pelo sistema capitalista, tendo escrito inúmeros textos e até livros sobre o tema.galeano 01  Nessa semana, após acompanhar com tristeza a notícia do desabamento do prédio que abrigava pessoas carentes no Centro de São Paulo,  me lembrei de um dos seus poemas: Los Nadies – “Os ninguéns” – em português. Realmente é lamentável que no Brasil e pelo mundo afora ainda existam tantos ninguéns. 😦

Confira abaixo toda a sensibilidade e perspicácia de Galeano para abordar a questão da pobreza.

Os ninguéns – Eduardo Galeano 

As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Los Nadies – Eduardo Galeano

Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los nadies con salir de
pobres, que algún mágico día llueva de pronto la buena suerte, que llueva a
cántaros la buena suerte; pero la buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni
mañana, ni nunca, ni en lloviznita cae del cielo la buena suerte, por mucho
que los nadies la llamen y aunque les pique la mano izquierda, o se
levanten con el pie derecho, o empiecen el año cambiando de escoba.
Los nadies: los hijos de nadie, los dueños de nada.
Los nadies: los ningunos, los ninguneados, corriendo la liebre, muriendo la
vida, jodidos, rejodidos.
Que no son, aunque sean.
Que no hablan idiomas, sino dialectos.
Que no profesan religiones, sino supersticiones.
Que no hacen arte, sino artesanía.
Que no practican cultura, sino folklore.
Que no son seres humanos, sino recursos humanos.
Que no tienen cara, sino brazos.
Que no tienen nombre, sino número.
Que no figuran en la historia universal, sino en la crónica roja de la
prensa local.

Los nadies, que cuestan menos que la bala que los mata.

Despacito pelas canchas

Sabe aquelas músicas que grudam como chiclete? Que uma vez que você escuta já cola no ouvido? Despacito com certeza se enquadra nesse perfil. Eu particularmente fiquei muito feliz pelo sucesso grandioso dessa música, especialmente por terras brasileiras, afinal, os ritmos latinos, infelizmente, não são tão divulgados por aqui como deveriam, e o hit de Luis Fonsi e Daddy Yankee  está ajudando a popularizar nossa amada e linda língua espanhola,  pelo Brasil e por todo o mundo.

Billboard Latin Music Awards - Show
A canção interpretada  por Luis Fonsi e Daddy Yankee  é a primeira  em  língua espanhola a  conquistar o primeiro  lugar nas paradas mundiais após mais de  20 anos.  Imagem – Reprodução –  Internet.

Despacito é a música latina que  mais ultrapassou fronteiras nos últimos tempos e chegou a  atingir a liderança da Billboard, a principal parada de músicas norte-americanas.  A última música latina a alcançar esse cobiçado posto foi Macarena em 1996.

O sucesso do hit é tão grande, que ultrapassa não somente as fronteiras entre os países, mas também os limites do universo dos espetáculos  e invadiu também o terreno esportivo. Despacito caiu no gosto de inúmeras torcidas de futebol pela América Latina: Torcedores do San-Lorenzo e River Plate da Argentina fizeram uma versão da música para cantar nos estádios.  A torcida do Peñarol também já tem sua variante do sucesso.

E como não podia deixar de ser, a onda chegou também ao Brasil.  Torcidas de Flamengo e Grêmio também já tem  suas versões para o hit.

Bem que a ideia poderia continuar se espalhando pelos arquibancadas né?   A ideia já tem minha torcida 😀

Quebrando tabus

    O Uruguai é um dos países que mais chama atenção no cenário global pelo seu pioneirismo em questões polêmicas como o aborto e a legalização da maconha. Se voltarmos mais no tempo descobrimos que nosso pequeno vizinho foi um dos primeiros também a legalizar o divórcio tema que, por incrível que pareça, era tabu há algumas décadas atrás. Mantendo a tradição de estar na vanguarda, em Montevidéu foi inaugurado em dezembro do ano passado o primeiro museu da Cannabis da América do Sul.  O  intuito é mostrar vários aspectos da planta,  que vão muito além do consumo para recreação.  O museu está localizado em uma casa, quase centenária, no bairro Palermo.

    O projeto ficou a cargo do engenheiro agrônomo Eduardo Blasina.   De acordo com o engenheiro  o que faz realmente a planta ser interessante é a diversidade de usos que ela possuiu ao longo da história:  Serviu de alimento,  forneceu cordas para os caçadores já que o material tem grande resistência, além de ter servido também  para confeccionar vestimentas e também para fazer papel. Atualmente a cannabis está sendo utilizada até mesmo para fornecer materiais para impressoras 3D.

buen uso

    Ao entrar no museu o vistante pode ver cosméticos, pomadas, azeites,  shampoos e também medicamentos feitos a partir da planta. Além de muita informação o local oferece um espaço menos convencional onde se localiza uma espécie de jardim botânico. Nessa área se encontram exemplares de pés de maconha, café, mate, tabaco, muitos frutos nativos e uma coleção de vários cactos. O objetivo é ressaltar também a importância cultural de outras especies populares no país. Por isso será inaugurado um “Mate Bar” para que aqueles que visitem o museu possam provar a típica bebida uruguaia.

    Se você estiver planejando uma viagem à Montevidéu vale a pena incluir esse novíssimo e inusitado museu na sua lista de lugares para conhecer 😉

 

Fonte: Jornal El País – Uruguai

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