E se a Europa tivesse sido conquistada pelos incas?

A última obra do escritor Laurent Binet, um romancista francês de 44 anos, responde uma pergunta que milhões de latino-americanos provavelmente já se fizeram muitas vezes. O que teria acontecido se a América tivesse “descoberto” e colonizado a Europa, e não vice-versa?

Em Civilizações, o escritor imagina um mundo onde um pequeno e bastante plausível acidente na história mudou o rumo do planeta: exploradores vikings, em vez de simplesmente passarem pela costa canadense, são forçados a se estabelecer no continente americano. Quinhentos anos depois, sua herança — na forma de armas de ferro, anticorpos e cavalos — transformou a resposta dos índios Taino, no Caribe, à chegada de Colombo.

No romance, em 1531, é o último rei do império inca, Atahualpa, quem invade a Europa e inicia a colonização do império de Carlos 5º, do sacro império romano-germânico. A BBC News Mundo (serviço da BBC em espanhol) conversou com o escritor francês sobre esse cenário imaginado.

BBC – O sr. é um escritor francês que responde a uma pergunta que os latino-americanos já se fizeram muitas vezes. De onde veio a ideia?

Laurent Binet – A ideia me ocorreu no outono de 2015, depois de ser convidado para a Feira do Livro de Lima. Esse foi o gatilho, porque naquela viagem descobri muitas coisas sobre os índios pré-colombianos, os incas e a conquista de (Francisco) Pizarro (europeu que invadiu e dominou o Peru) que achei muito interessantes.

Depois me deram um livro de Jarred Diamond chamado Guns, Germs and Steel (Armas, Germes e Aço), no qual há um capítulo inteiro sobre Atahualpa e Pizarro. Neste capítulo Diamond quem pergunta por que foi Pizarro quem veio ao Peru para capturar Atahualpa e não Atahualpa quem foi à Europa capturar Carlos 5º.

E foi isso que me deu a ideia. Isso me fez pensar: Por que não? Agora vejo em que condições seria possível que a coisa acontecesse ao contrário. E os elementos da resposta também me foram dados por Jarred Diamond, porque sua teoria é que os incas, os nativos americanos, precisavam de três coisas principais para poder resistir aos espanhóis: cavalos, aço e, acima de tudo, anticorpos.

Os vikings chegaram ao Canadá, mas não se estabeleceram por lá

BBC – Em seu livro,o sr. imagina que para isso bastaria uma pequena mudança na história.

Binet – Exatamente. Eu acredito nos acasos da história. Quer dizer, acho que existem grandes tendências e a história não muda quando você estala os dedos. Mas isso não significa que não haja grandes coincidências. Uma das questões é que os europeus tinham mais animais domésticos do que os nativos americanos. E em contato com esses animais eles ficavam mais expostos aos micróbios. Por que foram os europeus que conquistaram o mundo e não os asiáticos ou os africanos? E talvez a resposta seja por que eles tinham porcos e vacas. Acho que é uma ideia interessante.

Agora, também se sabe que os vikings chegaram ao Canadá por volta do ano mil. Eles chegaram, mas não ficaram. Se eles tivessem ficado, tudo poderia ter sido muito diferente. Portanto, este é o meu ponto de partida: o que aconteceria se Cristóvão Colombo chegasse em Cuba e encontrasse indígenas que tinham cavalos, armas de ferro e 400 anos para se preparar para a chegada de seus micróbios?

BBC – Quando começou a escrever simplesmente se deixou levar pela pergunta e pelo prazer de tentar respondê-la através de um romance, ou também tinha um propósito político?

Binet – Você é sempre político, queira ou não, um texto sempre acaba sendo político. Eu tinha certeza de que seria divertido, e também muito interessante, ter a perspectiva dos derrotados. Há, de fato, outro livro sobre os incas, The Vision of the Vanquished (A Visão dos Aniquilados), de Nathan Wachtel, que explica como os incas viram a chegada dos espanhóis. E esse exercício de inversão foi claramente algo que me interessou e eu queria olhar para externos à nossa própria sociedade. Achei isso tão divertido quanto interessante.

Mas o livro foi construído numa perspectiva um tanto erudita, pois gosto de fazer muita pesquisa. Pensei nisso como um jogo e é por isso que o livro tem o mesmo nome de um jogo de computador: Civilization. O título em francês também é escrito assim, com z, como em inglês, porque é uma referência ao jogo. Tudo que fiz foi colocar no plural. Não é civilização, mas civilizações.

BBC – O sr. descreve uma Europa com poucas liberdades e muitas desigualdades, fragmentada pelas guerras religiosas em 1500. E Atahualpa aproveita esse momento para conquistá-la. Mas o tipo de sociedade um pouco mais justa e igualitária que você oferece aos “levantinos” — como você chama os europeus — é um reflexo da sociedade inca?

Binet – Certamente havia diferenças (entre a sociedade inca e as sociedades europeias). Mas minha intenção não era estabelecer uma hierarquia e dizer que os indígenas eram melhores. Nem os incas, nem os astecas tinham democracias. Eram impérios imperialistas, que de fato estavam em processo de expansão.

É por isso que eu não queria que o modelo de Atahualpa fosse Erasmus (de Roterdã), mas Maquiavel. Porque Atahualpa não era escritor ou poeta, mas chefe de Estado. E como chefe de estado, ele precisava de Maquiavel mais do que de Erasmus. Portanto, suas decisões são pragmáticas.

Se ele ajuda os judeus, os muçulmanos ou os camponeses alemães, e se ele se alinha com a França, é por pragmatismo, o mesmo pragmatismo de Hernán Cortés (espanhol que destruiu o império asteca). No México, Cortés fez algo semelhante: aliou-se a todos os povos indígenas conquistados pelos astecas.

Então para mim é puro pragmatismo, como Cortés e Pizarro. E em um nível estratégico ao longo de meu livro Atahualpa se comporta e raciocina como Cortés e Pizarro. Onde posso encontrar aliados? Bem, entre as minorias oprimidas, foi o que Cortés fez.

E então ele arma uma armadilha para Carlos V, assim como Pizarro fez em Cajamarca para capturar Atahualpa. Sabemos pelos próprios conquistadores que Atahualpa era alguém inteligente, agradável. Mas usando esses elementos eu o torno mais astuto, um pouco como um espelho de Cortés. Na verdade, devo confessar que tenho uma queda por Cortés.

Binet resolveu escrever o livro após uma viagem ao Peru

BBC – Mas então por que os incas e não os astecas? Montezuma teria sido o protagonista se antes de ir à Feira do Livro de Lima você tivesse ido a Guadalajara?

Binet – Pode ser. E fui depois na Feira de Guadalajara. Então sim, a escolha foi um pouco fruto do acaso, mas ao mesmo tempo fico feliz por ter escolhido os incas, porque sua organização econômica e social me parece mais interessante. Então foi um acaso, mas um acaso feliz.

BBC – No livro, há muitos episódios em que o sr. parece inverter o que aconteceu durante a conquista.

Binet – Sim. Por exemplo, o massacre de Toledo (episódio do livro) equivale ao massacre de Cholula nas mãos de Cortés e seus homens, simplesmente transferido para a Espanha.

BBC – Quanto tempo gastou pesquisando e documentando para identificar e compreender todos esses episódios?

Binet – Foram quatro anos de trabalho. Na França, o livro saiu em 2019, então foram quatro anos de trabalho e muitas leituras de todos os tipos. Especificamente sobre os incas, existem muitos livros muito bons em francês, mas uma de minhas fontes mais importantes foi Garcilaso de la Vega, assim como as crônicas da conquista. Pedro Pizarro, primo de Francisco Pizarro, por exemplo, escreveu a história da conquista do Peru, e muitos conquistadores espanhóis forneceram testemunhos muito valiosos sobre os incas.

Na verdade, eles são os únicos, porque não há depoimentos escritos dos próprios incas. Mas Garcilaso de la Vega foi fundamental para me ajudar a entender a organização política, econômica e social dos incas, suas regras e seu sistema de distribuição de terras, que me interessou muito.

BBC – O livro também destaca seu papel de provedor dos mais vulneráveis, como uma versão do Estado de bem estar social primitivo.

Binet – Exatamente. Porque a pergunta que todos me fazem é o que seria diferente na Europa hoje se os Incas tivessem nos invadido? E minha resposta nesse caso foi: teríamos tido seguridade social muito antes.

Armas e cavalos foram uma grande vantagem dos espanhóis

BBC – E o sr. realmente acha que as coisas teriam acontecido assim? Realmente acha que nosso mundo seria muito diferente?

Binet – Acredito que pelo menos não teríamos um sistema capitalista, mas uma economia planejada. Acho que essa seria a principal diferença. E quando se trata de questões religiosas, acho que uma parte significativa da Europa poderia ter adotado o culto do Sol. Mas não tenho certeza se o catolicismo teria desaparecido completamente. Eu ainda gosto de imaginar um mundo no qual os incas invadem a Europa e então os astecas se juntam a eles e, finalmente, os incas e astecas se aliam contra os católicos e os muçulmanos turcos de Suleiman.

E acho que, geopoliticamente, isso também teria reconfigurado muitas coisas em uma época em que, como você bem sabe, a religião era muito instável na Europa. Houve Martinho Lutero, Henrique 8º que criou sua própria igreja na Inglaterra…

Certamente muitas coisas teriam mudado. Mas também não acho que teríamos paz na Terra e democracia depois do século 17, de forma alguma. Acho que as guerras teriam continuado. Só que em vez de igrejas, outros tipos de templos teriam sido construídos, então também teria havido muitas mudanças arquitetônicas, artísticas, etc. Muitas mudanças. Embora até que ponto é algo que não posso saber.

BBC – O sr., como escritor, parece estar brincando com a história. É o que mais te interessa?

Binet – Certamente estou interessado na relação entre história e ficção. Na verdade, todos os meus três romances falam sobre isso, apenas de ângulos diferentes. A questão é confrontar a realidade e a ficção e ver como se relacionam. Às vezes eles se fundem, às vezes eles se rejeitam, às vezes eles se casam, e todas essas possibilidades me interessam. História é certamente minha matéria favorita.

Fonte: BBC Brasil

Os mais ricos pagam mais

No final do ano passado, a Câmara dos Deputados da Argentina aprovou um projeto de lei que cria um imposto “extraordinário” para as pessoas que possuam um patrimônio superior a $ 200 milhões (aproximadamente R$ 13 milhões). O texto final, que foi aprovado por 133 a 115 votos, segue agora para discussão no Senado. A meta do governo argentino é arrecadar até US$ 3 bilhões com um imposto que varia de 2% a 3,5% de acordo com o valor do patrimônio. Ao todo, seriam afetadas entre nove mil e 12 mil pessoas.

Contrária ao projeto, a oposição considera que ele vai retirar investimentos da Argentina. Os governistas, por outro lado, afirmam que esse novo imposto atingirá 0,02% da população do país. O imposto também é defendido pelo atual presidente, Alberto Fernández.

O dinheiro arrecadado com a taxação será 20% destinado para a compra de materiais e instrumentos para a emergência sanitária de covid-19; 20% para investimentos nas pequenas e médias empresas; 15% em programas de desenvolvimento de áreas pobres da Argentina; 20% para bolsas de estudo do Programa de Ajuda aos Estudantes (Progresar); e 25% para programas de exploração e desenvolvimento de gás natural.

Uma ideia interessante para o Brasil copiar, vocês não acham? 🤔

Fonte: ISTOÉ Dinheiro

Paraíso dos livros completa 20 anos

A livraria El Ateneo Grand Splendid, considerada a livraria mais bonita do mundo, completou 20 anos neste último mês de dezembro. No ano 2000, já se insinuava o desaparecimento das grandes salas de cinema nas avenidas de Buenos Aires, pois os telespectadores começavam a mostrar preferência pelos complexos multiplex. Na Avenida Santa Fé, o cinema-teatro Grand Splendid fechou definitivamente as portas em março daquele ano. Mas reabriu alguns meses depois, no dia 4 de dezembro, transformado em livraria.

Um único requisito condicionou a transformação cultural do local fundado em 1919 por Max Glücksman com o intuito de ser a “catedral” do cinema e teatro de Buenos Aires: somente o espaço ocupado pelas 550 poltronas dos espectadores poderia ser modificado, nada mais.

Nada foi mudado. Nem o palco, nem os camarotes, nem os mármores, nem a cúpula pintada pelo italiano Nazareno Orlandi com alegorias pacifistas para o fim da Primeira Guerra Mundial, nem a marquise com figuras gregas que dá as boas-vindas na entrada do local. Ao longo de seis meses, com um investimento de US$ 3 milhões, a cúpula foi restaurada, foram instaladas escadas rolantes e elevadores, camarotes e escadas foram recuperados e a arquitetura e o design originais foram mantidos.

A arquitetura e o design originais foram mantidos.

Essa condição é a chave do sucesso da livraria atual. O Grupo Ilhsa, administrador das instalações localizadas na Avenida Santa Fe 1860, em Buenos Aires, soube aproveitar as particularidades que o espaço oferecia e transformá-lo em local atraente para os visitantes.

Desde então, El Ateneo é um dos passeios quase obrigatórios dos turistas que visitam Buenos Aires. Em tempos normais recebe em média 3.000 pessoas por dia, mais de 850.000 por ano.

Esse espaço arquitetônico único ocupa cerca de 2.000 metros quadrados e seus quatro andares estão divididos em: setor infantil e música (subsolo); livros, jogos, agendas, camarotes de leitura, confeitaria (térreo); livros técnicos e profissionais (primeiro andar); e música clássica e filmes, além de um setor dedicado a eventos e vistas panorâmicas (segundo andar).

Em 2008, a livraria El Ateneo foi eleita “a segunda livraria mais bonita do mundo” pelo jornal inglês The Guardian e em janeiro de 2019, a revista National Geographic a escolheu como “a mais linda do mundo”.

Você que estiver de passeio pela capital argentina, não pode deixar de conhecer esse paraíso dos amantes dos livros e da arquitetura 😉

Fonte: Site Clarín em Português

2020, o ano em que morre um ídolo e nasce uma lenda

No último post do blog em 2020, vamos fazer uma homenagem a uma das maiores personalidades latinas de todos os tempos, que nos deixou este ano: Diego Armando Maradona. O texto a seguir é do poeta gaúcho, Fabrício Carpinejar.

O velório de Maradona

Os argentinos sabem doer. Sabem fazer um morto se sentir importante. Sabem homenagear os seus heróis. Sabem se despedir com música e langor. Sabem expor a paixão de seu sofrimento. Sabem se desesperar. Sabem uivar aos céus, com os lobos de suas lágrimas.

Nunca se testemunhou uma comoção nacional tão grande desde o velório de Evita Perón. Maradona é capaz de superar as duas milhões de pessoas nas ruas de 1952. E isso no meio de uma pandemia. Ele morre e continua jogando futebol, ele morre e continua arrastando multidões para vê-lo. Não é um homem, mas um estádio.

Por mais frio e indiferente que qualquer um seja, não existe como não se arrepiar, mesmo quem não gosta do esporte ou quem cultivava ressalvas sobre o posicionamento político de esquerda do craque ou quem apontava os seus problemas pessoais, como as drogas e seus casamentos acidentados. É uma demonstração monstruosa de fé na eternidade que só é testada com a morte.

Como diz o escritor argentino Roberto Fontanarrosa, “não me importa o que Maradona fez com a vida dele. Eu me importo com o que ele fez com a minha”.

Ele transformou corações, garantiu ao seu povo sofrido e massacrado por golpes militares e sucessivas inflações a possibilidade de ser feliz por noventa minutos. Ele venceu uma Guerra das Malvinas paralela dentro do campo, deixando os adversários ingleses no chão e trazendo uma Copa do Mundo para casa. Ele saiu de um bairro pobre de Buenos Aires, privado de luz, com a eletricidade de suas próprias pernas. E pensar que ele não jogava futebol para se exibir, mas para sobreviver – na infância, disputava campeonatos para conseguir um refrigerante e um sanduíche.

Maradona superou a pobreza através do futebol.

A magia nos gramados começou cedo demais. Não teve tempo de ser adulto. Estreou profissionalmente aos 15 anos – El Pibe de Oro -, com uma inacreditável habilidade de girar e mudar a sua direção e a sua velocidade. Driblou a miséria, enganou sucessivos escândalos, recomeçou sempre. Foi um exemplo de sinceridade passional, com as suas glórias e pecados, não querendo nunca ser um modelo para ninguém. Mantinha a consciência de que custava muito sangue ser Maradona todo o dia.

Dom Diego é a maior celebridade da Argentina de todos os tempos. Nem a política, nem a religião produzirão um ídolo igual.

Na sua lápide, constará: Obrigado, bola!

E a bola responderá: Eu que agradeço, eu não sou a mesma desde que você me amou.

Fonte: Facebook

Natal na Venezuela

A Venezuela é bastante conhecida por suas praias paradisíacas, pelos concursos de Miss Universo, e pelo noticiário político marcado por polêmicas e crises. Mas nossa vizinha vai muito além do que normalmente sai na grande mídia. No mês passado, tive a oportunidade de entrevistar o venezuelano Jésus Arellano, que está cursando o doutorado em Literatura pela UFMG e vive no Brasil já faz um tempo. Durante a conversa, Jésus comenta sobre alguns pontos turísticos muito especiais em seu país, (um em particular bem surpreendente, por se tratar de um país caribenho).

O estudante comenta também sobre como está sendo sua experiência em nosso país e aponta algumas diferenças culturais entre os dois países, como, por exemplo, a comemoração do Natal.

Assista a entrevista e também se surpreenda com essa fascinante Venezuela. Se necessário, ative as legendas automáticas do vídeo 😉

Fonte: Canal EJA – Español no Youtube

Seis motores que podem reativar economia na América Latina pós-pandemia

As marcas deixadas pela pandemia de covid-19 na América Latina  não vão desaparecer do dia para a noite, mas, quanto mais cedo estiverem funcionando os motores da recuperação econômica, maiores são as possibilidades de deixar a crise para trás mais rapidamente.

Na região que contabiliza mais de 11 milhões de pessoas contaminadas pela doença causada pelo novo coronavírus — mais da metade no Brasil — e de 400 mil mortos, as projeções mais recentes apontam para uma queda recorde do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, superior a 9%.

Diante de uma contração dessa magnitude, o desemprego disparou a 11,4% no primeiro semestre deste ano, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O problema, entretanto, é bem mais grave do que parece, porque as cifras da OIT não incluem os trabalhadores informais, que são mais de 50% da força de trabalho na região.

A pergunta que muitos países se fazem agora é como reconstruir a economia diante do aumento da dívida pública e da queda na arrecadação de impostos.

Não há uma receita única que sirva para toda a região.

Ainda assim, pesquisadores da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) propõem alguns caminhos que podem dar um impulso ao que provavelmente vai ser um longo período de recuperação.

“A chave é incluir as dimensões econômica, social e ambiental do desenvolvimento sustentável”, disse à BBC News Mundo, serviço em língua espanhola da BBC, Alice Bárcena, secretária executiva da organização.

Entre os possíveis motores identificados pela Cepal estão as energias renováveis, o setor de transportes, a chamada “revolução digital”, a indústria da saúde, a bioeconomia e a economia circular. Conheça cada um deles a seguir:

1. Uma nova matriz energética

A participação das energias renováveis não convencionais (biomassa, solar, eólica, geotérmica e biogás) na produção de eletricidade na América Latina aumentou de cerca de 4% em 2010 para 12% em 2018.

“Se continuarmos ‘descarbonizando’ (substituindo a energia que tem como subproduto gases poluentes), poderíamos criar sete milhões de empregos em uma década”, aponta Bárcena.

Um fator alentador nesse sentido é o fato de que o investimento estrangeiro na área de energia renovável vem crescendo, principalmente por meio de empresas europeias e, em menor medida, chinesas.

O crescimento estrangeiro em energia renovável cresceu na região nos últimos anos.

No processo de transição para o uso de energia mais “limpa” destacam-se países como Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, na América Central, e, no sul da região, Brasil, Chile e Uruguai.

Na contramão estão México, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, que chegaram a reduzir a participação das modalidades renováveis na oferta total de energia.

2. Mobilidade urbana

A substituição dos veículos que rodam com combustível fóssil tem potencial para criar cerca de 4 milhões de empregos no setor de transportes nos segmentos de operação e manutenção de veículos pesados e outros 1,5 milhão na indústria de veículos leves, de acordo com as estimativas da Cepal.

Ainda que a indústria de carros elétricos seja incipiente, a frota de ônibus elétricos começa a crescer — são cerca de 1,3 mil unidades rodando em 10 países —, especialmente em cidades como Santiago, capital do Chile.

Dois fatores contribuem para o avanço: a redução do custo das baterias, que tornou os ônibus elétricos mais competitivos, e o processo relativamente eficiente de conversão dos veículos convencionais em elétricos, que é barato.

3. A revolução digital

A pandemia acelerou a digitalização em vários países da região e evidenciou a importância da conectividade para o mundo do trabalho, da saúde, da educação e para o comércio.

Enquanto na Europa e nos Estados Unidos cerca de 40% dos trabalhadores empregados conseguem desempenhar suas funções em home office, na América Latina isso só vale para 21,3% dos ocupados.

No campo da educação, por sua vez, quase metade das crianças com idade entre 5 e 12 anos vive em domicílios sem acesso à internet — o que acabou afetando o processo de aprendizagem de muitas delas no período em que as escolas estiveram fechadas.

Na América Latina, cerca de 21% dos ocupados conseguem trabalhar de casa – metade do percentual registrado na Europa e nos Estados Unidos.

O uso de tecnologias digitais também está muito aquém do que se observa em outras regiões quando se fala de cadeia de suprimentos, de processamento e manufatura. Enquanto 70% das empresas nos países da OCDE utilizam internet em sua cadeia de abastecimento, na América Latina a cifra chega a apenas 37%.

Por isso, especialistas afirmam que os países latino-americanos devem se preparar para a indústria do futuro, especialmente formando mão de obra qualificada, com as novas habilidades que essas tecnologias demandam.

4. A indústria da saúde

Essa é uma área que engloba diferentes segmentos: a indústria farmacêutica, a fabricação de medicamentos e equipamentos e pesquisa e desenvolvimento.

São setores que costumam criar empregos com boa remuneração, que facilitam o progresso técnico e que, por isso, podem ajudar a dinamizar a economia.

Com a chegada da pandemia de covid-19, as grandes corporações estão mudando suas estratégias para reduzir os níveis de risco de quebra suas cadeias de abastecimento, ainda que isso signifique maior custo de produção.

A bioeconomia inclui desde agricultura até a produção de bens biotecnológicos, como vacinas e métodos diagnósticos.

Na prática, algumas empresas têm tentado levar parte da produção para mais próximo de seus mercados consumidores, o que pode beneficiar países da América Latina, especialmente se a região oferecer alternativas na área de produção.

5. A bioeconomia

O potencial da bioeconomia ficou ainda mais evidente com a pandemia. Essa é uma área que busca agregar valor a recursos biológicos de maneira sustentável — e é uma das que tem se beneficiado nesses tempos de crise sanitária.

Ela inclui desde a agricultura e a produção de alimentos à fabricação do produtos biotecnológicos como vacinas, métodos diagnósticos e de tratamento.

6. A economia circular

Se a economia linear se baseia em produzir, consumir e eliminar, a circular busca um outro caminho: reciclar e reutilizar os produtos em vez de descartá-los.

Um dos seus fundamentos, portanto, é reduzir a geração de resíduos e as emissões de dióxido de carbono para resguardar o meio ambiente.

A Cepal vê uma oportunidade para que a região aposte nessa área por meio de segmentos como a gestão de resíduos sólidos domiciliares, do lixo orgânico a plásticos e eletrônicos.

Retorno aos níveis pré-crise

Segundo os cálculos da Cepal, caso a América Latina crescesse à taxa média observada na última década, de 1,8%, voltaria ao patamar observado antes da crise causada pela pandemia em 2024.

Se o ritmo fosse o dos últimos 6 anos, de apenas 0,4%, o retorno ao nível pré-crise não chegaria antes da próxima década, acrescenta Bárcena.

Boa parte do futuro da economia da região dependerá de fatores como a evolução da pandemia, o ritmo de recuperação do mundo como um todo, o preço das matérias-primas e os recursos disponíveis no mercado e nos organismos internacionais para financiar o crescimento, além da vontade política de cada governo.

Fonte: BBC Brasil

Árvore mapuche é aposta de vacina contra o novo coronavírus

A boa notícia de hoje na luta contra a pandemia vem dos Andes: Uma empresa chilena de biotecnologia se encontra atualmente na vanguarda mundial da corrida por uma vacina contra a covid-19. Como princípio ativo, os pesquisadores da Desert King utilizam uma substância extraída da casca e da madeira de uma árvore nativa chamada quilaia. Essa substância é usada na imunização que está sendo desenvolvida pela farmacêutica americana Novavax.

Em setembro, a Desert King anunciou que a vacina entrou na fase 3 de testes, tornando-se assim uma das onze pesquisas a alcançarem tal etapa no mundo inteiro. Até 10 mil voluntários com idades entre 18 e 84 anos deverão participar do estudo.

O diretor administrativo da Desert King, Andrés González, acredita que a empresa farmacêutica poderá começar a produzir as doses da vacina já no início de 2021, após a conclusão do estudo de fase 3. Contudo, não é possível prever atualmente quando uma imunização contra o coronavírus estará de fato disponível e como sua distribuição será regulada.

Também conhecida como árvore de casca de sabão, a quilaia (Quillaja saponaria) contém em sua casca cinza e rachada compostos chamados saponinas – tensoativos naturais à base de plantas, ou seja, substâncias semelhantes a sabão que, ao entrarem em contato com a água, desenvolvem uma espuma estável. As saponinas diminuem a tensão superficial dos líquidos e podem ligar substâncias que normalmente se repelem, como água e gordura.

Algumas dessas saponinas têm ainda uma propriedade adicional que entra em jogo no desenvolvimento de uma vacina. “A vacinação é composta por dois elementos: o antígeno e o chamado adjuvante”, explica González. “O antígeno ativa as defesas do próprio corpo, enquanto o adjuvante transporta o antígeno para as células. Além disso, essa substância aumenta a resposta imunológica do corpo.”

A Desert King examinou as diferentes propriedades das cerca de 50 saponinas da quilaia e identificou duas substâncias capazes de atuarem como adjuvantes: QS7 e QS21. “Já estamos produzindo quantidades industriais de saponinas de quilaia para Novavax”, disse González.

Sabedoria indígena

Desde o século 17, o povo indígena mapuche, nativo do Chile, conhece as propriedades curativas da casca e das flores do Küllay, como eles chamam a árvore. A espécie pode atingir 20 metros de altura e ter um tronco de até 1,5 metro de diâmetro.

Entre suas folhas sempre verdes e lisas como o couro, escondem-se pequenas flores branco-amareladas em forma de estrelas. A quilaia floresce de outubro a janeiro e fornece um mel aromático durante esta época. Com suas cinco pontas, as cápsulas das frutas lembram o anis estrelado.

Na medicina mapuche, o extrato da casca é tradicionalmente utilizado como expectorante em casos de doenças respiratórias. Uma infusão ou tintura alcoólica de suas flores também é usada para tratar doenças reumáticas, enquanto o extrato de sua casca pode ajudar contra doenças estomacais.

Graças às suas propriedades saponáceas, a casca foi usada como xampu natural no passado. Hoje, a substância espumante também é usada na indústria alimentícia, por exemplo, na produção de cerveja e outras bebidas.

Uso sustentável da quilaia

A quilaia é uma árvore adaptável e de cultivo fácil, capaz de crescer mesmo em solo árido e nas encostas de montanhas. “Mas a espécie está sofrendo as consequências das mudanças climáticas”, observa o silvicultor René Carmona, da Universidade do Chile, em Santiago. “As secas que o Chile sofreu nos últimos dez anos danificaram sobretudo as árvores nas encostas”.

Os produtores de saponina de quilaia no Chile valorizam muito o manejo sustentável das árvores, limitando-se a podá-las e não derrubá-las. “A poda direcionada das árvores ajuda a garantir que elas tenham menos biomassa e, consequentemente, necessitem de menos água para que possam enfrentar melhor a seca”, explica González.

Agora ainda falta convencer a população sobre a importância de proteger as quilaias, diz Carmona. Nisso, a comercialização do princípio ativo da árvore pode desempenhar um papel importante. “O fato de uma empresa farmacêutica internacional usar essa substância no desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19 nos ajuda a demonstrar o valor dessa árvore. Esperamos que isso leve a uma mudança de mentalidade e que as pessoas não continuem convertendo a quilaia em lenha de maneira negligente”, acrescenta.

Fonte: Site DW.com

Saiba quais localidades votaram pela continuidade da Constituição de Pinochet no Chile

Com fogos de artifício, bandeiras e a esperança em um novo começo, dezenas de milhares de chilenos festejaram nas ruas o resultados do histórico plebiscito realizado no dia 25 de outubro deste ano.

Uma esmagadora maioria de quase 80% dos eleitores votaram no “aprovo”, que permitirá a substituição da Constituição herdada da ditadura comandada por Augusto Pinochet.

Mas em cinco dos 346 distritos do país, o sentimento predominante depois do domingo não deve ter sido de alegria, já que neles — Vitacura, Las Condes e Lo Barnechea, todas na região metropolitana de Santiago; Colchane (Tarapacá) e La Antártica (Magallanes) — a maioria dos eleitores votou para manter o status quo.

Mas o que os cinco distritos onde o “rejeito” venceu têm em comum?

“Dos cinco, dois são muito particulares”, explica Carmen Le Foulon, pesquisadora do Centro de Estudos Políticos, à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

“A Antártica é uma base científica [com a presença do exército] e o número de votos é muito pequeno: votaram 31 pessoas. Já Colchane faz fronteira com a Bolívia e também é pequena (teve 505 votos)”, diz Le Foulon. Os outros três, no entanto, são muito mais significativos, concordam os especialistas consultados pela BBC News Mundo.

Riqueza e educação

Para começar, Las Condes, Vitacura e Lo Barnechea pertencem à região metropolitana de Santiago, a capital chilena.

As três concentram mais de 400.000 habitantes (de um total de 7,1 milhões em toda a região e 18,7 milhões no país) e estão localizadas lado a lado, no nordeste da cidade.

Mas não é só isso.

“Elas são as que concentram a maior riqueza e o maior nível educacional”, diz Rodrigo Pérez Silva, professor assistente da Universidad Mayor e pesquisador em economia urbana.

“Essa votação reflete essa divisão. Não só que 80% do país é a favor de fazer mudanças e há uma parcela de 20% que resiste, mas além disso: esse voto contrário está superconcentrado em uma única parte do país, em três comunas da região metropolitana onde estão o poder político e econômico. Onde estão as elites.”

Uma única exceção a esse padrão homogeneizado é Lo Barnechea, dentro do qual há grandes desigualdades socioeconômicas — com partes muito ricas, tal como La Dehesa, e outras muito pobres, como Cerro 18.

No total, esses três distritos somaram 166.544 votos “rejeito”, compondo 10,2% segundo o cômputo final do Serviço Eleitoral do Chile.

“Há dois universos aqui”

A atual Constituição do Chile foi aprovada em 1980 e para muitos está na base das desigualdades do país, promovendo a privatização dos serviços básicos e atribuindo ao Estado um papel residual.

O triunfo do “aprovo” é interpretado por muitos como a vitória das reivindicações cidadãs que eclodiram nos protestos de outubro de 2019 e que desde então pedem mudanças estruturais e profundas.

A própria convocação de um plebiscito foi anunciada em novembro de 2019, após 28 dias de grandes protestos em um dos países mais desiguais da América Latina.E na capital, Santiago, essa desigualdade se traduz em uma inegável segregação social e geográfica.

“Há dois universos aqui. Tudo funciona de maneira diferente e as pessoas não se misturam. Ninguém quer fazer muitas mudanças”, disse à BBC News Mundo S.L., uma mulher de 40 anos que nasceu, foi educada e vive em Vitacura.

Nesta comuna, o percentual de pessoas em lares sem condições básicas, como rede de esgoto e água, é de 0,5%, contra 8,3% em média na região de Santiago ou 14,1% em todo o país, segundo dados compilados pela Biblioteca do Congresso Nacional do Chile.

Se falarmos da pobreza “multidimensional” — que considera diferentes problemas de acesso a direitos, como na saúde e educação —, os dados são ainda mais contundentes: 3,48% contra a média de 20,7% no Chile.

E ainda que a moradora de Vitacura entrevistada pela BBC News Mundo tenha ela votado em “aprovo”, ela teve dúvidas e percebeu que em seu entorno social e profissional todos votaram contra uma nova Constituição.

“Hesitei porque comecei a ver o que aconteceu em outros processos constituintes da América do Sul. Nenhum país melhorou depois”, explica.

Segundo ela, nestas comunas existe o receio do discurso de refundação, da “perda de privilégios e da incerteza”. Além disso, as mudanças foram vinculadas à violência ocorrida nas manifestações.

“Destruíram a cidade. Talvez fosse necessário, mas agora continuamos com manifestações violentas e panelaços todos os dias.” Ela destaca também a preocupação das pessoas que conhece com mudanças no regime de “propriedade privada e do sistema tributário, que tem a ver com as aposentadorias”.

“Não tem tanto a ver com esquerda e direita, mas com propriedade e riqueza”, conclui.

Manifestações que ocorrem no Chile desde outubro de 2019 motivaram plebiscito sobre nova Constituição. GETTY IMAGES

Com isso, concorda Patricio Fernández, jornalista e autor de Sobre la marcha, livro que escreveu após observar de perto a eclosão social que se iniciou em 2019.

“Isso é politicamente transversal”, disse Fernández à BBC News Mundo.

“A eclosão social tem muitas leituras e ingredientes, mas eu diria que há uma coisa muito evidente — a manifestação ou ilusão de uma cidadania emergente que questiona sua relação justamente com as elites, com os governantes.”

E, segundo Pérez Silva, os resultados do plebiscito são uma “interpelação” justamente à elite que se recusa a perder seus privilégios para que haja uma “redistribuição de riquezas, oportunidades, educação, saúde, pensões etc…”

Um estudo recente realizado pela organização Círculo de Directores e pela empresa de análise de dados Unholster indicou que pessoas consideradas parte da “elite” do país — acadêmicos, empresários, figuras públicas —subestimam as desigualdades econômicas e de oportunidades que as separam das classes mais baixas.

“Membros da elite pensavam que pessoas das comunas pobres ou médias tinham plano de saúde — e não há nada mais longe da realidade do que isso”, apontou Antonio Díaz-Araujo, gerente geral da Unholster.

Esse padrão também foi observado em questões como valores de propriedade ou níveis de educação.

“E os votos só confirmam que a distância (entre a elite e o resto da população) é brutal”, finaliza Díaz-Araujo.

Fonte: BBC News Brasil

Entenda como o partido de Evo Morales conseguiu retornar ao poder na Bolívia, contrariando as pesquisas

O Movimento ao Socialismo (MAS), partido do ex-presidente Evo Morales, está de volta ao poder na Bolívia com Luis Arce, que ganhou a eleição presidencial no primeiro turno, algo que as pesquisas não apontavam.

Mas o que explica o triunfo da sigla pouco menos de um ano após Morales deixar a cadeira de presidente e o país, após acusações de fraude eleitoral?

Neste vídeo, Adriano Brito, da BBC News Brasil, mostra como o histórico econômico do país sob o MAS, a impopularidade do governo interino, alvo de acusações de corrupção, a pandemia de coronavírus e a base eleitoral fiel a Morales podem estar entre os motivos.

Fonte: BBC News Brasil

Maradona, by Kusturica

No último dia 30 de outubro, o maior craque de futebol da Argentina, e um dos maiores do mundo em todos os tempos, completou 60 anos. Para homenagear este gênio indomável, o blog indica hoje um dos melhores materiais já feito sobre ele, o documentário: Maradona by Kusturica.

O filme dirigido pelo sérvio Emir Kusturica mergulha na intimidade do astro e nos faz conhecer melhor Diego. O diretor estabelece uma amizade com o Pibe de Oro, e dessa forma, as entrevistas selecionadas para o filme, são muito espontâneas. O astro comenta sobre as dificuldades que viveu na infância, seu senso de justiça social, sua predestinação a ser uma estrela do futebol, além de relatar suas maiores culpas e arrependimentos.

Kusturica nos mostra todo o carisma de Maradona e sua genialidade em campo, além de ressaltar seu lado humano, naturalmente fragilizado. Você vai se divertir ouvindo as histórias sobre o famoso gol com “La Mano de Dios” e com os rituais da Igreja Maradoniana.

A trilha sonora também é uma delícia, 🎼 click abaixo para conferir o filme e não deixe de ativar as legendas 😉

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