A hora e a vez dos perdedores

Qual cidadão comum, trabalhador,  honesto, pagador de impostos,  que nunca se sentiu fazendo papel de bobo em algum momento da vida? Pra quem nasceu em países marcados pela corrupção e desigualdade social como o Brasil então,  essa sensação é bem frequente. O novo filme de Ricardo DarínA Odisséia dos Tontos” (La Odisea de los Giles) faz uma homenagem a essas pessoas que são, sem dúvida, maioria no mundo.  

A produção é uma adaptação do livro de Eduardo Sacheri (La Noche da la Usina) que venceu o prêmio Alfaguara em 2016.  Dirigido por Sebastián Borensztein, o filme é um terno e divertido retrato dos perdedores que se vingam das injustiças cometidas por um bando de desalmados. A película tem um sabor especial para Darín, já que é a primeira vez que ele contracena com o filho Chino nas telonas.

O enredo do filme se passa no ano de 2001, época em que a Argentina passou pela maior crise econômica de sua história. O governo local havia implementado o corralito, medida que impedia que as pessoas que tivessem dinheiro em bancos pudessem sacar suas economias. Algo semelhante ao que ocorreu no Brasil, anos antes, no governo Collor.

Imaginem só o desespero que deve ter tomado conta da população que de um dia pro outro foi privada de utilizar recursos que eram próprios por direito.  O corralito, como é fácil de presumir, chegou a causar até mesmo mortes.   Um dos casos mais emblemáticos no país foi o do jornalista esportivo Horacio García Blanco, morto, aos 65 anos, seis meses após o ex-presidente Fernando de la Rúa impor as restrições.

García Blanco, que sofria de diabete e pressão alta, entrou na Justiça para tentar liberar suas poupanças e usar o dinheiro para viajar à Espanha. Com cidadania argentina e espanhola, pretendia fazer um transplante de rim em Madri, onde a operação era mais difundida.

“Havia uma exceção no corralito que permitia que idosos e doentes sacassem suas economias”, conta a advogada e amiga do jornalista, Mónica Alicia Damuri. A Justiça, porém, liberou apenas 10% do dinheiro que García Blanco tinha, volume insuficiente para bancar a viagem. Mónica recorreu, mas ele morreu de insuficiência renal antes de uma nova decisão. “O corralito era inconstitucional. Violava o direito à propriedade”, destaca, indignada, a advogada.

Conhecido nacionalmente por comentar, na rádio, lutas de boxe e partidas de futebol, o jornalista morou o último ano de sua vida na casa de Mónica. Era o marido da advogada que buscava García Blanco diariamente das sessões de hemodiálise. “Quem conheceu Horacio de perto viu como o corralito foi prejudicial”, diz a advogada.

corralito
O congelamento dos saques nos bancos (corralito) levou milhares de argentinos a protestarem.

Para homenagear a todos os que sofreram com essa medida devastadora e também para não deixar que ela caia no esquecimento Ricardo e Chino Darín, além de atuarem, também produziram La Odiseia de Los Giles. Na Argentina chamam de gil àquelas pessoas trabalhadoras, boas, iludidas e um tanto ingênuas. Ricardo e seu filho não têm dúvidas: “Nós também somos um pouco giles. A maioria dos cidadãos do mundo é assim, porque sempre confiamos”, explicam os dois atores argentinos quase em dueto.

O filme nos faz relembrar a história de milhares desses cidadãos “trouxas” que  se viram enganados e esmagados pelo corralito.  Ricardo e Chino lideram um elenco poderoso em que se destaca a presença de Luis Brandoni. O longa se tornou o último grande sucesso de bilheteria da Argentina, que o escolheu para representá-la no Oscar. Esta fábula sustentada na realidade, que narra a vingança de um grupo de pessoas diante da fraude que sofreram, estreou no Brasil no dia 31 de outubro.

Em um encontro com o Jornal El País durante o Festival de Cinema de San Sebastian, onde A Odisseia dos Tontos foi apresentado na Seleção Oficial, Ricardo e Chino Darín estavam felizes, muito além da celebração de seu primeiro duelo interpretativo na tela. Também como produtores, estão diante de um projeto sonhado por muitos anos, no qual compartilham o trabalho com alguns dos melhores atores argentinos, orgulhosos de dar voz e vida a tantos cidadãos que foram afetados pelo corralito, um dos episódios mais traumáticos vividos pela Argentina em anos recentes.

“Somos tão domesticados, tão acostumados a obedecer e seguir a corrente de uma sociedade de consumo que às vezes esquecemos quais são os nossos direitos. Nunca se deve baixar a guarda na defesa dos direitos. Os abutres sempre estão à espreita para se aproveitar de pessoas crédulas, ingênuas e decentes. Essas pessoas que trabalham e que movimentam o mundo”, diz Ricardo.

“Não sei se desfrutei tanto quanto agora quando o vejo”, confessa Chino Darín sobre o trabalho com o pai. “Fiquei um pouco abalado pelo papel de produtor e pelo que significava trabalhar com meu pai. Comecei com um nível de tensão e responsabilidade de que me livrei depois”.

O que é verdade é que para mim foi um grande privilégio”, acrescenta, ante o olhar brilhante de Ricardo, que intervém: “Em uma cena compartilhada, se dois não querem, um não pode. É assim simples. O ator depende muito do que o outro nos deixa, do que nos entrega, da generosidade. É assim que a energia circula. Quando fomos capazes de nos liberar dessa enorme responsabilidade que tínhamos como produtores e focar no trabalho como atores, a sensação que tenho é que nos ajudamos muito.”

darins
Pai e filho contracenaram juntos pela primeira vez na “Odisseia dos Tontos”.

 “A Odisseia dos Tontos” te faz mergulhar na lama para depois te resgatar. Não evita a dor, mas te faz lembrar dela. Há no filme a intenção de dessacralizar, lutar pela memória, de voltar a recordar uma situação tão trágica como a crise econômica. “Estava na hora de os mocinhos vencerem alguma vez”, proclama Chino. “O melhor é como os espectadores pegaram essa história para si.

Acho que o fator preponderante em tudo isso é que tem a ver com uma certa reparação emocional para todos aqueles que sofreram aquele desastre ou os que o viveram de maneira colateral. Tem algo de bálsamo”, diz Ricardo Darín. “Foi uma época que, apesar da amargura e do sentimento de injustiça permanente, fez disparar a imaginação de milhares de cidadãos diante da impotência”, acrescenta Chino.

Pai e filho falam, se interrompem, dialogam, olham um para o outro. “É preciso falar da dor, trazê-la para fora. Na Espanha, vocês sabem disso bem com o tema da memória histórica. Fazer uma catarse coletiva. Só assim é possível enfrentar o futuro. Nós argentinos sabemos bem. Fazemos a grande ginástica para passar por crises, sobreviver a elas e voltar a renascer.”

Se você ainda não viu, não deixe de prestigiar a esses corajosos “giles” nos cinemas, afinal a vingança é um prato que se como frio não é mesmo? 😎

Fontes: El País Brasil e Portal Terra

 

Bolsonaro boliviano? Saiba quem é a nova figura que surge em meio à crise no país vizinho

Figuras polêmicas, que misturam política com religião, infelizmente não são exclusividade do Brasil. Na recente crise que atinge a Bolívia um novo personagem desses surgiu no cenário tumultuado do país. Se trata de Luis Fernando Camacho, chamado também de Bolsonaro boliviano.

Pouco conhecido há seis meses, Camacho se transformou em um dos líderes da direita que pressionou Evo Morales até a renúncia. Por outro lado, o político, que sempre fala “em nome de Deus”, tem sido chamado de fascista, fundamentalista e preconceituoso. Seis meses atrás, esse líder da oposição de 40 anos, não era muito popular, mas hoje ele é um dos principais protagonistas da mobilização que forçou a renúncia de Evo Morales.

Nas eleições, que tiveram denúncias de fraudes a favor de Evo, Camacho não se candidatou. No entanto, ele conseguiu entrar no antigo Palácio do Governo, em La Paz, e depositou uma Bíblia em cima da bandeira boliviana alguns minutos antes do anúncio da renúncia do presidente.

Evo
Evo Morales, que estava na presidência desde 2006, renunciou após ser pressionado pelas Forças Armadas. Imagem Reprodução Internet.

Gestos como esse e suas constantes menções ao “poder de Deus” não passaram despercebidos no país, e, em meio a uma enorme crise política, Camacho já foi chamado de “Bolsonaro boliviano”, em referência ao presidente do Brasil e seus discursos de cunho religioso. Camacho é um político que diz não fazer política. Conservador e ao mesmo tempo carismático, ele é proveniente das elites empresariais. Toda vez que se dirige às multidões que o apoiam, ele faz uma “oração ao Todo-Poderoso”.

“O presidente”

Camacho atua como presidente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, uma entidade que, na cidade mais populosa da Bolívia, Santa Cruz de la Sierra, é chamada de “governo moral”. Nos últimos anos, a cidade se transformou em uma espécie de quartel-general da oposição a Evo. Durante as últimas três semanas de protestos em todo o país, o líder da oposição foi apresentado em Santa Cruz como “o presidente”.

Filho de empresários, o esforço de Camacho para obter reconhecimento nas instituições de Santa Cruz foi rápido, assim como sua irrupção no cenário nacional. Em sua última aparição na cidade, em um dos vários conselhos organizados contra Evo Morales, Camacho entrou em cena acompanhado de uma imagem da Virgem Maria e com uma cruz como pano de fundo.

Os comitês cívicos da Bolívia reúnem diferentes setores das principais cidades do país, incluindo empresas, sindicatos e comunidades. Essa oposição centralizada em Santa Cruz foi uma constante dor de cabeça para Morales em seus 13 anos, nove meses e 18 dias de mandato.

O mais radical

Quando as eleições na Bolívia começaram a ser questionadas por múltiplos setores da sociedade, o ex-presidente e candidato Carlos Mesa era considerado o principal nome do meio político para mobilizar a oposição a Evo. A princípio, todos os grupos bolivianos de oposição e detratores de Evo se alinharam com a reclamação de Mesa sobre possíveis fraudes nas eleições.

Na noite do pleito, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu a transmissão da contagem dos votos com 83% das urnas apuradas, quando o resultado indicava segundo turno entre Morales e Mesa. No dia seguinte, o sistema de contagem de votos, chamado Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares (TREP), foi subitamente reativado com 95% das urnas apuradas, indicando uma vitória apertada de Morales já no primeiro turno.

As suspeitas suscitadas pela interrupção da divulgação da contagem dos votos e a súbita guinada na tendência do resultado levaram a oposição a denunciar uma “fraude escandalosa”. Até as missões de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia pediram um segundo turno das eleições presidenciais.

Enquanto parte da oposição pedia um segundo turno, Camacho aumentou a aposta. O líder civil passou a reivindicar a renúncia de Evo. Muitos nomes da oposição, incluindo apoiadores de Mesa, criticaram o “radicalismo” de Camacho, acreditando que seria impossível pressionar Evo até uma renúncia.

Uma cruz em La Paz

Após o ultimato e a elaboração inédita de uma carta de demissão “para Evo Morales assinar”, Camacho anunciou que chegaria a La Paz para entregar o documento ao governo. Quase três dias de suspense cercaram a tentativa do líder da oposição até que ele finalmente pousou na capital.

Milhares de pessoas o receberam no aeroporto na quarta-feira e, um dia depois, ele foi a estrela de cenas raramente vistas na história da Bolívia. Camponeses, produtores indígenas e produtores de coca receberam Camacho e o aplaudiram de forma entusiasmada. Santa Cruz de La Sierra historicamente desempenhou um papel de contrapeso político contra o povo de La Paz, cidade mais ligada a Evo. Esse antagonismo causou atritos regionais que marcaram a agenda do país em mais de uma ocasião.

Dessa vez, e apesar de seu discurso conservador, Camacho abraçou mulheres e aceitou um colar feito com folhas de coca. Por outro lado, o apelido que ele recebeu de grupos de apoio, “Macho Camacho”, acabou sendo repudiado por organizações sociais e coletivos feministas, que o chamam de misógino e ultradireitista.

Camacho Biblia
Camacho tem um discurso com forte teor religioso. Imagem  Reprodução Internet.

Bolsonaro boliviano

“Como outros representantes da nova direita regional, como o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, Camacho usa um discurso com forte teor religioso”, diz a jornalista Mariela Franzosi. Em uma análise sobre Camacho, ela afirma que o líder usa “um discurso que, embora tente associar à paz e unidade do povo boliviano, acaba sendo repleto de racismo, ódio de classe e provocações”.

Julio Cordova, sociólogo boliviano especializado em movimentos evangélicos, disse que Camacho “legitima sua posição autoritária com o discurso religioso no estilo Bolsonaro”. O pesquisador argumenta que o líder civil é “uma expressão da direita protofascista boliviana”.

Em seu momento de vitória, minutos após a renúncia de Morales, ele voltou a mostrar um crucifixo nas mãos. Camacho diz que não será candidato à Presidência e que, quando terminar sua liderança no âmbito civil, ele retornará aos seus negócios particulares. Mas, neste momento na Bolívia, é difícil esconder que um novo líder popular de direita surgiu às margens da esquerda que governou o país por 13 anos…

Fonte: Portal UOL

Jogadores da seleção chilena cancelam partida em apoio aos protestos por maior justiça social no país

Os jogadores da seleção chilena de futebol mostraram estar atentos e solidários perantes às reivindicações e protestos que sacodem o país há semanas. Apesar de serem atletas de alto nível e por essa razão não terem dificuldades financeiras, os ídolos de La Roja demostraram ter uma grande empatia em relação às camadas menos favorecidas do país.  Eles decidiram não entrar em campo no amistoso contra o Peru, marcado para a próxima terça-feira. Na tarde desta quarta, a Federação de Futebol Chilena anunciou que a partida não ocorreria por escolha dos atletas, e que o técnico Reinaldo Rueda já havia liberado os convocados para seus respectivos clubes.

“Os jogadores convocados para a seleção principal do Chile decidiram não disputar o amistoso internacional contra o Peru, programado para a próxima terça (19) em Lima. A decisão foi tomada pelo grupo após uma reunião realizada nesta manhã no Complexo Juan Pinto Durán. O técnico Reinaldo Rueda liberou imediatamente todos os jogadores, que já estão à disposição de seus clubes. A Federação Chilena já comunicou a situação à Federação Peruana”, diz a nota.

Um dos principais nomes da equipe, o volante Arturo Vidal manifestou-se sobre a decisão do grupo em sua conta no Instagram.

Vidal
Arturo Vidal, um dos ídolos da equipe, comunicou a decisão de não jogar o amistoso em uma rede social. Imagem Reprodução Internet.

“Como equipe, nós tomamos a decisão de não jogar o amistoso marcado com o Peru, em atenção ao momento social que vive nosso país. Somos jogadores de futebol, mas, antes de tudo, pessoas e cidadãos. Sabemos que representamos um país inteiro e, hoje, o Chile tem outras prioridades, muito mais importantes do que o jogo da próxima terça”, explicou o jogador, atualmente no Barcelona.

O volante ressaltou que os jogadores apoiam os protestos, sem ações violentas tanto de manifestantes quanto do Estado. Acrescentou também que o grupo considera, ainda, que a batalha mais importante que os chilenos enfrentam neste momento é a de viver em um país mais justo para todos.

“Temos uma partida mais importante que é a da igualdade, a de mudar muitas coisas para que todos os chilenos vivam em um país mais justo”, avaliou.

Apoio dos jogadores aos protestos

Em outubro, outros ídolos do futebol chileno já haviam manifestado apoio aos protestos que ocorrem no país, iniciados a partir do anúncio de um aumento na tarifa do metrô. Entre eles, estão o goleiro Claudio Bravo, o capitão da seleção, Gary Medel, os atacantes Alexis Sánchez e Pinilla, o meia Jorge Valdivia ex- Palmeiras  e a goleira Christiane Endler, finalista do prêmio de Melhor do Mundo da Fifa na posição em 2019.

Uma das principais pautas dos protestos  é a crítica ao aumento da desigualdade social. Nos últimos anos, o Chile era visto como um modelo da aplicação de políticas neoliberais  na América do Sul, tendo adotado como uma das principais medidas as privatizações.

“Eles venderam à iniciativa privada nossa água, eletricidade, gás, educação, saúde, aposentadoria, remédios, estradas, florestas, o Salar de Atacama, as geleiras, o transporte. Algo mais? Não é muito? Não queremos um Chile de alguns poucos, queremos um Chile de todos. Chega”, escreveu Bravo no Twitter.

Nesta terça-feira, o volante Charles Aranguiz já havia pedido o cancelamento do amistoso em entrevista à imprensa local. “O ambiente está difícil. Minha opinião é que não deveria ter jogo, para respeitar o que está acontecendo no país”, disse.

Chile muchacha
A onda de protestos no país abarca pessoas de todas classes sociais. Imagem Reprodução Twitter

Confira a carta publicada por Vidal na íntegra:

“Para toda a opinião pública, especialmente os torcedores:

Como equipe, nós tomamos a decisão de não jogar o amistoso marcado com o Peru, em atenção ao momento social que vive nosso país. Somos jogadores de futebol, mas, antes de tudo, pessoas e cidadãos. Sabemos que representamos um país inteiro e, hoje, o Chile tem outras prioridades, muito mais importantes do que o jogo da próxima terça. Temos uma partida mais importante que é a da igualdade, a de mudar muitas coisas para que todos os chilenos vivam em um país mais justo.

Apoiamos as manifestações, mas sem violência e sem feridos, tanto do lado dos manifestantes como das forças policiais. O Chile precisa de paz, mas também que não sejam esquecidas as demandas que originaram esse movimento.”

Fonte: Jornal Extra

Violência, um agente sempre protagonista na Bolívia

Temos acompanhando atentos os últimos acontecimentos políticos na nossa vizinha Bolívia. A renúncia do presidente Evo Morales, após ser pressionado por militares, depois das acusações de fraude nas últimas eleições, desencadeou uma onda de violência por todo o país.

Infelizmente esse clima hostil não é novidade por lá, pelo contrário, já há séculos que a violência faz parte do cenário político nesta nação. Conheça um pouco desse lado triste da história boliviana e saiba como atos selvagens marcaram o passado e o presente no país.

Fonte: BBC News Brasil

Peronismo, muito além de um movimento

Mesmo que você não seja muito ligado em política, provavelmente já teve ter ouvido falar no peronismo. O termo se refere ao movimento político que surgiu na Argentina durante a década de 1940 quando Juan Domingo Perón atuava no governo argentino. O sucesso da política peronista garantiu-lhe popularidade para ascender à presidência do país e consolidar sua política. Por ter promovido a transformação e a qualidade de vida da classe trabalhadora no país, o peronismo é identificado muitas vezes como sendo uma corrente da esquerda, tanto que a vitória do candidato de centro esquerda Alberto Fernandez, que tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner foi considerada uma vitória do peronismo e da esquerda no país. 

Mas definir a qual vertente pertence o peronismo não é tarefa das mais simples, pois, ele abrange diferentes teorias. Na Argentina as pessoas até brincam que o peronismo é muito mais que uma corrente política, mas é um estado de espírito.  A ideologia peronista defende a industrialização, o controle das exportações, o Estado forte, a saúde e educação públicas,  subsídios sociais, neutralidade internacional e integração política e comercial sul-americana.

peron_juan-evita_big-flip
Perón e sua esposa Evita se tornaram símbolos da ascensão da classe trabalhadora na Argentina. Imagem Reprodução Internet.

Expressões extremas do peronismo surgiram durante as décadas de 1960 e 1970: os guerrilheiros de Montoneros e, ao mesmo tempo, a organização paramilitar Aliança Anticomunista Argentina (Triplo A).

A primeira coisa que pergunto aos estrangeiros é se, em seus países, os fenômenos políticos são simples. A rebelião catalã é esquerda, ou direita? E os Coletes Amarelos da França?”, observa o antropólogo Alejandro Grimson.

O artista plástico Daniel Santoro foi questionado sobre como o peronismo poderia, por exemplo, ser explicado a um finlandês: “Há algo de indefinível, mas alimenta o desejo de gozo, de felicidade”.

E inclui personalidades históricas como o papa Francisco, porque é a doutrina social da Igreja de João XXIII, ou o ídolo do futebol Diego Maradona, um rebelde e transgressor. Ele contém em seu seio um ex-presidente peronista neoliberal, como Carlos Menem, e uma pessoa de centro-esquerda como Cristina Kirchner. E é um caso atípico no Ocidente, que teve duas presidentes, Isabel Perón e Cristina Kirchner, além de uma líder espiritual que era Evita Perón.

Agora o “peronista” da vez é Alberto Fernández, um político de centro-esquerda que defende, como Cristina, políticas de incentivo ao consumo, salários altos, industrialismo e direitos humanos.

alberto-fernandez-e-cristina-kirchner-1569090168669_v2_900x506
A vitória de Alberto Fernández  e Cristina Kirchner, na última eleição,  foi considerada uma vitória do peronismo. Imagem Reprodução Internet.

O conceito de peronismo é tão complicado de explicar que o até o próprio em pessoa, brincava com a questão. Certa vez um jornalista espanhol perguntou a ele como era o arco político argentino: “Veja, na Argentina existem 30% de radicais (socialdemocratas), 30% de conservadores e outros socialistas”. “Mas onde ficam os peronistas?”, questionou o repórter. “Ah, não, todos nós somos peronistas!”, arrematou Perón.

Peronistas ou não desejamos grande êxito ao novos governantes argentinos!

Confira no vídeo abaixo uma excelente contextualização sobre o surgimento do movimento peronista e de que forma ele ainda segue sendo decisivo no cenário político do país vizinho 👇

Fonte: Site Estadão

Medicina na Argentina, uma excelente opção para estudantes brasileiros

O curso de Medicina sempre foi um dos mais disputados no Brasil. Para conseguir entrar em uma universidade pública, o estudante precisa alcançar uma nota extremamente alta no ENEM e para custear um curso em uma  faculdade privada, é necessário ter um poder aquisitivo bem elevado.  Por razões como essa, para conseguir realizar o sonho de seguir a carreira de medicina, muitos estudantes brasileiros estão optando por estudar na vizinha Argentina.

Sem vestibular nas universidades públicas

Diferentemente das universidades brasileiras, as universidades públicas argentinas não têm limites de vagas para vários cursos, incluindo os de Medicina, de acordo com a assessoria de imprensa das instituições acadêmicas. Essa facilidade de ingresso tem sido um chamariz para estudantes brasileiros. O sistema universitário argentino exige dos brasileiros apenas o diploma do ensino médio, reconhecido nos ministérios da Educação do Brasil e da Argentina, e um documento de identidade (o DNI, emitido pelas autoridades migratórias). O desempenho do aluno no ensino médio não é avaliado. No caso do DNI, o processo foi simplificado nos últimos anos, mas o agendamento para o início da emissão do documento pode demorar alguns meses.

Outro fator de peso, segundo acadêmicos ouvidos pela BBC Brasil, é a crise econômica brasileira.  “Nos perguntamos aqui por que tantos alunos brasileiros vieram nos últimos dois ou três anos e entendemos que o período coincide com a crise no Brasil”, disse um assessor acadêmico, pedindo para não ser identificado. “Sem dúvida, o que vem ocorrendo nos últimos tempos chama a atenção”, disse outro. A reitoria da Faculdade de Medicina da  Universidade Nacional de La Plata (UNLP) diz que, nesse caso específico, o aumento é explicado pelo fim recente da exigência da prova de admissão nas universidades públicas, colocando em prática uma lei nacional de 2015. “As provas (de admissão) deixaram de ser exigência para todas as universidades desde o retorno da democracia, nos anos 1980. Mas, por serem autônomas, algumas universidades públicas  ainda aplicavam provas”, explica o reitor da Universidade Nacional de Rosário (UNR), Hector Floriani, à BBC Brasil. Ali, dos cerca de 4 mil alunos de Medicina, 1,5 mil são brasileiros. A UNR, assim como a Universidade de Buenos Aires (UBA), já não exigia há anos o exame de admissão, nem mesmo para o curso de Medicina.

Sarinha 01
Fatores como facilidade de ingresso e preço mais acessível tem levado muitos brasileiros a optar por estudar medicina na Argentina –  Foto Arquivo Pessoal.

Universidade Adventista Del Plata

Uma das instituições que ainda exige o exame de admissão é a Universidade Adventista del Plata (UAP),  localizada na cidade Libertador San Martín na província Entre Rios, a 06 horas de Buenos Aires. É nessa universidade privada que a mineira Shara Anterina Barbosa está cursando medicina desde 2016. Um dos motivos que levaram a jovem a optar por estudar na Argentina foi justamente a maior facilidade de acesso. “Aqui existe uma espécie de vestibular em algumas faculdades privadas, chamado de exame  de ingresso.  A pessoa se inscreve e faz. Existe um material específico para estudar para fazer a prova que  não é tão concorrida como no Brasil, quando são muitas pessoas só para uma vaga. Aqui temos 03 ou 04 pessoas para uma vaga — explica Shara. 

Além da questão da facilidade de acesso, a questão econômica também pesou na decisão de Shara. “No Brasil as particulares são muito caras e as federais são muito difíceis de ingressar. Então comecei a pensar em possibilidades e vi a opção da Argentina.  Optei por estudar em uma instituição cristã, da mesma denominação que eu frequento desde criança, a Adventista. Esse enfoque missionário da Universidade me interessa bastante porque mantêm o aluno conectado globalmente. Posso fazer estágio em várias partes do mundo porque eles têm convênios com instituições em muitos países  e a possibilidade de aprovação no Revalida é muito grande, maior que 90%. Pensei em tudo isso e me pareceu uma boa ideia estudar aqui — afirma a brasileira. 

Adaptação

Sharinha, como é chamada por familiares e amigos, conta que não teve muitas dificuldades para se adaptar, especialmente porque há um grande números de compatriotas  na UAP. “Tenho muitos colegas brasileiros. No meu curso, somos metade”. “As pessoas por aqui são muito amáveis, acredito que por se tratar de uma cidade pequena facilita esse acolhimento dos moradores. Todas as cidades que conheci tem menos de 50 mil habitantes e são muito bonitas: floridas e bem limpas.

Sarinha 03
A beleza das cidades do interior da Argentina chamou a atenção da estudante brasileira – Foto Arquivo Pessoal.

No começo o idioma foi um desafio “Em princípio tive dificuldades com o idioma, porque falavam muito rápido, mas com o tempo e com a quantidade de leitura que temos, isso vai ficando mais fácil, não demorei mais de um mês para me adaptar. Como eu já tinha uma amiga  brasileira estudando aqui foi mais tranquilo”, conta. Em relação à comida Sharinha também não teve muita dificuldade em se adaptar: “Gosto muito dos alfajores, son buenísmos, 😋 — brinca. Eu não gostava tanto, quando cheguei,  mas depois comecei a experimentar variados e realmente são muito gostosos. Eles comem muito doce de leite, pizza e macarrão. Se você gosta de macarrão vai passar bem, porque em todos os lugares você encontra”… 

Brasil

A futura médica conta que apesar de estudar fora, pretende exercer carreira no Brasil. “Eu quero ser médica no Brasil, é uma ideia que tenho, mas posso ir a outro lugar também, na verdade não tenho isso bem definido ainda. Quero ir ao Brasil, fazer o Revalida, quero ter essa segurança, mas gostaria de ir a outros lugares antes, aproveitando que aqui posso ter essa oportunidade. Adoraria voltar um dia, porque amo meu país” — afirma. 

Para quem deseja estudar fora, Shara deixa um recado: “Eu diria a um estudante brasileiro que vale muito a pena vir. Às vezes uma pessoa pensa que é muito longe, é  um outro idioma, mas o bonito que tem aqui, pelo menos na minha experiência, é que você conhece várias culturas. Eu tenho amigos, que são de todos lugares do mundo: Estados Unidos, Chile, Colômbia, Europa, tem pessoas de vários lugares.  Convivendo com elas, você começa a abrir a mente, a ver a realidade de uma outra pessoa e percebe que na realidade, o mundo é pequeno.  Essa experiência faz você expandir sua visão e começar a sonhar mais grande e acreditar que pode ir a qualquer lugar do mundo”… 🇦🇷 🇧🇷

Fonte: Portal G1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Primavera chilena

O Chile é considerado uma das nações mais desenvolvidas de toda América Latina. Visto como exemplo a ser seguido pelos vizinhos, a população do país andino vem demostrando nesses últimos dias que a situação por lá não é tão ideal como se imaginava. Ruas limpas, paisagens lindas, estradas bem cuidadas, inflação controlada, entre outros pontos, camuflam um problema muito relevante:  a intensa desigualdade e a falta de mobilização social.

Como entender a crescente convulsão social que tomou conta do país?  A crise começou quando, por recomendação de um painel de especialistas em transporte público, o governo decidiu aumentar o preço das passagens de metrô em 30 pesos, atingindo um valor máximo de 830 pesos (R$ 4,73, na cotação atual).  Mas com certeza “não é só por 20 centavos”… A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, listou quatro pontos para entender as recentes manifestações chilenas.

santiago 01
Um milhão de pessoas tomaram as ruas de Santiago no dia 25 de outubro pedindo melhorias nas políticas sociais.  A manifestação já é considerada a maior desde o processo de redemocratização.

1. O Chile é um país desigual?

Políticos e especialistas afirmaram que o aumento da tarifa do metrô é apenas a “ponta do iceberg” dos problemas que os chilenos estão enfrentando. A palavra “desigualdade” ganhou protagonismo nos últimos dias, com centenas de manifestantes insistindo que a diferença social entre pobres e ricos no país é excessiva.

Segundo a última edição do relatório Panorama Social da América Latina, elaborado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a parcela de 1% mais rica da população chilena manteve 26,5% da riqueza do país em 2017, enquanto 50% das famílias de baixa renda representavam apenas 2,1% da riqueza líquida.

Por outro lado, o salário mínimo no Chile é de 301 mil pesos (cerca de R$ 1.715,70 — no Brasil, ele é de R$ 998). Segundo o Instituto Nacional de Estatística do Chile, metade dos trabalhadores do país recebe um salário igual ou inferior a 400 mil pesos (R$ 2.280) ao mês. Já no Brasil, como comparação, 60% dos trabalhadores (ou 54 milhões de pessoas) tiveram um rendimento médio mensal de apenas R$ 928 no ano passado, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE.

Com esse salário, os manifestantes alegam que um aumento na passagem do metrô é inconcebível. Ainda mais se considerarmos que o transporte público no Chile é um dos mais caros da mundo, dependendo da renda média. Um estudo recente da Universidade Diego Portales aponta que, de um total de 56 países ao redor do mundo, o transporte no Chile é o nono mais caro.

Assim, existem famílias de baixa renda que podem gastar quase 30% de seu salário no transporte público, enquanto, no nível socioeconômico mais rico, o percentual de gastos nesse setor pode ser inferior a 2%. Dessa forma, o sentimento entre os cidadãos chilenos é de que não houve resposta dos governos a um problema que se arrasta há décadas.

Cristóbal Bellolio, um acadêmico da Universidade Adolfo Ibáñez, disse à BBC News Mundo que “este é certamente um problema estrutural do sistema socioeconômico chileno”. “Não é um mistério que o Chile seja um país muito desigual, apesar do fato de haver muito menos pobreza do que antes.”

chile simbólico
Essa simbólica foto, com a bandeira Mapuche acima,  foi tirada pela atriz Susana Hidalgo.  A imagem viralizou nas redes sociais, pelo mundo inteiro, em apoio às manifestações chilenas.

Para Bellolio, o aumento da passagem do metrô se soma ao aumento do custo da eletricidade, da água e da crise no sistema público de saúde. Os protestos também têm a ver com pensões e aposentadorias: o Chile discute há muitos anos uma reforma do sistema privatizado de previdência, que, para muitos, apresenta deficiências significativas.

“É uma mistura que não oferece esperança de tempos melhores, que é precisamente a promessa do governo Piñera. Pelo contrário, acho que as pessoas percebem que o momento é pior”, afirma.

Claudio Fuentes, professor de Ciência Política da Universidade Diego Portales, pensa de maneira similar. “Houve um grande crescimento da classe média, mas é uma classe média precária, com baixas pensões, altos níveis de dívida e que vive muito de crédito e salários muito baixos. É uma situação em que o dia a dia é precário, cheio de incertezas “, diz.

2. Qual é a responsabilidade do governo Piñera?

Tanto a oposição a Piñera quanto alguns de seus aliados concordaram que o atual governo reagiu tarde às manifestações. Os críticos afirmaram que não houve explicações claras sobre os motivos do aumento da tarifa de transporte e que houve uma “falta de empatia” com os problemas das pessoas por parte do governo.

Além disso, a oposição tem questionado as autoridades pelo fato de o governo ter ameaçado coibir os protestos usando a Lei de Segurança do Estado, sem abordar o mérito das reivindicações. Além disso, os governistas classificaram os manifestantes como “delinquentes” por várias vezes.

“Foi um protesto que começou lento, mas aumentou gradualmente de intensidade, com muitos momentos para reagir. Mas no início houve apenas duas respostas: tecnocracia e repressão. O painel de especialistas define a tarifa e as Forças Especiais a aplicam. Há planilhas do Excel e repressão, enquanto a política permanece cega, surda e muda”, escreveu o jornalista chileno Daniel Matamala em uma coluna no jornal La Tercera.

Piñera foi fortemente criticado no começo das manifestações. Enquanto várias estações de metrô estavam pegando fogo, ele foi visto jantando em um restaurante em Vitacura (um dos locais mais ricos de Santiago). Na ocasião, ele estava comemorando o aniversário de um de seus netos.

Assim, os líderes das coalizões políticas da oposição, como a Frente Ampla, começaram a criticar o presidente e seus ministros. “O governo insiste em concentrar seu discurso na crítica à violência dos protestos, mas suas ações contribuíram para ela. Indolência (“levante-se mais cedo para não pagar passagem mais cara”), mal-entendidos (“crianças em idade escolar não têm motivos para protestar”) e repressão. Não é assim”, escreveu o deputado Gabriel Boric em seu perfil no Twitter.

A ex-candidata presidencial da Frente Ampla, Beatriz Sánchez, disse: “Só precisamos pensar em como o Chile seria diferente se os governos ouvissem o povo antes”. Até um ex-ministro do primeiro governo de Piñera, Harald Beyer, disse ao jornal La Tercera que o episódio “demonstrou a falta de habilidade do governo para lidar com situações como essa”.

Por outro lado, a oposição também não escapou das críticas: há quem diga que ela reagiu tarde e não fez nada para melhorar a qualidade de vida dos chilenos, além de “apoiar os protestos violentos”.

“A oposição cometeu um grande erro: validou a violência (das manifestações). Eles não disseram isso explicitamente, mas estavam desgastados ao contextualizar a violência como parte do descontentamento. E, nesse sentido, o Partido Comunista e a Frente Ampla remaram para o lado do fogo”, diz Cristóbal Bellolio.

chile cancer
Manifestantes pedem melhorias em serviços essenciais como a saúde. Imagem – Reprodução Facebook

3. Como as expectativas de melhorias sociais influenciam o desconforto das pessoas?

Há anos, a classe política chilena vem prometendo melhorias na qualidade de vida dos cidadãos. Reformas educacionais, constitucionais, tributárias e de saúde foram anunciadas, mas muitas delas falharam em atender às expectativas da sociedade.

A agitação social resultou nessa série de manifestações que terminaram em violência e destruição. As causas do descontentamento vieram das expectativas geradas pela sequência de dois governos antagônicos: Michelle Bachelet (de 2006 a 2010 e depois de 2014 a 2018), de centro-esquerda, e Sebastián Piñera, de centro-direita — que também liderou o país em um período anterior, entre 2010 e 2014.

“Se os primeiros governos tanto de Bachelet quanto de Piñera eram símbolos de mudança, as segundas gestões de ambos esgotaram o estoque de esperanças. Eles pegaram a retroescavadeira e enterraram os melhores tempos. Eles estavam surdos à falta de um projeto nacional, um caminho para o desenvolvimento, uma meta compartilhada que dê sentido às dificuldades cotidianas”, escreveu o jornalista Daniel Matamala.

Além disso, é importante lembrar que Piñera foi reconhecido por sua “capacidade de gerar empregos e melhorar a economia”. De fato, durante seu primeiro governo, essa foi sua grande conquista. Desta vez, as pessoas ansiavam o mesmo e, até agora, a realidade econômica ficou abaixo das expectativas da sociedade chilena.

“Havia duas promessas: melhoras econômicas e paz para os cidadãos. Essas foram as chaves desse governo”, explica Claudio Fuentes. O acadêmico acrescenta que “o crescimento econômico foi menor. E, sobre a segurança pública, acaba de sair um relatório que mostra um aumento na percepção de insegurança por parte da população. Tudo isso afeta esse clima de inconformismo”.

chile 01

4. Qual é o papel dos estudantes nas manifestações?

Os recentes protestos foram liderados principalmente por estudantes. A  primeira manifestação ocorreu na segunda-feira, 7 de outubro, liderada por alunos de escolas emblemáticas, principalmente do Instituto Nacional. Este estabelecimento, fundado em 1813, foi o ponto central de organização de protestos. As reclamações têm a ver com a “falta de recursos” para a educação chilena e precariedade nas salas de aula.

Segundo Carlos Peña, reitor da Universidade Diego Portales, os excessos que ocorreram nos últimos dias no Chile são resultado, em parte, do surgimento de uma nova geração “que se manifesta com crescente intensidade”, disse ele ao jornal El Mercurio.

“Não é por acaso que todas essas formas de protesto violento são realizadas por jovens”, acrescenta. Uma das manifestações mais importantes no Chile desde o retorno à democracia também foi liderada por estudantes. A chamada “revolução dos pinguins”, ocorrida em 2006, gerou um precedente importante em relação à demanda social para melhorar a educação no país sul-americano. O nome “pinguim” é uma referência aos uniformes escolares usados no Chile.

Então, em 2011, essa demanda cresceu e o movimento estudantil também provocou grandes protestos, pressionando o primeiro governo de Piñera. Embora não se saiba qual será a verdadeira dimensão das atuais manifestações, os últimos dias podem ser classificados como um dos momentos mais violentos que o Chile viveu em décadas.

Reações

O despertar chileno já está dando os primeiros resultados. O presidente Sebastián Piñera, prometeu aumentar a aposentadoria, melhorar o atendimento na saúde e aplicar impostos aos que ganham mais, uma tentativa de acalmar uma onda de distúrbios e protestos contra a desigualdade que vem sacudindo o país.

No Palácio de La Moneda, o mandatário de centro-direita pediu “perdão” pela falta de visão dos governantes para atender demandas antigas da sociedade que precipitaram as manifestações, que já deixaram mais de 15 mortos.

É verdade que os problemas se acumulavam há muitas décadas e que os vários governos não foram nem fomos capazes de reconhecer esta situação em toda sua magnitude. Reconheço e peço perdão por esta falta de visão”, disse.

Piñera, que nos últimos dias realizou várias reuniões com partidos políticos e representantes das instituições do Estado, disse que parte das medidas terá que passar pelo Congresso e que outras poderão ser implantadas diretamente. O presidente também pediu que todos os ministros do governo renunciassem numa tentativa de reformular radicalmente o atual governo.

Entre as medidas anunciadas pelo chefe de estado está o aumento imediato das pensões e elevações adicionais dentro de dois anos, assim como melhorias nas aposentadorias da classe média, das mulheres e de idosos deficientes.

Mudando o tom de seu discurso em relação aos primeiros dias dos protestos, em que falou de uma “guerra” contra um inimigo poderoso em meio aos distúrbios, o presidente ainda propôs a criação de seguros para conter os gastos de saúde das famílias.

“Esta agenda social não solucionará todos os problemas que afligem os chilenos, mas será uma contribuição necessária e significativa para melhorar sua qualidade de vida”, acrescentou Piñera. Ele também propôs um aumento de 16 por cento no salário mínimo, que passaria para 484 dólares, e um mecanismo para frear a alta recente das tarifas elétricas. Também defendeu elevar os impostos das pessoas mais bem remuneradas.

Homenagem

Um dos momentos mais marcantes dos protestos aconteceu na sexta-feira dia 25 de outubro, quando milhares de pessoas acompanharam centenas de violonistas que tocaram a música El Derecho de Vivir en Paz, do artista Victor Jara, que foi preso, torturado, teve as duas mãos decepadas e foi fuzilado pela ditadura do general Augusto Pinochet, em 1973.

O ato foi realizado em frente à Biblioteca Nacional, em Santiago, com centenas de violonistas tocando as canções de Jara, enquanto a multidão cantava as músicas. Além de poeta, cantor e ativista político,  Jara foi professor, diretor de teatro e compositor. Lutou bravamente contra a ditadura sangrenta de Augusto Pinochet.

Após sofrer várias formas de tortura, Jara tombou crivado de 44 balas em 15 de setembro de 1973, poucos dias após o golpe militar.  Sua morte ocorreu no Estádio Nacional, em Santiago, que foi usado como centro de detenção e tortura. Os restos mortais do cantor, cujo assassinato se converteu em um dos símbolos contra a ditadura pinochetista (1973-1990), estão no Cemitério Geral de Santiago.

Confira a canção original no link abaixo 👇

 

Realmente está sendo de arrepiar a primavera chilena.  E  o  mais bonito é perceber que a  população não  está clamando  por um Salvador da Pátria, ou algo do tipo.  Eles estão vivenciando na prática aquele dito que afirma “que o poder emana do povo”. Desejamos todo sucesso a essa brava gente  ✊ 🌹 🇨🇱

Fontes:  Sites BBC Brasil, Uol e Revista Fórum

 

1939, o ano que não terminou para a Espanha

Em 2019 a Espanha celebra  80 anos do fim da guerra civil que assolou o país. Estima-se que aproximadamente um milhão de pessoas tenham morrido durante os intensos  conflitos ocorridos na década de 1930.   Os combates no território espanhol chegaram ao fim no ano de 1939, porém as novidades sobre o encerramento do conflito, infelizmente,  não seriam tão positivas para a população já que o fim da guerra marcou a vitória de um grupo nacionalista que colocou no poder o  violento general  Francisco Franco.

Contexto Histórico

Assim que se encerrou a guerra civil em território espanhol, teve início o maior conflito internacional do século XX, a Segunda Guerra Mundial.  Francisco Franco, que recebeu apoio de Itália e da Alemanha durante a Guerra Civil Espanhola,  tratou de retribuir a ajuda apoiando esses regimes fascistas que integravam um dos grupos durante a guerra.

O Franquismo se manteve vivo e forte na Espanha mesmo com a derrota de outros países fascistas na Segunda Guerra Mundial, caso de Itália e Alemanha. O regime chegou a ser condenado nos tribunais que julgaram as ditaduras após o término do conflito internacional, mas manteve-se de pé através do poderio de Francisco Franco. A partir daí, foram décadas de dominação do regime Franquista na Espanha.

O Franquismo  era baseado na ditadura do líder que dava nome ao regime e tinha como característica uma forte repressão aos opositores do sistema. As bases do regime eram definidas pelo catolicismo e o anticomunismo.  Mas apesar da afinidade com o  capitalismo  e o pólo ideológico liderado pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, o que marcou a Guerra Fria, a política econômica e a incompetência governamental do ditador  fizeram com que a Espanha parasse de crescer. O regime era mantido por efeito da força radical e eliminadora de adversários que o governo desfrutava. O governo personalista do Franquismo era apoiado ainda pela Igreja Católica e pelo Exército. Com isso, a ditadura comandava os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

obradepicasso-cke
O quadro “Guernica” de Pablo Picasso retrata os horrores sofridos pela população espanhola durante a Guerra Civil.

Os Estados Unidos com sua política ideológica da Guerra Fria investiram milhões de dólares na Espanha, o que elevou a qualidade de vida da população e ofereceu outra máscara para o regime ditatorial. Em troca, Francisco Franco permitiu que os estadunidenses estabelecessem bases militares no território espanhol.

O  Franquismo só chegou ao fim, como regime político, com a morte do ditador Francisco Franco em 1975, o que abriu espaço para a transição para uma democracia parlamentar. A etapa de transição para a democracia,  esteve marcada pelo chamado pacto del olvido, segundo o qual o processo de redemocratização exigia o esquecimento dos traumas e das injustiças cometidas durante a guerra civil e no período ditatorial, o que faz com que até os dias atuais uma grande parte da sociedade espanhola continue discutindo a questão da impunidade de crimes cometidos pelo terrorismo de Estado.

SPAIN-HISTORY-POLITICS-DEMO-FRANCO

Tanto a literatura quanto as artes plásticas e o cinema têm tratado, das mais variadas formas, das memórias silenciadas nesses 80 anos e daquelas que se fizeram ouvir, apesar de todos os riscos e impedimentos. Em 2006, as Cortes Espanholas e o Parlamento Europeu condenaram o Franquismo com a justificava de que há provas suficientes para demonstrar que os direitos humanos foram violados durante o período de governo do ditador. 

Debater para não esquecer

Considerando a importância de se debater esse período tão marcante, que ainda deixa sequelas na sociedade espanhola, professores da Universidade Federal de Minas organizaram  um seminário  que acontecerá no próximo dia 28 de outubro no prédio da Faculdade de Letras. O evento contará com a presença de especialistas no assunto da própria instituição mineira e também de outras renomadas universidades do país.

Confira a programação completa 👇

cartaz espanha completo

Fonte:  Site InfoEscola

 

O que está acontecendo no Equador?

Nosso vizinho Equador vem ganhado espaço no noticiário internacional no mundo inteiro. O presidente, Lenín Moreno,  resolveu até mesmo mudar temporariamente o governo da capital Quito para a cidade costeira de Guayaquil, no mais recente capítulo da maior crise política do país nos últimos anos.

A população resolveu sair em peso às ruas para protestar contra o anúncio de Moreno de eliminar os subsídios a combustíveis para conter o déficit fiscal equatoriano. Mais de 500 pessoas foram detidas em meio às manifestações e conflitos com forças de segurança, e 50 policiais chegaram a ser feitos reféns em diferentes locais.

Os protestos foram originalmente liderados por sindicatos ligados ao setor de transporte, afirmando que o fim dos subsídios a combustíveis está levando a um aumento no preço de itens básicos de consumo.

O governo, por sua vez, mandou prender 20 comerciantes acusados de aumentar o preço de produtos como milho, cebola, cenoura e batata, cujos valores são controlados. O Ministério de Energia também anunciou que as atividades em três campos de produção de petróleo na região amazônica foram suspensas “em razão da tomada das instalações por grupos de pessoas de fora da operação”, segundo a agência France Presse. O governo afirmou que isso afetará 12% da produção de petróleo do país, mas não afirmou quais grupos são responsáveis pela ação.

Bloqueios de estradas também afetaram a distribuição de combustível, levando a escassez em algumas partes do país. Moreno, enquanto isso, afirmou que não vai voltar atrás quanto ao fim dos subsídios e declarou dois meses de estado de exceção. Jaime Vargas, líder indígena, disse que “mais de 20 mil indígenas vão chegar a Quito” para o protesto. Outro líder, Luis Iguamba, afirmou que será mantida a pressão sobre o governo.

A pressão é significativa do ponto de vista histórico, uma vez que protestos liderados por indígenas já foram parte importante, por exemplo, do processo de derrubada do presidente Jamil Mahuad, em 2000, durante outro período de crise.

Disputa de poder

Moreno também acusou seu antecessor, Rafael Correa (hoje em auto auto exilado na Bélgica), de orquestrar um “golpe”. Em discurso na noite de segunda-feira, Moreno afirmou que os protestos não são “uma manifestação de descontentamento social em decorrência de uma decisão do governo”.

“Os saques, vandalismo e violência que vimos mostram que há uma motivação política organizada para desestabilizar o governo, romper a ordem constitucional e democrática”, afirmou, agregando que Correa (seu antecessor e mentor político, antes de virar rival) e o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, estão por trás desse “plano de desestabilização”.

Em Bruxelas, Correa afirmou se tratar de uma “mentira”. “(É absurdo) dizer que sou tão poderoso que com um iPhone em Bruxelas eu poderia liderar os protestos”, declarou à Reuters. “A realidade é que as pessoas não aguentavam mais”, em referência às medidas de austeridade implementadas por Moreno com apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Correa também afirmou que “se necessário, voltarei (ao Equador). Eu teria de ser candidato a algo, por exemplo, a vice-presidente”. Na última semana,  o governo equatoriano afirmou estar aberto à mediação internacional, pela ONU ou pela Igreja Católica, para pacificar o país.

Por que Moreno eliminou os subsídios?

Na semana passada, Moreno afirmou que o subsídio a combustíveis, que custa anualmente US$ 1,3 bilhão, não é mais viável economicamente. A eliminação desses subsídios, inicialmente introduzidos nos anos 1970, é parte de um plano que, segundo Moreno, vai fortalecer a cambaleante economia equatoriana e aliviar seu déficit.

Como parte de um acordo de empréstimo de US$ 4,2 bilhões do FMI, o governo concordou em reduzir os gastos públicos. Segundo a France Presse, o fim dos subsídios, a partir de 3 de outubro, levou a um aumento de 120% no preço dos combustíveis.

Veja nesse vídeo do blog “Espaço em Transformação” explicações sobre o contexto histórico/político que culminaram nessa grande crise 👇

Fonte: BBC Brasil

Blog no WordPress.com.

Acima ↑