Como vivem os brasileiros na Antártida, o único continente sem coronavírus

Um grupo de 16 militares da Marinha do Brasil — 15 homens e uma mulher — permanecem em um “isolamento dentro do isolamento” na Antártida, o único continente do mundo onde não há casos confirmados do novo coronavírus.

Eles moram e trabalham na nova Estação Antártica Comandante Ferraz desde sua reinauguração, em janeiro deste ano, após um incêndio que destruiu parcialmente a estrutura anterior e causou a morte de dois militares em 2012.

E, agora, por causa da pandemia de covid-19, também já não podem mais se encontrar com integrantes de outras bases, como a Estação Polonesa Henryk Arctowski, a mais próxima da brasileira, distante cerca de dez quilômetros. Visitas turísticas também foram vetadas.

A BBC News Brasil conversou por videochamada com dois integrantes do grupo: o capitão de fragata Luciano de Assis Luiz, chefe da estação, e a capitã-tenente Letizia Aurilio Matos, médica.

“Nosso contato com o mundo exterior é apenas por telefone ou videochamada. Mas, diferentemente de vocês, fomos preparados para esse isolamento”, resume Luciano.

Manter a rotina

A jornada dos 16 militares começou em 4 novembro do ano passado, quando desembarcaram na Península Keller, na ilha Rei George, onde fica a estação brasileira, para a missão de passar 13 meses no continente gelado — ou seja, antes de o coronavírus se alastrar pelo mundo.

São 16 militares da Marinha do Brasil que vivem atualmente no continente gelado.

Inicialmente, ocuparam o Módulo Antártico Emergencial (MAE) até a inauguração oficial da estação, em 15 de janeiro deste ano.

Desde então, nenhum deles deixou a Antártida — até a primeira quinzena de dezembro, vão permanecer isolados do restante do mundo.

A troca das equipes é feita durante o verão, uma vez que as temperaturas mais amenas facilitam a logística. É também nessa época que a estação brasileira recebe pesquisadores, responsáveis por coordenar estudos de ponta.

“O mais importante aqui é manter uma rotina. Um padrão de trabalho. Horário para acordar. Horário para trabalhar. Horário para fazer atividades físicas. Horário para se integrar”, diz Luciano.

Ele conta que, a partir de março, com o fim do verão, os pesquisadores vão embora e os militares se dedicam, principalmente, a atividades relacionadas à manutenção da estação.

“Temos que manter os geradores funcionando. Toda a parte de limpeza, geração de energia, tratamento de água. Também precisamos que verificar os módulos externos e os refúgios”, explica.

Essas incursões externas são sempre precedidas de uma análise de riscos, acrescenta o comandante.

Academia de ginástica é uma das amenidades da nova estação.

“Faço a análise de riscos no dia anterior. Avalio aspectos como temperatura, pressão e velocidade do vento. Por exemplo, quando a pressão está caindo, é sinal de que vai vir uma tempestade. Também checo as previsões nos sites meteorológicos”, enumera.

“Já aconteceu três ou quatro vezes de pedir para a equipe retornar à estação. Dependendo do local, isso pode demorar de quatro a seis horas”, acrescenta.

O único caso de emergência aconteceu com uma alpinista brasileira durante o verão, lembra Letizia.

“Ela caiu de uma altura de três metros. Fizemos toda a a estabilização aqui no setor de saúde da estação. Entramos em contato com o hospital da Marinha no Rio de Janeiro, para consultar as condições clínicas da paciente, e fizemos a evacuação aeromédica. Machu Picchu (a base peruana) nos ajudou”, diz.

Desde então, acrescenta Letizia, “houve outros episódios, mas de menor complexidade. Os meninos pegam muito peso e, algumas vezes, têm dores articulares”, acrescenta.

Letizia Aurilio Matos é a médica da estação.

O desafio maior, no entanto, ocorre agora durante o inverno, quando os mares em volta da estação congelam, as temperaturas caem para menos de 20 graus negativos e a escuridão impera — não há praticamente luz do sol.

Só há duas estações polares: verão e inverno (cada um dura seis meses). Isso porque os polos recebem menos energia e calor do Sol, devido à inclinação e órbita da Terra.

Também durante o inverno, alimentos perecíveis e outros itens de necessidade são atirados pelos Hércules C-130 da Força Aérea Brasileira (FAB), uma vez que não é possível mais pousar na estação, devido às baixas temperaturas.

“São pacotes fechados que caem de paraquedas. Recebemos frutas, legumes, verduras, laticínios e ovos”, diz Luciano.

A alimentação é completada por produtos congelados, estocados na estação.

Crescimento pessoal e profissional

Os militares destacam o crescimento “pessoal e profissional” que vêm tendo em meio à experiência de viver na Antártida.

“Uma das coisas mais importantes aqui para mim é o crescimento pessoal. Aprendi a ouvir mais e a lidar melhor com as pessoas. Tenho que saber lidar entre ser militar e ser família. Não dá para ser militar 100% e não dá para ser família 100%. É preciso equilibrar”, diz Luciano.

Letizia completa: “O engrandecimento profissional é maravilhoso. Não tenho nem palavras. Somos mais do que uma família. Temos afinidades e diferenças. Mas essas diferenças nos fortalecem e nos unem cada vez mais”.

Laboratórios servem aos pesquisadores durante verão.

Saudades

Além das saudades da família e dos amigos, os militares também dizem sentir falta tanto de alimentos quanto de cores — e até mesmo do barulho típico das zonas urbanas.

“Parece besteira, mas sinto falta de verduras, frutas”, diz Luciano.

“Sinto falta de cores no ambiente. Aqui é muita terra e neve. Também não tem barulho”, acrescenta Letizia.

Para Luciano, não existe “super-homem” na Antártida.

“Sou mergulhador. Estava acostumado com o frio. Aqui o buraco é muito mais embaixo. Ou você sai equipado com luvas e protetor solar, ou vai acabar o dia com problema. Aqui não existe super-homem. É preciso estar consciente dos seus limites”, diz.

Já Letizia diz que quando chegou e contemplou “toda a dimensão” do continente gelado, ficou “surpresa”.

“Nada do que a gente vê pela TV se compara a estar aqui. O frio, as montanhas, a neve”, diz.

“A fauna e a flora são muito ricas. Parece que não, pois tudo é preto e branco. Mas não se trata de um ambiente estéril. O que tem mais aqui é vida”, conclui Luciano.

Nova estação custou quase 100 milhões de dólares

Nova Estação

A um custo de US$ 99,6 milhões (cerca de R$ 490 milhões em valores atuais), a nova estação é maior e mais moderna do que a anterior.

Dividida em três grandes blocos, possui 4,5 mil metros quadrados de área construída, 17 laboratórios e capacidade para até 64 pessoas. Também conta com biblioteca, uma academia e sala de vídeo/auditório.

Segundo o governo, o objetivo é realizar pesquisas em áreas como oceanografia, biologia, glaciologia e meteorologia.

A Estação Antártica Comandante Ferraz foi instalada pela primeira vez ali em fevereiro de 1984.

Fonte: BBC Brasil

Qual a fórmula da Costa Rica para ter o menor número de mortes pelo coronavírus na América Latina?

Depois de enfrentar uma noite com febre, fortes dores de cabeça e nos ombros, Henry* não hesitou em ir ao centro de saúde na manhã seguinte em San José, Costa Rica.

Foi em 9 de março, três dias após o primeiro caso do novo coronavírus Sars-CoV-2 ter sido detectado no país, que até maio registrava pouco mais de 700 infecções e apenas 6 mortes.

No centro de saúde pública, ele e sua mãe, que também apresentava sintomas, foram submetidos a alguns testes básicos e enviados de volta para casa.

“Eles me disseram que eu tinha uma infecção na garganta”, ele conta à BBC News Mundo, o serviço espanhol da BBC, por telefone.

O venezuelano de 50 anos, residente na Costa Rica, suspeitava ter pego a covid-19 em seu escritório, pois outro funcionário teve resultado positivo alguns dias antes, depois de voltar de uma viagem à Europa.

Em 17 de março, Henry voltou ao centro de saúde para novos exames. Quatro dias depois, recebeu um e-mail: ele e sua mãe deram positivo para covid-19.

Apesar de ter outras doenças, e de sua mãe pertencer a um grupo de risco por ter 70 anos, seu tratamento teve que ser realizado em casa. Sua esposa e filha também foram infectadas.

Henry garante que eles nunca se sentiram abandonados com sua doença, pelo contrário.

“De 21 de março e até finalizar o tratamento os médicos vieram aqui pelo menos um dia sim e um dia não para acompanhar de perto a progressão da doença”, explica Henry.

Eles foram visitados por profissionais de saúde das Equipes Básicas de Assistência Integral à Saúde (Ebais), e o médico ficou em contato com a família por meio de mensagens do WhatsApp.

As Ebais têm sido a primeira linha de resposta à pandemia na Costa Rica e é um dos fatores que permitiram ao país ter a menor taxa de mortalidade por covid-19 na América Latina, dizem especialistas.

Profissionais da saúde vão até as casas dos pacientes para acompanhar tratamento.

“Nossa melhor vacina contra a covid-19 é ter uma população disciplinada e educada e um sistema de saúde bastante consolidado”, disse à BBC Mundo o Dr. Luis Villalobos, especialista em saúde pública da Costa Rica.

“Não investimos no Exército (o país não tem Exército), mas gastamos muito em saúde, previdência e educação, e isso tem sido muito importante”, acrescenta o também ex-reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Costa Rica.

Um sistema de saúde sólido

Villalobos explica que o sistema de saúde do país já foi muito fragmentado, mas as reformas nos anos 90 e 2000 criaram um esquema sólido que lhe permitiu responder a essa pandemia.

As Ebais têm mais de mil centros de saúde espalhadas pelo país, com médicos, enfermeiros, assistentes técnicos e farmacêuticos. A ênfase foi na fase de detecção, crucial para conter infecções.

Como no caso de Henry, quando uma possível infecção é identificada, o monitoramento ativo dos sintomas é mantido até a confirmação. Ele só é hospitalizado se há um agravamento.

O órgão que cuida da saúde e do bem-estar dos costa-riquenhos, a Caixa Costa-Riquenha de Seguro Social, possui uma dúzia de hospitais nas sete províncias do país, disse o Ministério da Saúde do país à BBC News Mundo.

Os momentos mais complicados nos últimos meses ocorreram entre 19 de março e 3 de abril, quando foram confirmadas 325 novas infecções. O pior dia foi 24 de março, com 60 casos.

A Costa Rica é um dos países com a menor taxa de letalidade por coronavírus na América Latina e no mundo. A taxa de letalidade, que indica o número de mortos entre pacientes infectados, é de 0,86%, segundo cálculos da BBC News Mundo com dados da Johns Hopkins University, localizada nos EUA. No Brasil, a média nacional é de 6,8%, segundo o Ministério da Saúde.

Tudo isso se deve em grande parte ao fato de a Costa Rica ser um dos poucos países das Américas (junto com EUA, Canadá, Cuba e Uruguai) que investe mais de 6% do Produto Interno Bruto em saúde.

Ter sistemas de saúde “menos fragmentados, abrangentes, organizados, que manejam bem as informações das pessoas sob seus cuidados”, como na Costa Rica, é o que outros países devem procurar, aconselha Villalobos.

De que outra forma o país foi protegido?

Quando a contagem de casos na Costa Rica atingiu sua primeira dezena, o governo tomou decisões semelhantes a outros países.

Aglomerações, escolas, turismo e atividades sociais foram suspensas e a fronteira foi fechada.

Além disso, foram lançadas campanhas para promover o trabalho em casa, lavagem das mãos e distanciamento social.

Especialistas e autoridades destacam que os costarriquenhos seguiram as instruções notavelmente, diferentemente de outros países.

Um relatório do Google baseado na localização de telefones celulares mostrou que as visitas a lojas e espaços públicos foram reduzidas em 84% e a praias ou centros de recreação, 82%.

“Muitos reagiram. Eles entenderam o momento histórico que estamos vivendo, é um momento muito delicado”, disse o ministro da Saúde, Daniel Salas, na semana passada.

A prática de distanciamento social vem sendo cumprida pela população.

Villalobos concorda com isso, e acrescenta que a transmissão de informações por telefones celulares e o acesso universal à água potável fazem parte da fórmula de sucesso do país no combate ao coronavírus.

“O fato de praticamente 100% da população ter água em casa nos permite tornar a comunicação de lavagem das mãos muito eficaz entre a população”, ressalta.

Pisando em ovos

A Costa Rica tem uma população de 5 milhões, dois terços vivendo na região metropolitana de San José, a capital do país.

Isso permitiu que as autoridades concentrassem recursos nas fontes mais importantes de infecção.

A Costa Rica, no entanto, não está isenta de riscos.

A proporção de testes, de 250 por 100 mil habitantes, está na média da de outros países latino-americanos; políticos da oposição disseram que é pouco.

Além disso, o movimento constante dos nicaraguenses — 8% da população da Costa Rica — levantou questões sobre como controlar o fluxo de pessoas do país vizinho, que não tomou medidas preventivas e registra a mais alta taxa de letalidade por coronavírus da América Latina.

O ministro Salas é cauteloso em relação ao futuro próximo, pois alerta os costa-riquenhos de que o retorno à normalidade não pode ser acelerado, nem ocorrerá no médio prazo.

“A maioria da população, devido ao pouco tempo de presença do vírus em nosso país, não foi exposta, não foi infectada pelo vírus. Podemos ter um aumento de casos, cadeias de transmissão, em pouco tempo”, diz ele.

O país está andando sobre “cascas de ovos muito frágeis”, alerta.

Fonte: BBC Brasil

Pequena cidade na Argentina é totalmente isolada após churrasco “fatal”

Em 19 de março, o presidente argentino, Alberto Fernández, anunciou em sua residência oficial em Buenos Aires que no final do dia a Argentina se tornaria um dos primeiros países da região a entrar em quarentena obrigatória.

No entanto, a centenas de quilômetros de distância, em uma pequena cidade da Patagônia, um grupo de vizinhos decidiu que o decreto presidencial não iria atrapalhar seus planos de desfrutar de um churrasco de domingo.

Não era apenas um churrasco: era também uma festa de aniversário; então, depois de comer, o grupo de familiares e amigos seguiu comemorando.

Comeram churrasco e compartilharam cerveja e vinho da mesma garrafa”, disse o prefeito da Loncopué, no oeste da Argentina, onde o evento foi realizado.

A violação das regras acabou provando-se mortal. Alguns dias depois, o aniversariante, um homem de 64 anos, morreu. As autoridades de saúde confirmaram seu diagnóstico positivo por covid-19.

Outro homem de 68 anos, que nem participou das celebrações, morreu após ter sido infectado por um dos filhos do aniversariante.

E pelo menos 29 moradores de Loncopué testaram positivo para o vírus, um deles uma mulher de 61 anos que teve que ser hospitalizada em um hospital próximo.

O tamanho do surto levou as autoridades regionais a declarar o isolamento total desta cidade de cerca de 6.000 habitantes, bloqueando as vias de acesso. Todas as lojas também foram fechadas.

O promotor que ordenou o isolamento disse que tomou a decisão “para a proteção da saúde pública de todos os cidadãos da cidade, locais próximos e da província em geral”.

O presidente Alberto Fernández foi um dos primeiros líderes nacionais a decretar o isolamento social na América Latina.

Lição

Por sua parte, o prefeito de Loncopué, Walter Fonseca, alertou que “às vezes, quando a quarentena não é realizada adequadamente, essas coisas acontecem”.

“Tem que ser uma lição para pessoas de outros locais entenderem que isso (isolamento social) não é uma piada”, disse ele ao canal de notícias A24.

“Quarentena significa quarentena: você tem que ficar em casa, não pode receber visitas nem nada do tipo.”

“Lamentamos profundamente o que aconteceu conosco, a perda de nossos vizinhos”, disse ele.

Paciente zero

Os pesquisadores ainda não foram capazes de determinar quem foi o “paciente zero” que levou o coronavírus para Loncopué.

Provavelmente, acreditam eles, um vizinho contraiu o vírus durante uma visita a uma cidade vizinha, onde outras infecções foram registradas.

Eles estão convencidos de que o fatídico churrasco teria sido uma das principais fontes de propagação. Vários dos participantes estão entre os casos que deram positivo para a covid-19.

Mas os primeiros que morreram como resultado desse contágio nem participaram da celebração.

O filho da vítima, Claudio, disse que seu pai provavelmente contraiu o vírus de um vizinho, um jovem gasista, que o ajudou a limpar seu aquecedor.

O jovem era um dos filhos do aniversariante, o homem de 64 anos que acabaria morrendo um dia depois do pai de Claudio.

A partir desses dados, as autoridades concluíram que o provável foco inicial de contágio havia sido o churrasco em 22 de março.

Eles imediatamente rastrearam e isolaram os outros participantes daquele evento, vários dos quais foram diagnosticados positivo para a covid-19 (embora muitos sem sintomas).

Falta de consciência

Apesar do drama que está gerando, o coronavírus não conseguiu dividir esta cidade, principalmente dedicada à pecuária, mineração e comércio.

Um símbolo disso foram as palavras de Cláudio, que apesar de ter perdido o pai, garantiu que não guarda rancor contra as pessoas que participaram do churrasco.

“O que aconteceu foi resultado da falta de consciência, mas não havia intenção maliciosa”, disse ele ao canal de notícias da TN.

Ele também enfatizou que seu pai, que estava em uma cadeira de rodas, tinha um relacionamento “muito agradável” com seu vizinho gasista e que ele e sua família eram muito gratos ao jovem por todas as vezes que ele o ajudara.

As duas famílias até falaram ao telefone e lhe ofereceram suas condolências pelas perdas.

Autoridades fecharam os acessos a Loncopué para tentar conter a disseminação do vírus.

Muito longe

O Ministério Público informou que abriu uma investigação para determinar as responsabilidades criminais dos moradores que participaram do churrasco.

No entanto, a imprensa local garante que eles não foram os únicos que violaram a quarentena obrigatória em Loncopué.

Nas últimas semanas também houve outros eventos, como churrascos e casamentos, dizem eles.

Daniel, outro filho do aniversariante que morreu, admitiu no jornal “La Nación” que uma certa “mentalidade de cidade pequena” estava jogando contra eles.

“Foi algo que havia acontecido muito longe dali”, disse ele. “Pensamos que (o vírus) nunca chegaria aqui.”

“Agora o temos entre nós, na cidade”, lamentou…

Fonte: BBC Brasil

Buenos Aires adota operação de choque para evitar propagação do coronavírus em favelas

Uma tropa de cerca de 300 pessoas, vestidas com macacões, máscaras e óculos de acrílicos, entra nas ruas de terra para conter o novo coronavírus nas casas simples do bairro José Luis Cabezas, na província de Buenos Aires. O lugar é cercado por policiais. Os soldados, com apoio de sanitaristas e voluntários, controlam as entradas e saídas do local. Cada morador abre os braços em cruz e é borrifado para que seja eliminado o vírus das suas roupas. Dentro do bairro, eles têm as mãos higienizadas, por algum integrante da tropa, com um spray de álcool em gel.

Cinquenta casas, muitas de chapa, com cerca de 250 moradores, próximas à linha férrea, foram bloqueadas. Os moradores devem ficar isolados durante, pelo menos, 15 dias. Aqueles com qualquer um dos sintomas da covid-19, que pelos tamanhos de suas casas não possam realizar o isolamento, são levados para um hotel, universidade ou hospital de campanha preparados para recebê-los. Aqueles que testam positivo para a doença causada pelo novo coronavírus são encaminhados para tratamento hospitalar, contaram à BBC News Brasil assessores da Secretaria de Saúde da província de Buenos Aires.

“Os moradores que estão isolados recebem alimentos, atenção psicológica, e contam com apoio para o que precisem”, disseram. A bateria de iniciativas, anunciou o governador da província, Axel Kicillof, inclui assistência social para que sejam evitados registros de violência de gênero durante o confinamento.

Os demais moradores, do bairro de cerca de 1.200 habitantes, são parados nos controles policiais e sanitários cada vez que precisam entrar e sair do local. A localidade de José Luis Cabezas, a cerca de uma hora do centro de Buenos Aires, é a segunda da província de Buenos Aires, que é a maior da Argentina, a ser alvo da operação de choque contra o coronavírus.

Vila blindada

No dia 24 de maio, outra tropa de médicos, infectologistas e voluntários, vestidos de macacões e tocas brancas e óculos de acrílicos, isolou a Villa Azul, na mesma província. O lugar com cerca de 5.000 habitantes também foi cercado por policiais. La Villa (na Argentina, sinônimo de comunidade carente, de favela) foi blindada depois que o mapa de coronavírus mostrou a curva ascendente de casos e que “sete de cada dez pessoas testadas tinham tido resultado positivo para a doença”, de acordo com informação oficial.

Como o bairro José Luis Cabezas, que está próximo de grandes conglomerados habitacionais, como Villa Catella, com 15 mil habitantes, a Villa Azul está a poucos metros de uma Villa muito maior, chamada de Villa Itatí, que também tem pelo menos 15 mil habitantes, segundo os últimos dados oficiais disponíveis. Foi temendo que o vírus alcançasse os lugares com maior densidade demográfica que os governos locais decidiram cercá-los com o que foi batizado de “cordão sanitário”.

Assim que Villa Azul, com casas de alvenaria grudadas umas nas outras e ruelas sem asfalto, com áreas com esgoto a céu aberto, foi bloqueada, alguns moradores disseram à imprensa local que se sentiam eles mesmos bloqueados, já que não podem sair à rua do próprio bairro. Entre os moradores, como ocorre em outras villas de Buenos Aires, muitos são, além de argentinos, imigrantes paraguaios, peruanos, bolivianos e chilenos que chegaram ao país ao longo das últimas décadas.

Doze dias depois do início da operação, uma moradora disse ao canal de televisão Telefe, de Buenos Aires, que estava preocupada. “Muitos de nós aqui temos trabalhos (considerados essenciais e autorizados a serem realizados pessoalmente). E agora estamos com medo de perder o trabalho. São muitos dias isolados”, disse a moradora que se identificou como Valeria. Para o governo, são reclamações isoladas, já que a maioria entendeu a importância da estratégia de evitar mortes pela doença no local. “Eu apoio o isolamento porque se o vírus se expandir aqui, aí sim será pior”, disse a moradora Gloria Teresa Guevara à imprensa local. O Coronavírus já fez vítimas fatais na comunidade: Dois moradores de Villa Azul, que já tinham problemas de saúde, faleceram no hospital, acometidos pela Covid-19.

A estratégia de apartar uma comunidade inteira é a mesma aplicada nos asilos com casos de coronavírus, disseram assessores do vice-ministro da Saúde, o médico e sanitarista Nicolas Kreplak, que esteve na operação inicial de choque contra o vírus no local. “Temos que reduzir a circulação do vírus, não podemos relaxar”, disse Kreplak. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, usou uma metáfora para justificar a medida. “É como apagar um foco de incêndio. Um foco que temos que evitar que se esparrame”, disse.

Depredador

O infectologista Pedro Cahn, que integra o comitê de especialistas que assessoram o presidente Alberto Fernández, reconheceu que existe um “conflito de direitos”, quando um lugar é isolado, mas que existe algo “muito maior” em jogo neste momento. A decisão do isolamento da Villa Azul foi tomada em consonância entre prefeitos, o governador da província de Buenos Aires e Fernández.

“Esse direito (de ir e vir) poderá ser recuperado em 15 ou 20 dias, quando a situação ali estiver controlada. Mas enquanto isso, estaremos fazendo algo muito maior, que é salvar vidas”, disse Cahn à emissora de televisão TN, de Buenos Aires.

Profissionais de saúde visitam residências em comunidades carentes para prevenir e diagnosticar casos de coronavírus na Argentina

Para os infectologistas que assessoram Fernández, o vírus está sendo “depredador” entre os excluídos nas Américas, como afirmou Luis Camera, que também faz parte do comitê especial de combate ao coronavírus. “O vírus foi um depredador dos afro-americanos, em vários lugares dos Estados Unidos, atingiu brutalmente Guayquil, no Equador, e Manaus, no Brasil. Na Argentina, felizmente, a mortalidade é baixa. Mas já sabemos que ele ataca aos mais pobres na América Latina”, disse Camera. Segundo estudiosos argentinos, no caso específico das comunidades carentes do país, os baixos índices de mortes estariam ligados a idade dos seus habitantes, onde muitos são jovens. Para Camera, o isolamento é uma das poucas ferramentas disponíveis contra a virulência do coronavírus.

Mas a iniciativa de blindagem gerou críticas de setores opositores. “É uma medida que estigmatiza”, disse o ex-ministro da Saúde do governo Macri, Adolfo Rubinstein. Setores ligados ao ex-governo de Mauricio Macri, anterior e opositor do atual de Fernández, como o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, têm atuado, porém, em sintonia com as medidas do governo central e da província de Buenos Aires, da mesma linha política do atual presidente argentino.

Um dos líderes do movimento político e social Barrios de Pie, que trabalha no Ministério do Desenvolvimento Social, Daniel Menéndez, disse que a Villa Azul tinha virado “um gueto”. Em meio às críticas, o governador Kicillof disse que nenhum lugar estava livre de ser blindado. “Essa medida não é exclusiva dos bairros populares. Elas também podem incluir condomínios ou edifícios. O principal é colocar um freio no vírus”, disse.

Condições difíceis

A província de Buenos Aires tem cerca de 1,7 mil comunidades carentes reunidas, principalmente, no que é definido como “conurbano bonaerense”, que reúne a periferia urbana da cidade de Buenos Aires e parte do território provincial. Nos mapas epidemiológicos, elas representam menos de 20% do total de casos de coronavírus, mas viraram o foco das medidas dos governos pelas condições difíceis em que muitos vivem, sendo impossível o cumprimento do distanciamento social ou até da higienização necessária por falta de água corrente e potável.

Com cerca de 16 milhões de habitantes, a província, que também reúne condomínios de classes média e alta, além de fábricas e produção agrícola, representa em torno de um terço da população de 44 milhões de habitantes do país.

Fonte: BBC Brasil

A Burocracia

Eduardo Galeano é um dos escritores mais conhecidos e amados em Língua Espanhola. Com um jeito bem peculiar de escrever, o uruguaio conquistou admiradores pelo mundo inteiro. Galeano tinha, como ninguém, a habilidade de fazer críticas à sociedade de uma maneira perspicaz, bastante inteligente e irônica, como nessa crônica, chamada “Burocracia”, publicada em seu “Livro dos Abraços”.

Confira abaixo:

Sixto Martínez fez o serviço militar num quartel de Sevilha.

No meio do pátio desse quartel havia um banquinho. Junto ao banquinho, um soldado montava guarda. Ninguém sabia por que se montava guarda para o banquinho. A guarda era feita porque sim, noite e dia, todas as noites, todos os dias, e de geração em geração os oficiais transmitiam a ordem e os soldados obedeciam. Ninguém nunca questionou, ninguém nunca perguntou. Assim era feito, e sempre tinha sido feito.

E assim continuou sendo feito até que alguém, não sei qual general ou coronel, quis conhecer a ordem original. Foi preciso revirar os arquivos a fundo. E depois de muito cavoucar, soube-se. Fazia trinta e um anos, dois meses e quatro dias, que um oficial tinha mandado montar guarda junto ao banquinho, que fora recém-pintado, para que ninguém sentasse na tinta fresca.

Parecidos, mas nem tanto

O espanhol é um idioma bem parecido ao português, essas semelhanças podem ajudar, mas também podem atrapalhar e gerar confusão, dependendo da situação.

Confira, no divertido vídeo abaixo, como existem palavras que, em espanhol se parecem a vocábulos do português e inclusive se escrevem da mesma forma que alguns termos da nossa língua materna, mas que possuem significados totalmente diferentes. 😉

Fonte: Facebook: Página EJA Español – UFMG

Apache

Ser um jogador profissional de futebol é o sonho de milhares de crianças pelo mundo inteiro. Em países em desenvolvimento como Brasil e Argentina, o esporte pode ser o único caminho de ascensão social para meninos e meninas.

A série “Apache” da Netflix conta a história de um garoto que conseguiu vencer na vida superando inúmeros obstáculos. Se trata de Carlos Tévez, também conhecido como Carlitos, que se tornou ídolo no Brasil ao vestir a camisa do Corinthians. O nome da série faz referência ao bairro onde Carlitos cresceu, El Fuerte Apache, na região conhecida como Cidadela em Buenos Aires.

O local é marcado pela violência ligada ao narcotráfico na cidade. E foi exatamente em meio a tiroteios que Carlos começou a chamar a atenção pela habilidade com a pelota. Em sua inocência de criança, corria um enorme risco pra bater uma bolinha diariamente com seus colegas e fazer o que mais gostava desde sempre: jogar futebol.

A série, que em muitos momentos é narrada pelo próprio Tévez, mostra como as coisas podem ser complicadas pra quem vive em um ambiente tão hostil.

Carlitos luta pela sobrevivência desde quando era um bebê, quando teve 50 porcento do corpo queimado, após sofrer um acidente doméstico.

As batalhas do menino são constantes durante toda a vida: não chegou a conhecer o pai, que morreu antes dele nascer, e não foi criado pela mãe, que não tinha boas condições psicológicas.

O que fez a diferença na vida de Carlitos foi o apoio dos tios, que cuidaram dele como a um filho, e conseguiram proporcionar a ele uma estrutura pra chegar ao Boca e depois à seleção e ao mundo. Pena, que como a série mostra, nem todos meninos do Fuerte Apache tem a mesma sorte de Tévez…

Por que todos que aparecem são sempre brancos?

Desde o final do mês de maio, o mundo vem debatendo um tema que já deveria ter saído de pauta há muito tempo: o racismo.

Depois do assassinato covarde de George Floyd, por um policial branco, os Estados Unidos pararam pra acompanhar manifestações que pedem justiça para Floyd e para todos os negros daqui pra frente.

A luta pra combater esse tipo de tratamento injusto, já dura muito tempo. Lá nos anos 70, Muhammad Ali, a lenda do boxe e um dos maiores atletas de todos os tempos, reivindicava uma sociedade mais igualitária para os afro-americanos.

Veja nessa divertida entrevista, divulgada pelo serviço em espanhol da BBC, como desde criança, Ali já questionava como a sociedade não dava voz aos negros. O assunto é sério, mas nada melhor que o humor para criticar nossas mazelas, não é mesmo? ✊

Fonte: BBC Mundo

Adentrando “O Poço”

Se você ainda não assistiu, provavelmente, já ouviu falar de “O Poço”, filme lançado pela Netflix no início do ano e que se tornou um sucesso no mundo inteiro. Muitos explicam o êxito da produção ao fato dela ter sido lançada no momento de isolamento social, provocado pela pandemia do novo coronavírus. Desde o início da quarentena, temos visto cenas da vida real que nos fazem refletir sobre o que acontece no filme, afinal, qual o sentido das pessoas estocarem alimentos e produtos como papel higiênico? A única resposta está no egoísmo humano, característica largamente explorada na película.

Em O Poço, (El Hoyo) Goreng (Ivan Massagué), personagem principal da história, acorda numa cela cinza e escura, acompanhado de um senhor de idade. No meio da sala, um buraco enorme, retangular, por onde você pode enxergar tanto a cela de cima como a de baixo. Eles estão no 48º andar dessa prisão vertical.

Trimagasi (Zorion Eguileor) é o nome do companheiro de Goreng e é ele que explica para o protagonista como funciona a dinâmica do lugar. Ao soar a sirene, uma vez ao dia, uma plataforma enorme desce do andar de cima e se encaixa no buraco do chão. Nela, restos de comida, pratos sujos, copos quebrados, alimentos pisoteados. Trimagasi come com gosto o que está à sua frente, com Goreng observando assustado e enojado. 

Não é preciso ser bom em matemática para logo entender que aquela comida é o que restou do andar 47º, que comeu o que sobrou do andar 46º e por aí vai. Mas são quantos andares? Todos conseguem comer? Ninguém se importa com a higiene? São essas as perguntas que passam pela cabeça de Goreng e, consequentemente, pela nossa.

A escolha dos andares para os prisioneiros é aleatória e dura por um mês inteiro. Você pode passar um desses meses no 6º andar e receber alimentos quase intocados. Ou também pode estar no 159º e receber apenas pratos vazios durante o mês inteiro. E para nossa agonia é apenas no final do filme que descobrimos quantos andares a prisão realmente possui.

O filme espanhol dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia utiliza o roteiro da prisão para escancarar o egoísmo humano dentro de uma óbvia divisão de classes. Se quem está no topo economizasse comida, sobraria para a cela seguinte e assim todos conseguiriam comer, pelo menos um pouco. Mas as pessoas que estão nos andares de cinema abusam do privilégio ao se fartar de comida sem pensar no próximo, naquele que vai se alimentar dos seus restos.

Ao analisar o filme como obra cinematográfica, “O Poço” é um longa metragem que entretém ao nos deixar curiosos, fascinados e, ao mesmo tempo, angustiados mediante àquela realidade. É um daqueles filmes que nos dá tapas na cara ao mostrar, mesmo que numa situação absurda, como a nossa humanidade está se esvaindo. É pesado, é sangrento e mostra o pior (e até o melhor) que pode ser extraído de nós numa situação extrema.

Trimagasi, interpretado por Zorion Eguileor, é um dos destaques do filme, óbvio… Rs

O roteiro faz uma crítica ao sistema capitalista e ao socialismo ao mesmo tempo. É inevitável não lembrar do grau de desigualdade social que o sistema capitalista produz ao assistir a película; mas por outro lado, quando o personagem principal Goreng tenta estabelecer uma espécie de socialismo dentro da prisão, pra que ninguém mais passasse fome ali, ele acaba tendo que partir pra violência pra tentar alcançar seu objetivo. Nesse momento, Goreng percebe que o conceito de solidariedade espontânea, defendido por uma de suas companheiras de cela, que havia trabalhado na administração da prisão, não passa de uma grande ilusão.

Além das inúmeras reflexões sobre a sociedade que o filme produz, a obra é cheia de referências bíblicas e também à maior obra da Literatura Espanhola de todos os tempos: “Dom Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes. Apesar da temática do filme ser bem pesada, existem uns momentos de ironia, que chegam até a mesmo a nos descontrair, dando um toque de humor pra aliviar a tensão. Esses momentos surgem através do velhinho Trimagasi e sua maneira “óbvia” de interpretar os acontecimentos. Todos esses ingredientes nos fazem refletir durante toda a película e constamos que ” O Poço” será uma obra sempre atual, pois, infelizmente o egoísmo é uma característica permanente na espécie humana.

Assista ao vídeo abaixo para entender melhor como o filme dialoga magistralmente com o clássico de Cervantes. E lembre-se: mais importante que o final em si é a mensagem que o filme deseja transmitir….

Fonte: Site Jovem Pan

Nostalgia

Na próxima sexta-feira o Brasil, celebra o dia dos namorados. E para celebrar essa data tão especial para os enamorados, o blog traz hoje um poema bem romântico do escritor uruguaio Mario Benedetti.

Nostalgia

¿De qué se nutre la nostalgia?

Uno evoca dulzuras

cielos atormentados

tormentas celestiales

escándalos sin ruido

paciencias estiradas

árboles en el viento

opobrios prescindibles

bellezas del mercado

cánticos y alborotos

lloviznas como pena

escopetas de sueño

perdones bien ganados

pero con esos mínimos

no se arma la nostalgia

son meros simulacros

la válida, la única

nostalgia es de tu piel.

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